Addiction and Grace

Spirituality in a Secular Age – 06  Addiction and Grace

6 – VÍCIO E GRAÇA

Espiritualidade em um era secular – Laurence Freeman

TALKS SERIES 2009 B · APR–JUN

LAURENCE FREEMAN OSB

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É muito importante para nós hoje entendermos o que é vício. Num certo sentido vivemos em uma sociedade muito viciada. Toda nossa configuração hoje é socialmente projetada para nos tornar viciados em várias coisas, seja televisão, banda larga, bebida, o uso abusivo de substâncias, seja trabalhar em excesso, ou não trabalhar. Seja numa margem ou noutra nós somos sempre encorajados a depender, a nos tornar viciados.

Vício tem sido definido como a repetição de um ato auto-destrutivo. Nós ficamos repetindo isso apesar de sabermos mais e mais, que isso não é bom para nós e que poderia realmente ser fatal. Antes de matar o corpo ele pode matar a mente e até mesmo o espírito, num certo sentido. Assim, o vício é algo que diz respeito a todos nós porque vivemos numa sociedade orientada ao vício. Mas uma das grandes descobertas do movimento Alcólicos Anônimos, o programa dos12 passos que começou no século passado, foi a relação que existe entre vício e graça, capaz de dar um profundo entendimento para aqueles de vocês que são Cristãos. Através da experiência do vício nós descobrimos aquilo que o pecado realmente significa, e começa a fazer sentido o todo do ensinamento do Evangelho.Eu acho que a maioria de nós fomos levados a pensar no pecado como algo que você faz, que você quer fazer e não deveria fazê-lo porque estaria quebrando as regras. E isso te proporciona prazer. E mesmo o prazer é um tanto suspeito. Por conseguinte, você está quebrando as regras e isso vai levá-lo a ser punido. Pecado está sempre relacionado a punição. Você peca, você é punido. Mas, na verdade, esse não é o ensinamento do Evangelho. Na realidade o Cristianismo muda isso. O verdadeiro ensinamento do Cristianismo é completamente o oposto. A ligação do pecado não é para com a punição mas para com a graça. Isso é o que São Paulo realmente diz, onde o pecado está presente, tanto mais está a abundância da graça. Onde o há pecado você encontra graça, não punição.

Essa visão, que foi o entendimento que transformou São Paulo, e realmente está no coração da doutrina Cristã, é uma visão que se perdeu em algum lugar ao longo dos séculos. O pecado se tornou a violação de uma lei moral ou de um código de regras, assim como você é pego por excesso de velocidade, ou é pego furtando ou quebrando alguma regra e então você tem que pagar o preço por isso. Mas no sentido espiritual que nós encontramos no Evangelho, pecado não é isso. Pecado é o “eu” dividido. São Paulo diz em sua Carta aos Romanos, “aquilo que eu quero fazer eu não faço. O que eu não quero fazer é o que eu me descubro fazendo”. Essa é na verdade uma descrição muito boa de vício, não é? Eu não acho que qualquer um que reconheça ter caído em um vício queira continuar nele. Eles gostariam de parar, mas não conseguem. O entendimento que tiramos disso é que meu desejo é dividido. Meu ser é dividido em dois, o quê eu quero fazer, e o quê eu não posso fazer. E é nessa divisão que a graça entra.

O que é graça? Bem, na verdade a palavra graça significa apenas dom. Algo que você não pode comprar, não existe um preço para ele. É pura dádiva. É dentro do “eu” dividido, fragmentado, dentro dessa abertura, que a graça vem. Ela vem de dentro; de dentro para fora. É onde a meditação faz realmente uma grande diferença para nosso entendimento de pecado e graça, porque nós experimentamos na meditação esse dom. Por quê ele está lá? Nós não sabemos porque ele está lá; não há razão para isso. Mas ele está lá. Você pode chamá-lo de Espírito, você pode chamá-lo de amor, você pode chamá-lo de Deus, você pode chamá-lo de Espírito Santo, mas ele está lá e é dado à você.

