Meditation Talks Serie A 2005 – “O ensinamento de Jesus sobre contemplação I”

Meditatio Talks SERIES A 2005 Jan –Mar 
LAURENCE FREEMAN OSB

O ensinamento de Jesus sobre contemplação

Jesus foi um mestre da contemplação. Ele não saiu por ai dando palestras sobre Meditação Cristã, mas ele era um mestre da contemplação. Se você olhar para o Sermão da Montanha, por exemplo, no qual encontramos seu ensinamento destilado, a essência do seu ensinamento que está nos capítulos 5,6 e 7 do Evangelho de São Mateus. O que nós encontramos lá?

Interioridade

Quando Jesus é questionado sobre a oração, ele não diz que você deve ir às sinagogas todos os Sábados, colocar uma quantia no prato de coleta, acreditar nessa ou naquela ideia, nesse ou naquele pontos da fé, obedecer as regras e regulamentos da sua religião, respeitar as festas e comemorações e observâncias especiais de nossa religião. Ele não diz nada sobre essas coisas. Ele realmente não fala muito sobre observâncias religiosas. Ele assumiu como certo, suponho, que as pessoas eram religiosas. O que vemos no ensinamento de Jesus, onde ele dá mais ênfase, não é a observância, ritos ou doutrina religiosa, mas a interioridade, ou a experiência contemplativa.

Antes de mais nada ele nos adverte dos perigos do formalismo religioso, de uma prática religiosa externa que não tem espírito, que é apenas uma questão de observância. Ele diz: “Não pense que porque você é religioso segundo uma prática externa, ou por ter cumprido as expectativas sociais, você ganhou o favor ou a aprovação de Deus”. Em outras palavras, não sinta, não pense, que você realmente teve uma experiência de Deus só porque você se sente bem em fazer alguma coisa religiosa. Isso é o que ele quer dizer quando fala sobre ganhar a aprovação de Deus. Não pense que você realmente entrou em uma experiência com Deus apenas porque você é muito religioso. Isso é algo que temos que ouvir com muito cuidado, especialmente hoje em uma era de fundamentalismo e formalismo religioso. Nós podemos amar nossa religião e nós devemos amá-la. Devemos amar sua prática. É muito importante para nós. Jesus não disse que você não deveria praticar uma religião. Mas não é onde ele coloca sua ênfase essencial.

Ele diz: “Quando orardes, entra no teu quarto”, que é o seu coração. Em outras palavras, a essência da oração é a interioridade e a solidão. Solidão não no sentido de isolamento, mas solidão no sentido de encontrar nosso verdadeiro eu, de estar em contato com nossa singularidade. Então Jesus diz, “você deve entrar no seu quarto”, o espaço interior da sua própria identidade. Lá você encontra a presença de Deus, lá você entra na experiência de comunhão com Deus. Você ganha a “aprovação” de Deus.

Confiar em Deus.

Outro elemento essencial de seu ensinamento é a confiança em Deus. Ele diz : “Quando você rezar não multiplique as palavras, como fazem os pagãos, que julgam que serão ouvidos à força de palavras”. Essa é uma observação, para nós que somos pessoas religiosas, muito importante de se ouvir! É um grande perigo que existe nas pessoas religiosas achar que realizando mais práticas religiosas, fazendo mais preces, indo com mais frequência à Igreja, enfim, fazendo mais “coisas” religiosas, estaríamos mais aptos à chamar a atenção de Deus apenas porque fazemos essas coisas em abundância. Jesus nos adverte contra isso. “Não multiplique as palavras como os pagãos”. Não se tornem materialistas espirituais. Não pense que você pode “comprar” sua entrada no Reino dos Céus. Não pense que você pode ganhar sua entrada apenas porque faz muitas orações ou muitas práticas religiosas.

Por isso ele nos pede para examinar como que a nossa própria psicologia religiosa. Na verdade, todo Evangelho é uma poderosa crítica a religião humana, não apenas a religião Judaica mas toda religião. Eu acho que a prática da meditação na nossa vida diária também nos trás para a compreensão da oração e das prioridades da religião. Se você pratica a meditação, e muitos de vocês tem praticado por muitos anos, você não desiste de ser religioso. Na verdade, alguns de vocês podem ter se tornados mais religiosos como resultado da meditação. Você não precisa desistir de ir a Igreja ou de orar de outras maneiras. Na verdade, a leitura das Escrituras ou a participação Eucarística torna-se mais poderosa e significativa como resultado dessa interioridade. Você se torna mais autoconsciente e talvez mais autocrítico em sua motivação para orar e participar dos ritos. Você sabe porque está fazendo e o que isso significa.

