7 – O Caminho da Simplicidade

O Caminho da Simplicidade
Laurence Freeman OSB

A razão por que a meditação faz parte da sabedoria universal da Humanidade e por que ela pode ser praticada por qualquer pessoa, em qualquer estágio da sua vida, é a sua simplicidade. Tomemos um momento para reflectir sobre essa simplicidade. A palavra simplicidade está relacionada com a palavra latina simplex que também era usada por alfaiates e mercadores de tecidos para descrever como eram dobradas as peças de tecido. Se uma coisa era dobrada uma vez, era chamada duplex e, quanto mais se dobrava, mais complex se tornava. Isso queria dizer que mais tempo se demorava a desdobrá-la, até se atingir, de novo, o estado de simplicidade e de completa abertura de espírito de uma criança, o estado simplex.

É este o trabalho da meditação: é desdobrar e permitir à mente e ao coração entrarem num estado isento de autoreflexão, nesse estado de pura oração, em que somos reflexos e imagens de Deus, a luz de Deus. Assim, o caminho para este trabalho, o caminho para este estado, tem que ser, ele próprio, simples. Não nos podemos tornar simples aumentando a nossa complexidade. E é esta a sabedoria simples desta tradição. Ernie e Cathy falaram sobre a tradição de John Main. Talvez ele pudesse não gostar assim muito da ideia, mas, certamente, esta é uma tradição que está associada a si. Ele via-se como (e de facto era) um comunicador, transmitindo uma tradição que nos faz recuar às próprias raízes da nossa fé cristã.

E o ensinamento de Jesus sobre a oração teria de ser compatível com esta prática, se a quiséssemos chamar de Meditação Cristã. O ensinamento de Jesus – que entremos no nosso quarto interior, nos despojemos de muitas palavras, que confiemos em que Deus conhece as nossas necessidades ainda antes de pedirmos, que ponhamos de lado as nossas preocupações e ansiedades, que estejamos concentrados, que ponhamos a nossa atenção no Reino de Deus e que estejamos no momento presente, sem nos preocuparmos com o dia de amanhã – estes elementos apontam para este mesmo estado de contemplação que nos permite dizer que Jesus é o mestre da contemplação. Ele não fala em regras, rituais e regulamentos. É disto que ele fala quando fala de oração. Por isso, a nossa meditação é, simplesmente, o trabalho que fazemos para receber o dom inato e as crianças mostram-nos o quão inato ele é, este dom da simplicidade, a simplicidade de Deus. Deus é infinitamente simples, segundo S. Tomás de Aquino.

Por isso, o caminho para esta simplicidade é simples. Seguindo os ensinamentos dos primeiros mestres da oração, pegamos numa única palavra ou numa frase curta. Repetimos essa palavra ou frase delicadamente, fielmente e atentamente, durante o período da meditação. À medida que a mente vagueia ou vai em busca de respostas ou de soluções ou de distracções ou de sonhos acordados ou de ansiedades ou de stress – todas as diferentes ocupações a que a nossa mente e as nossas emoções estarão habituadas e andarão procurando – simplesmente voltamos à palavra. Lidamos com as distracções recitando a palavra, pela repetição fiel e delicada da palavra. Embora, estando num estado mais complexo, isso nos possa parecer difícil, desafiador, impossível, a criança encara-o quase como uma brincadeira. A criança, certamente, vê-o como uma disciplina, mas uma disciplina lúdica. E se conseguirmos ser um pouco menos rígidos sobre o assunto, um pouco menos orientados para o sucesso e um pouco mais brincalhões com a questão, iremos descobrir, provavelmente, que conseguimos entrar nela tão bem como o fazem as crianças, certamente melhor do que o que conseguiríamos de outro modo.

A escolha da palavra que usamos é importante, porque queremos manter essa mesma palavra ao longo de todo o caminho da meditação, de dia para dia, quando meditamos de manhã e à tardinha. Isso permite que a palavra se enraíze no nosso coração. Os grandes mestres místicos da Tradição Hesicasta, na Igreja Oriental, dizem-nos que a palavra se torna enraizada no nosso coração e faz despertar o estado de oração contínua. A teologia básica que estamos a pôr em prática na meditação é esta: que Cristo está dentro de nós; que nós não sabemos como rezar, mas que o Espírito reza dentro de nós. Então, retiramos a atenção das nossas ideias sobre a nossa própria oração e colocamos toda a nossa atenção na presença silenciosa da Oração de Cristo, da Oração do Espírito dentro de nós.

Sendo cristãos, tomamos o nome de Jesus, um mantra cristão ancestral; ou a palavra Abba, a palavra que Jesus tornou sagrada na Sua oração; ou a palavra que recomendamos, maranata. Esta é a palavra que damos a todas as crianças. É assim que ensinamos. É a mesma palavra que damos a alguém no seu leito de morte ou a uma criança com 5 anos. É uma palavra muito bonita; não é a única, mas é uma bela palavra de oração cristã ou mantra.

Se escolhermos essa palavra, digamo-la como quatro sílabas: MA-RA-NA-TA. Articulamos a palavra claramente nas nossas cabeças e nos nossos corações. Escutamo-la à medida que a vamos dizendo. Não a visualizamos, mas escutamo-la enquanto a fazemos ressoar e permitimos que nos conduza do pensamento para o silêncio. A palavra significa “Vem Senhor!”, mas nós não estamos a pensar nela enquanto a repetimos. Não estamos a pensar em Jesus ou em Deus. Estamos a fazer algo mais, que é estar com. Portanto, a recitação da palavra é um acto de pura fé. Como nos diz a Tradição Cristã: o princípio é a fé; o fim é o amor.

Se escolhermos esta palavra, digamo-la como quatro sílabas: MA-RA-NA-TA. Podemos integrá-la com a nossa respiração, se nos sentirmos confortáveis, dizendo a palavra, enquanto inspiramos, e expirando em silêncio, ou podemos dizer, primeiro, duas sílabas – MA-RA – enquanto inspiramos, e, depois – NA-TA – enquanto expiramos. O importante é não nos preocuparmos com a técnica, mas sermos simples também quanto à própria prática. Portanto, basicamente, digamos a palavra da forma que acharmos mais confortável; digamo-la continuamente, fielmente. Isto é importante porque é isto que constitui a sua disciplina, deixar para trás a consciência de si. Ficamos então abertos ao dom que Deus deseja oferecer-nos.

A nossa postura é importante. Guardemos um momento para nos sentarmos com as costas direitas, os pés no chão. Pomos as mãos no colo ou sobre os joelhos, de modo a que a postura física seja uma espécie de sacramento de toda a experiência da nossa mente e do nosso coração, neste período de oração. Assim, teremos uma sensação de harmonia entre o corpo, a mente e o espírito. Fechamos os olhos levemente, descontraímos os músculos da face, relaxamos os ombros, sentamo-nos direitos e alerta, respiremos normalmente e, então, silenciosamente, nos nossos corações, comecemos a dizer a nossa palavra.

De novo, a palavra que sugerimos é maranata: MA-RA-NA-TA.

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