Eu penso que o AA, o movimento Alcólicos Anônimos, entendeu bem isso porque ele foi fundado, na realidade, por Cristãos. O movimento AA, em sí, não é uma religião. Ele não carrega qualquer afiliação religiosa, mas ele é uma verdadeira espiritualidade. Nas ocasiões em que eu estive nas reuniões de Alcólicos Anônimos, eu senti a graça muito poderosamente presente ali naqueles grupos de dependentes. Todos eles devem ao menos ter conseguido o primeiro dos doze passos. Eles admitiram seu problema. Podiam admitir isso e podiam falar sobre isso. E sabiam que esse vício era mais forte do que eles. Que a divisão em suas almas era muito grande para que a curassem por si mesmos. Eles não poderiam voltar a si mesmos por si mesmo. Estavam impotentes – essa é a palavra usada no primeiro passo. E esse é um momento muito espiritual. Esse é o momento onde você percebe que não está no completo controle de sua vida. Que você não sabe de onde vem e não sabe onde está indo, mas você sabe que de alguma forma sua existência, seu ser, é um dom. E é interessante que deva ser quando estamos mais impotentes que nós realizemos e experimentemos isso. Esse é o momento onde a graça pode começar a se manifetar.

O elemento que nos faz sentir, e quase ver, a graça em ação naquele grupo quando eles se reunem, é a veracidade ali, a honestidade, as pessoas não tem que fingir. Você pode ter um corretor muito rico sentado ao lado de algum trabalhador desempregado, mas naquele momento eles são iguais. Eles são iguais na honestidade com que podem falar sobre seus problemas. E a honestidade de sua fala é refletida na escuta, que as pessoas realmente se escutam .

Eu lembro de uma reunião na qual eu estava não muito tempo atrás. Havia um cara jovem, muito bem vestido, que parecia muito tenso, e ele começou a falar. Ele disse que estava afastado da bebida por mais ou menos um ano e encontrou um emprego e tinha uma namorada. E ele disse “Minha vida esta se juntando novamente, mas nesse momento o anseio é muito forte. Tudo que eu quero fazer é ir para casa e dizer para minha namorada ir embora e começar a beber”. Foi muito comovente e muito doloroso ouví-lo falar sobre isso. Ele sabia o que estava acontecendo nele mesmo. E era realmente impressionante o silêncio que se seguiu ao que ele disse, porque as pessoas apenas escutaram. Ninguém lhe deu um sermão, ninguém disse a ele o que fazer, ninguém deu a ele qualquer conselho. Ele sabia, ele sabia o que fazer. E ele estava fazendo isso; estava voltando àquele espaço onde sabia que a graça estaria presente para ele tanto exterior quanto interiormente. É assim que a graça trabalha. Está toda em volta de você. A graça rodeia você. É a energia do amor na qual nadamos, vivemos, nos movemos e temos nossa existência. Ele sabia que havia sido atraído para aquele grupo naquele momento de crise e em seguida as pessoas foram até ele e provavelmente deram algum encorajamento pessoal. Sabia que precisava estar com outras pessoas que podiam encarnar a graça e torná-la pessoal, torná-la tangível para ele. Uma dos elementos chaves no programa 12 Passos é que você tem que realizá-lo por si próprio; ninguém vai fazer isso por você. Você precisa de sociedade. O AA é uma sociedade ao invés de uma igreja. Você precisa de sociedade, você precisa de apoio, mas finalmente você tem que realizar o trabalho por si próprio.

A meditação se refere especificamente ao passo 11 no programa 12 Passos onde nos é falado sobre a oração e meditação para aumentarmos nosso contato, nos tornarmos mais consciêntes de Deus, que é o doador pessoal da graça, como conhecemos. Então, novamente, isso não força você à qualquer credo, ou religião ou conjunto de crenças particulares. Eu acho que em mais de seis dos 12 passos a palavra Deus é mencionada, o que é surpreendente em se tratando de um grupo não religioso para que Deus devesse ser explicitamente mencionado. Deus é a melhor palavra que nós temos para descrever a natureza pessoal da graça que está presente, em nós e entre nós.

