8 – Primeiros passos: Primeiros obstáculos

Primeiros passos: Primeiros obstáculos

Começamos um grupo de meditação onde estamos e como somos. Por isso se trata de uma decisão espiritual e um aprofundamento de nossa jornada. Se você pertence a uma paróquia ou a uma comunidade de adoração, comece ai. Fale com o padre ou pastor, com o concílio paroquial ou paroquianos, sobre a meditação como uma forma de oração que você tem descoberto. Você pode estar com sorte e receber uma resposta positiva. Mas esteja preparado para mal-entendidos, desconfortos e até mesmo desconfiança. Lembre-se que muitas pessoas quando ouvem sobre meditação pela primeira vez podem sentir algo como que novo e estranho, na melhor das hipóteses, ou na pior, algo de outro mundo e ameaçador. Alguns irão dizer “isso é budista!”, outros dirão que é perigoso. Mantenha a calma e não desista por causa da decepção com as respostas. Tente responder a suas resistências particulares. Isso ajuda a estar preparado para alguns dos equívocos mais comuns sobre a meditação. Aqui estão alguns deles:                                                           

 

Meditação não é Cristão:: Quer dizer, ela é importada do Budismo ou do Hinduísmo. Explique o melhor que puder que a meditação é uma disciplina espiritual universal presente na maioria das outras religiões, especialmente naquelas que são mais antigas que o Cristianismo. E que esse modo silencioso de oração também está enraizada na tradição Cristã de forma histórica, teológica e escritural. Ela pertence àquilo que é chamado de aproximação “Apofática” de Deus, na qual deixamos as palavras, pensamentos e imagens e simplesmente adoramos em silenciosa atenção. O tipo de aproximação que a maioria dos Cristãos desenvolvem desde sua infância é a chamada aproximação “Catafática”,  onde se fala com Deus ou sobre Deus. Essas duas aproximações são complementares.

Irá ajudar se você estiver familiarizado com a tradição que John Main transmitiu, especialmente em seus dois primeiro livros, “A Palavra que Leva ao Silêncio” (Ed. Paulus) e “Meditação Cristã” (Ed. Paulus). Compartilhar com base nesses dois livros curtos e muito úteis pode colaborar na construção de uma relação de confiança e ajudar aos outros perceberem que a meditação é, de fato, Cristão; uma forma de oração e fé profunda que é parte de nossa tradição. Dois outros recursos eficazes que podem ajudar aos outros a situar a meditação firmemente em solo cristão é o livro de bolso Prática Diária da Meditação Cristã”  (Ed. Paulus) e o DVD “Pilgrimage“, publicado em 11 línguas, que também apresenta os ensinamentos de forma muito simples e conta a história da Comunidade Mundial através do testemunho de meditantes ao redor do mundo.


O mantra não é Cristão
: Outra expressão do medo de que a meditação não seja algo Cristão é o desconforto com o mantra, tanto em relação ao termo quanto em relação a sua “função” de “deixar de lado os pensamentos” como a tradição nos ensina. É importante ter um entendimento básico da tradição do mantra no Cristianismo. Isso não significa que você tenha que ser um historiador ou um estudioso no assunto. As grandes Conferências IX e X de João Cassiano, sobre a oração, explica isso muito bem. Você pode encontrá-las na página da Escola de Meditação no site oficial da WCCM. A intenção do mantra não é “apagar a mente” ou praticar uma autonegação como é a primeira impressão de alguns. Trata-se de entrar na pobreza de espírito, no quarto interior do coração. A fiel recitação daquilo que em latin Cassiano chamou de verso único, ou fórmula, ajuda a manter a atenção no Senhor ao invés de em nós mesmos. A obra prima de espiritualidade do século XIV, “A Núvem do Não Saber”, chama o mantra de palavrinha única que nos ajuda a desviar das distrações para o mistério silencioso de Deus.

John Main escolheu chamar essa palavra sagrada de mantra porque esse foi o termo que se tornou familiar para muitas pessoas e sugere uma relação entre a tradição cristã da meditação e a sabedoria universal. Mantra é, claro que agora também, uma palavra inglesa, de acordo com o Dicionário de Inglês Oxford, mas infelizmente usada com mais frequência para descrever as promessas de campanha dos políticos. Em Sânscrito (a língua raiz da maioria dos idiomas Europeus), mantra significa versículo curto ou uma palavra sagrada usada repetidamente para aprofundar a quietude da mente e a atenção. O Pai Nosso, o Rosário, as palavras da Missa, de bençãos, e as mais comuns, todos os tipos de orações repetidas são, nesse sentido, mantras Cristãos. E é claro, há a autoridade de Jesus que nos diz para “não balbuciar como os pagãos, que pensam que quanto mais falarem mais facilmente serão ouvidos e respondidos por Deus”. Em vez disso, ele nos aconselha a “entrar em nosso quarto interior e fechar a porta” e orar em união com o Espírito. Como diz Cassiano, nós oramos mais profundamente não com os lábios mas com o silêncio, para “Aquele que não busca palavras, mas corações”.


