6 – Como, em silêncio, é oferecido o Dom maravilhoso

Como, em Silêncio, É Oferecido o Dom Maravilhoso
Rev. John Stroyan

Jesus acolhe as crianças e encoraja-nos a tornar-nos como criancinhas, dizendo: “pois o Reino de Deus é daqueles que são como estas.” (Mt 19:14) Estive a ler Karl Rahner, sobre a teologia das crianças, há alguns dias, e ele, referindo-se a estes palavras de Jesus – o Reino de Deus é daqueles que são como estas – escreve que Jesus não está a glorificar as crianças, mas a identificar-se com elas. Porquê? Porque, tal como Jesus, diz ele, “elas esperam tudo de Deus”.

Os grandes poetas reconhecem parte disto. Woodsworth, nas suas famosas palavras:

Seguindo nuvens de glória, vimos nós
De Deus que é a nossa casa:
O Céu está à nossa volta na nossa infância!
As sombras da casa prisão começam a aproximar-se
Do rapaz em crescimento.

Reflectindo sobre este tema dos perigos da idade adulta, perdendo a profunda verdade interior de que somos, primeiramente, filhos de Deus, William Blake, em “Canções de Inocência e Experiência”, contrasta a liberdade, a brincadeira, a espontaneidade da criança com o que pode ser um controlo opressivo e esmagador da alegria, como se percebe na Igreja visível. Ele escreve em “O Jardim do Amor”:

Eu fui ao Jardim do Amor
E vi o que nunca antes vira:
Estava uma capela construída agora
Onde, no verde, eu antes brincara.

E as portas da capela estavam trancadas
E “Não farás…” escrito sobre as portadas;
Por isso voltei para o Jardim do Amor
Que tantas doces flores tinha plantadas.

Vi que estava cheio de sepulturas
E de suas pedras, onde havia de ter flores;
E, em vestes negras, nele rondavam padres
Atando meus desejos e alegrias com urzes.

Como é fácil, na idade adulta, perder esta forma de ser como criança como Cristo à qual somos convidados, inclusivamente, para a própria Igreja. Se não tivermos cuidado, tornamo-nos um obstáculo a essa liberdade gloriosa dos filhos de Deus, asfixiando a alegria, a espontaneidade, a “santa audácia”, para citar Teresa de Lisieux, a que todos somos chamados.

Mas nada disto corresponde a romantizar ou a sentimentalizar as crianças. Todos nós, que conhecemos crianças ou que recordamos a nossa própria infância, sabemos também, como William Golding, que as crianças são capazes de egoísmo, manipulação, actuação em turba e, até, de profunda crueldade. No entanto, também reconhecemos que têm algo que nós próprios perdemos ou com que perdemos o contacto. Jesus diz: “Eu Te agradeço, ó Pai, por teres ocultado estas coisas dos sábios e dos prudentes e por as teres revelado a estes pequeninos.” (Mt 11:25). Há um ditado grego que diz: se queres saber a verdade, pergunta a uma criança ou a um tonto.

Para mantermos a saúde espiritual, precisamos tanto das crianças como elas precisam de nós. Por isso, fico mesmo bastante preocupado quando ouço dizer, como ouço muitas vezes, a maravilhosos devotos cristãos, que descrevem as crianças como ”o futuro da Igreja”. Ainda que isto possa ser verdade, a um determinado nível, de facto esquece a questão principal. Ao acolhermos uma criança em nome de Jesus, é ao próprio Jesus que acolhemos. (Mt 18:5) Jesus vem ao nosso encontra nas crianças, enquanto crianças.

O trabalho do Espírito Santo é certamente o de nos ajudar a recuperar e a penetrar na nossa identidade primária, que não é a de padre ou de religioso ou de professor ou até de mãe ou de pai ou de filho ou de filha ou de irmão ou de irmã, mas a de filhos de Deus. Como escreve S. Paulo: “Deus enviou o Espírito do Seu Filho para os nossos corações, por meio do qual imploramos ‘Abba’, ó Pai”. (Gl 4:6) É o Espírito que nos ajuda a redescobrir a nossa identidade primária enquanto filhos de Deus.

Lembram-se da descrição que John Wesley escreveu no seu diário, depois de sentir o seu coração profundamente aquecido, “estranhamente aquecido” (nas suas próprias palavras) e a sua vida e o seu ministério terem sido transformados maravilhosa e dramaticamente? Ele descreveu a experiência como: “troquei a fé de um servo pela fé de uma criança”.

Na visão de Isaías duma nova criação, de um paraíso restaurado, do predador e da presa em paz um com o outro, quando “o lobo viverá com o cordeiro, o leopardo repousará com a cabra, o vitelo com o leão e a cria, todos juntos”, escreve ele, “e serão conduzidos por uma criancinha.” (Is 11:6ff)

As crianças, na sua abertura à contemplação, à Meditação Cristã, conseguem e querem e, tenho a certeza, estão já a tornar-se um catalizador para a nossa própria abertura a Deus e ao crescimento espiritual. Na oração da quietude, damos espaço a Deus, damos espaço ao nosso verdadeiro ser e, de facto, abrimos mais espaço para o outro, o que é diferente. No silêncio da meditação, a barreira entre grego e judeu, homem e mulher, adulto e criança, as divisões entre culturas e, até, entre fés são rebaixadas.

Termino com algumas palavras duma canção:

Em silêncio, em silêncio,
Nos é dado o maravilhoso dom!
Assim, Deus espalha pelos corações humanos
As bênçãos do Seu Céu.

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