A prática da meditação, entrar naquele quarto interior do seu coração, faz com que seja muito difícil enganar a si mesmo. Talvez seja essa uma das razões pelas quais achamos difícil meditar. Porque as vezes é difícil encarar a si mesmo, especialmente quando descobrimos que temos nos enganado, nos iludido, varrendo as coisas para debaixo do tapete. A meditação trás tudo para a luz, incluindo as motivações religiosas, porque a luz que brilha em nosso coração começa a brilhar em todas em todos os níveis de nossa mente, em cada aspecto de nossas vidas. Nos trás à um autoconhecimento, a um “despertar-se”. Portanto, ela estará sempre servindo para purificar a nossa religião, para evitar que a nossa religião venha a se tornar apenas algo externo, mágico, formalista e supersticioso. É por isso que a meditação ou a contemplação é o grande antídoto para o fundamentalismo. Qualquer religião se torna fundamentalista se pensarmos que ela é uma forma de manipular Deus ou que é uma maneira de conseguir algo que queremos de Deus. E essa é uma abordagem muito humana da religião e sobre a qual Jesus foi muito forte e claro. Ele diz, “não multiplique as palavras como fazem os pagãos que pensam que quanto mais falarem mais provavelmente serão ouvidos”

Então ele diz, “Lembre-se que o Pai celestial sabe quais são as suas necessidades antes mesmo de você pedir”. Agora, se nós realmente ouvimos, compreendemos e recordamos isso, então essas palavras mudariam nossa forma de orar. Ele não diz que você não deve expressar suas necessidades em palavras, em petição, ou intercessão. Não. É algo muito humano, especialmente se você tem um fardo muito pesado para seu coração, ou um particular problema ou ansiedade. Nada é mais natural que dever expressá-los seja sozinho ou sobretudo na presença de uma comunidade de adoração quando nós oramos pela necessidade dos outros ou as necessidades do mundo, desde que orando com coração sincero. Jesus não diz que não devemos fazê-lo. Mas ele diz: “Basta lembrar que quando você faz isso, Deus já sabe”. Em outras palavras, nós não estamos subordinados à informar Deus de algo que Ele perdeu no noticiário da CNN. Nós não estamos pedindo a Deus para mudar de opinião, ou como se Ele tivesse tido um leve lapso de memória e deixado essa coisa terrível acontecer comigo, assim Ele poderia apenas apertar o botão de “Rewind” e mudar de ideia. Também não estamos pedindo para Deus intervir em nosso nome como se fôssemos seus favoritos mais do que as outras pessoas. Há um versículo muito importante nas cartas de São Paulo – Deus não tem favoritos. Os cristãos não são os favoritos de Deus. Judeus não são os favoritos de Deus *. Deus não tem favoritos. Somos todos igualmente escolhidos, igualmente amados por Deus. Então nós não rezamos a fim de que Deus tome o nosso lado contra o lado de outra pessoa. Não barganhe com Deus, e lembre-se, Ele conhece suas necessidades.

Jesus continua. Existem outros elementos essenciais para a oração, tais como “Não se preocupe. Olhai para as aves do céus e os lírios do campo” diz ele, “não se preocupe com o que você vai comer, ou o que vai vestir”. Ele não está dizendo que essas não sejam preocupações da vida diária, mas está dizendo que não fiquemos obcecados com essas necessidades materiais. Não se tornar excessivamente preocupados com elas, anseios naturais da vida diária. Se você fizer isso , então, a melhor cura para a ansiedade e obsessão é mudar a sua atenção para a beleza da criação de Deus. Para ver que a vida é bela, algo que esquecemos muito facilmente quando nos permitimos que nossas ansiedades e preocupações nos inundem. Nós podemos esquecer que a vida é boa, que a vida é bela. Mesmo em meio ao sofrimento, podemos celebrar a beleza e bondade da vida.

Então Jesus diz “Olhai as aves do céus e os lírios do campo”. Apenas olhar para eles pode não ser suficiente, temos que ver sua beleza simples e natural, então você também irá ver que a vida é puro dom. Ela é dada. Vocês se lembram do que Padre John disse sobre a meditação: “Na meditação nós aceitamos o dom do nosso ser”. Uma pessoa verdadeiramente religiosa é alguém que no fundo do seu coração e em profundo espírito de confiança, tem experimentado o puro dom de ser. Esse é o ponto de partida de todo o verdadeiro culto.

Laurence Freeman OSB
Excerpts from Talk in Singapore
November 2001

Tradução livre deste blog.

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