Meditação é perigoso:
Isso vem com mais frequência de certos Cristãos, alguns fundamentalistas ou aqueles que tiveram um treinamento muito restrito. Eles frequentemente tem uma aproximação mais literal das escrituras porque isso parece oferecer uma certeza maisabsoluta. As vezes pessoas com essa atitude tem um alto grau de medo e mesmo de repressão. Assim, elas podem reagir furiosamente quando sentem que sua perspectiva está sendo ameaçada por outra. Elas frequentemente dizem “quando vocês abrirem ou esvaziarem suas mentes, o diabo irá entrar”. Eu normalmente respondo que o mais provável é que o demônio irá sair. Sentimentos negativos e as forças da sombra serão liberadas e a repressão é suspensa. Isso é muito natural mas é importante estar preparado para a turbulência interior que pode ser causada algumas vezes.

A literatura da contemplação Cristã oferece muitas descrições desse processo, assim como conselhos sobre como lidar com ele. Meditação, praticada moderadamente e com fé, não é perigoso. É mais perigoso ser controlado por medos inconscientes do que meditar. Meditação não se trata de apagar a mente mas de ser pobre em espírito, de abrir-se à presença que nos habita. Cristãos que acreditam na ressurreição e no “Cristo em vós, a esperança da glória futura”, devem certamente estar bem confortáveis com a meditação enquanto uma jornada interior.


Meditação é egoísta:
Isso foi o que Marta provavelmente também pensou quando ela criticou sua irmã por não estar fazendo algo. Mas Jesus disse que Maria tinha escolhido “a melhor parte” A descrição evangélica de sua vida mostra que ele equilibrava períodos de ministério ativo com tempos de recolhimento e quietude. Um comportamento auto-obcecado é egoísta. Meditação, entretanto, é um trabalho de desprendimento, afastar a atenção de nós mesmos e da agenda do ego. A princípio a prática é difícil e estranha. Com a perseverança ela se torna familiar e agradável. Aos poucos vai se tornando um bom hábito, um modo de vida, e o trabalho dos períodos de meditação penetra em todas as áreas de nossas vidas. Cada vez mais vemos que a oração não é uma alternativa a ação, mas seu fundamento. Nós descobrimos a relação entre ser e fazer, e que nossa vida é tão boa e profunda quanto nossa oração. “A maneira como você reza é a maneira como você vive”, como acreditavam os primeiro Cristãos.

Se a meditação não mostrasse seus frutos em um crescente amor e compaixão – essa seria uma grande e válida objeção. Mas na tradição Cristã a única medida verdadeira para a meditação é essa “eu estou crescendo em amor?”


Meditação é apenas uma técnica de relaxamento:
Nós ouvimos sobre a meditação, mais na mídia popular, como uma maneira de reduzir o estresse, melhorar o sistema imunológico e lidar com a dor, ansiedade e depressão. Pesquisas clínicas e psicológicas vem provando que a meditação é boa para nós tanto emocionalmente quanto fisicamente. Nós, contudo, ensinamos meditação como oração, como uma prática espiritual, não como uma técnica terapêutica. Não obstante, esses benefícios são dignos de serem mencionados. Eles mostram que a graça opera sobre a natureza. Nossa ênfase, no entanto, é dada aos frutos espirituais que são medidos com menos facilidade que o colesterol mas que são mais relevantes para a qualidade e sentido da existência humana.

Seja qual for a objeção que as pessoas possam levantar quando pensamos em iniciar um grupo, ouça-as. Tente ver de onde elas estão vindo. Esteja preparado com uma resposta. Não seja defensivo ou argumentativo. Lembre-se que a maioria dos clérigos não foram apresentados a uma prática de oração contemplativa em sua formação. De forma bastante humana eles podem se sentir desconcertados com um leigo falando sobre contemplação. E lembre-se que você não está dizendo – e a tradição não ensina – que a meditação é a única forma de oração. Tente compartilhar através de sua própria experiência que a meditação não é um substituto, mas um suporte para todas as outras formas de oração pessoal ou comunitária. Ela alimenta a vida cristã em todas as suas dimensões trazendo as pessoas de volta para a verdade viva do Evangelho com olhos e sentimentos renovados.

Se você receber uma resposta negativa para sua sugestão de iniciar um grupo, responda a rejeição contemplativamente! Isso irá fortalecer você. Considere se você deve esperar e tentar novamente ou reflita se não há outros caminhos, outros lugares ou comunidades que você possa explorar.

Essa rejeição poderia ser o pior cenário. Mas você provavelmente encontrará uma resposta positiva e gratificante. Qual é o próximo passo?

 

Dom Laurence Freeman

Uma Pérola de Grande Valor

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