Leitura Semanal – Deixar que o outro seja quem é

Laurence Freeman OSB, “Letter Nine,”
COMMON GROUND (New York: Continuum, 1999), pp. 104-105.
Tradução da publicação no site da comunidade WCCM.ORG,
http://www.wccm.org/node/292
 


O grande risco que assumimos na meditação é, antes de tudo, sermos nós mesmos. Este é o primeiro passo. Se não dessemos o próximo passo, nós nunca sairíamos de onde estamos e estaríamos como que pulando em uma só perna durante toda nossa vida. O próximo passo é assumir o risco de deixar que os outros sejam eles mesmos. Perceber sua realidade como sendo distinta da nossa é o caminho para realizarmos isso. Vê-los como “real” é o mesmo que amá-los. Iris Murdoch, uma vez escreveu que o amor “é a percepção do individual”. Ela continuou, “o Amor é a difícil realização de que algo diferente de nós mesmos seja real”. Amor é a descoberta da realidade. O que nos atordo-a na realização de nosso destino suprassensível é particularmente inefável.

Voltando nossa atenção para longe de nós mesmos, para a realidade maior “fora de nós”, que nos contém, é o grande ato de contemplação. É o mesmo ato de contemplação que pode ocorre (1) nos relacionamentos, na arte, no servir, e na oração. Certamente aprender a meditar é um caminho fundamental para essa abertura (2). Mas isso não se limita ao ato de meditar. Meditar é aprender a viver contemplativamente em tudo que fazemos. Santo Antônio do Deserto, uma vez chamou os seus discípulos e lhes disse que “sempre respirem Cristo”.

Pequenas coisas guardam grande mistérios. A meditação, como uma prática espiritual diária, em breve torna-se um modo de vida em que a nossa atenção para coisas pequenas expande o horizonte de nossa percepção e da riqueza de nossa existência. A discrição – a grande virtude da tradição do deserto – cresce em nossa forma de julgar e tratar os outros. Com discrição vem a sabedoria do equilíbrio e da moderação. Uma grande força compensatória é necessária para corrigir uma vida que tem oscilado de um extremo, de uma crise, para outra.

Discrição, como um fruto espiritual da meditação, é uma força capaz de fazer isso. Mantém-nos centrados em meio a tempestades e tragédias. Aprendemos eventualmente a não desistir da meditação quando os problemas da vida se tornam muito difíceis. Nós aprendemos que podemos meditar até mesmo na prisão quando parece que sua vida parou. Chegamos a sentir o efeito da meditação em todas as experiências com as quais nos defrontamos na vida: como lidar com os problemas do coração (se apaixonando ou deixando de amar), como lidar com o ciúme ou a cobiça (em proveito próprio ou alheio), como viver com o espinho na carne.

A mentalidade contemplativa, gradualmente cultivada pela meditação, se torna nosso habitual modo de vida. Isso não vai diminuir nossa energia ou amor a vida. Na verdade, ele vai nos estimular e fazer a vida parecer mais maravilhosa. A grande quantidade de energia que nós podemos gastar para tomar decisões simples, por exemplo, é reduzida. Os problemas que nos ocupam, nos ocupam por menos tempo. A angústia de escolher se desfaz no ato da atenção. Quando olhamos claramente, nós realmente podemos ver…

Notas de tradução:
1 – “Pode ocorrer”, usei esse termo no lugar de “podemos fazer” , para evitar mal entendidos visto que a contemplação é graça concendida. O máximo que podemos é estarmos abertos à ela, pela fé. Não temos meio de realizá-la por nós mesmo, pois é Deus que concede.
2 – “caminho fundamental para fazê-lo” , usei o termo “abertura” pelo mesmo motivo acima.

Depois da Meditação, de Simone Weil, “O amor de Deus e a aflição”
ESPERANDO EM DEUS
(London: Fount (HarperCollins), 1977), pp. 60-61.

Não somente amando à Deus damos atenção para sua substância; o amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Aqueles que são infelizes não tem necessidades de nada no mundo a não ser de pessoas capazes de lhes dar sua atenção. A capacidade de dar atenção a um doente é uma coisa muito rara e difícil, é quase um milagre, é um milagre. Quase todos que pensam que têm essa capacidade não a possuem. O calor de coração, a impulsividade, pena, não são o suficiente.

Na primeira lenda do Graal, é dito que o Graal (O milagroso vaso de pedra que satisfaz toda fome em virtude da hóstia consagrada) pertence ao primeiro que perguntar ao guardião do recipiente, um rei paralisado pela mais dolorosa ferida, “O que está se passando contigo?”. É um reconhecimento de que aquele que sofre existe, não somente como um entre muitos, ou como um exemplar de uma categoria social determinada “infeliz”, mas como uma pessoa, exatamente como nós, que um dia foi marcado pela aflição. Por isso é suficiente, e indispensável, saber olhar para ele de uma certa forma. Essa forma de olhar é, antes de tudo, olhar atentamente. A alma esvazia-se de todos os seus próprios conteúdos, a fim de receber em si o ser que se está olhando, assim como ele é, em toda a sua verdade. Só a pessoa que é capaz de atenção, pode fazer isso.

Tradução por Ricardo d’ Arêde


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