Agora, a maioria de nós, a maioria das pessoas, não tem um ínicio direto em tais vícios auto-destrutivos mas em vícios socialmente mais aceitáveis. E eu acho que se nós tirarmos alguns poucos momentos para pensarmos em quê nós somos viciados poderemos ser surpreendidos. Se nós realmente formos honestos com nós mesmos, se nós fizermos como o primeiro Passo e realmente admitirmos a nós mesmos as coisas em que somos viciados, podemos ser surpreendidos. Mas ao mesmo tempo perceberíamos que são esses vícios que limitam a liberdade – é o que o vício faz, ele dissolve a sua liberdade, ele coloca você no pior tipo de prisão que é a prisão do próprio ego. Esse vício, mesmo que não seja um vício tão grave como heroína ou álcool, ou alguma coisa auto-destrutiva, fisicamente auto-destrutiva, esse vício, mesmo em nível mais baixo, é uma fonte de graça se nós admitirmos ele, se nós encararmos ele.

E assim, para a maioria das pessoas, eu diria que a prática da meditação é um modo de lidar com os vícios que nós podemos nem mesmo saber que temos mas que precisamos ao menos admitir. E fazendo isso, expomos a nós mesmos, abrimos nós mesmos à graça. No décimo primeiro Passo fala sobre oração e meditação. Na Tradição Cristã, eu diria que meditação é oração. Ela é uma forma de oração. Não é a oração que nós normalmente somos ensinados a fazer quando crianças, não é oração mental. Em outras palavras, não estamos falando para Deus, não estamos pedindo coisas a Deus, não estamos usando a mente ou as palavras das escrituras ou nossa imaginação. Essas são formas perfeitamente válidas, boas e úteis de oração. E todas as formas de oração são válidas. Nós nunca devemos sair por ai dizendo “minha forma de oração é melhor que a sua”, ou “você não deveria estar rezando desse jeito, você deveria rezar desse jeito”. Porque basicamente isso é graça, é o Espírito, e nossas próprias necessidades nos levam a formas particulares de oração. Nós precisamos delas. E a vida sem oração é uma vida diminuída, não é plenamente humana porque não estamos abertos a todo nosso potencial – não estamos abertos a nosso potencial para transcendência ou para nosso potencial de auto-doação.

Então, de um jeito ou de outro, os seres humanos estão ligados a oração e muito frequentemente nós temos que esperar até que estejamos em uma crise, ou em uma situação extrema antes de realmente descobrirmos isso. Mas, novamente, não temos que esperar até o momento extremo, momentos de crise, ou a décima primeira hora. Nós podemos aprender a rezar. Nós podemos aprender a nos abrir a essa graça mesmo em nosso “si mesmo” dividido pelos vícios que nós temos na vida cotidiana. Seria a coisa mais inteligente a fazer. Seria a coisa mais sábia.

É como pagar um seguro, materialmente falando. E é por isso que eu acho tão importante que nós realmente ensinemos meditação para as crianças, porque estamos dando à eles, não forçando sobre eles, uma prática, um método de oração que pode acompanhá-los através dos desafios, através dos altos e baixos da vida e através dos estágios de seu desenvolvimento. Acompanhá-los ao longo de suas vidas. Essa seria a coisa mais inteligente a fazer. Essa seria uma boa criação. Se todos nós pudéssemos estar cientes dessa forma de oração desde bem cedo… Mas a maioria de nós chega a ela mais tarde na vida. Nós chegamos a ela como pessoas bem mais complexas e também depois de termos sido chutados e feridos durante muito tempo.

Tradução livre desse blog

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