4 – A Meditação Cristã nas Escolas de Townsville

A Meditação Cristã nas Escolas de Townsville
Dr.ª Cathy Day

A razão por que escolhemos percorrer o caminho bastante audaz de introduzir a Meditação Cristã em cada umas das nossas escolas – num total de 12.000 alunos – foi a de que queríamos que tivessem essa experiência. Tanto quanto sabemos, somos a única organização do sistema de ensino que executou um projecto deste tipo – introduzir a Meditação Cristã em todas as nossas escolas. Eu uso um referencial para tomar decisões que é muito simples: será que é bom para todos os nossos alunos? Senti que, no caso da Meditação Cristã, havia uma resposta convincente: sim!

Nós tínhamo-nos tornado meditantes; mas uma coisa é alguns de nós estarmos entusiasmados com determinada coisa; outra inteiramente diferente é irmos ter com os nossos 800 ou 900 professores e dizer-lhes: “olhem, temos mais outra coisa para fazerem hoje”, e esperar que eles adiram à ideia e corram para a implementar. Eu creio que, no entanto, lá bem no fundo, tinha absoluta fé em que, desde que fizéssemos isto de forma a proporcionarmos o devido apoio aos professores, tivéssemos programas de formação, que implementássemos um programa piloto e que permitíssemos a esses professores e à maior parte dos alunos que, basicamente, fizessem as despesas da conversa por nós, iria resultar. Certamente, passados 6 anos, posso, de facto, comprovar que se tornou, creio eu, em algo por que são conhecidas as nossas escolas católicas e a Diocese de Townsville. É uma verdadeira marca de qualidade das nossas escolas.

Eu tinha grande fé nos nossos professores. Temos um ditado que temos usado, ao longo dos anos, com os nossos colaboradores: “Não importa o que o governo nos anda a dizer. Vocês, os nossos professores, não são meros técnicos para aquele curriculum que nos fornecem para nós fornecermos aos alunos. Vocês são os guardiães das portas da maravilha”. Isto produziu verdadeiro eco nos nossos professores porque, instintivamente, eles compreendem que, no âmbito da sua vocação, abrir a mente e o coração de uma criança é, de facto, abrir os portões da maravilha. Por isso, pensei que a Meditação Cristã era apenas uma maneira muito simples de potenciar essa visão daquilo que é um professor nas nossas escolas.

No entanto, não eram só os nossos professores que tinham que ser convencidos. Temos um Concelho de Educação. Basicamente, serve para aconselhar o bispo e, realmente, o bispo tem a autoridade última para dar luz verde a qualquer das iniciativas que estejam para além do que o governo ordena às nossas escolas. Por isso, pensei fazer-lhes uma apresentação, para lhes falar sobre a nossa ideia de irmos mais além do programa piloto e de darmos esse salto de fé, sermos audazes e apresentá-lo a todos os nossos 12.000 alunos.

Pensei sobre o que precisava de lhes dizer. O “Relatório Delors”, apresentado pela UNESCO em 1996, contém os quatro pilares da educação, no seu documento “Aprender o Tesouro Interior”. Até o próprio título parecia gritar-me que se referia à educação interior do coração. Os quatros pilares são:

• Aprender a saber;

• Aprender a fazer;

• Aprender a viver em conjunto e com os outros;

• Aprender a ser.

Não creio que isto esteja, de facto, no nosso novo Curriculum Nacional da Austrália; quem me dera que estivesse. Mas eu acho que é num ambiente escolar religioso que temos que ter a autoridade absoluta e última para marcar o risco e dizer: não somos apenas técnicos de um curriculum; queremos dar aos nossos alunos algo que tenha a ver com a educação do coração.

Numa ambiente escolar católico, eu creio que a forma privilegiada de o fazermos é, certamente, através da nossa experiência de oração, indo além da noção de que a oração é algo que deve ser aprendido. A oração é para ser experienciada. E eu creio que a Meditação Cristã, a oração do coração, tem sido um caminho poderoso, para os nossos alunos, para encontrar esse lugar de quietude, dentro deles, onde os seus corações se podem expandir. Esse foi um dos argumentos que, com certeza, apresentei ao concelho. De facto, o relatório da UNESCO prossegue dizendo que “é a nobre tarefa da educação encorajar todos e cada um, agindo de acordo com as suas tradições e convicções e respeitando, plenamente, o pluralismo, a elevar a sua mente, coração e espírito ao plano do universal e, em certa medida, transcender-se a si mesmo”.

Não será exagero dizer que a sobrevivência da Humanidade depende da meditação. Estas são palavras muito poderosas, mas eu pergunto-me quantas pessoas têm o poder para ditar o que se passa nas escolas. Seguramente, na Austrália, estamos a passar por muito do que tem acontecido no Reino Unido. Os governos tendem a impor tanta coisa, hoje em dia, que se torna um fardo muito pesado e não sei se isso estará a alcançar o resultado que consiste em educar a criança no seu todo. Por isso, se conseguirmos arranjar tempo para colocar um pouco dessa preciosa energia na experiência de oração dos nossos alunos, acho que, não só lhes estamos a fazer um grande favor, como estamos a fazer o trabalho que Deus, realmente, quer que façamos. Diz John Main:

A meditação é o caminho do crescimento, o caminho do aprofundamento do nosso compromisso com a vida, a nossa própria maturidade. É a mais importante prioridade para cada um de nós possibilitar ao seu espírito duas coisas: primeiro, o contacto mais profundo possível com a fonte da vida, e, então, como resultado desse contacto, disponibilizar ao nosso espírito um espaço dentro do qual se possa expandir.

Para mim, isto explica, profundamente, aquilo a que se refere a experiência da oração. O que é que significa para nós quando dizemos que a maior prioridade de todas as vidas, que queiram ser, verdadeiramente, humanas, deveria ser este contacto com a fonte da vida? Jesus disse: “Eu vim para que possais ter a vida e vida em abundância”. (Jo 10:10) O que é que isto quer dizer em termos do que o professor possa fazer, na sala de aula, com os seus alunos, para explicar que é melhor ser do que ter? Para mim, isto está em claro contraste com educar uma criança para ser um produtor ou consumidor para a economia. Tem a ver com o reconhecimento de que o crescimento espiritual da criança tem de receber a atenção do professor.

Ao ensinar Meditação Cristã, estamos, também, a ensinar os alunos a prestar atenção, porque temos uma visão de que a oração tem a ver, sobretudo, com o relacionamento entre nós e Deus e entre Deus e nós mesmos. E a noção de presença, estar presente para a Presença, é, realmente, uma forma muito poderosa de compreender o que é a quietude e o silêncio. Não temos que pensar em coisa alguma; a presença está dentro de nós. Na entrada do nosso gabinete, temos uma pequena placa e essa placa diz: “Invocado ou não, Deus está presente”. Para mim, isto é um lembrete de que, independentemente de compreendermos, de aceitarmos ou de sabermos que Deus está dentro de nós, Deus aí está. Deus é o terreno da nossa existência e o relacionamento entre Deus e cada um de nós é tal que, por pura graça, a separação é impossível. Deus não sabe como estar ausente.

O facto de muitas pessoas experimentarem uma sensação de ausência ou de distância de Deus constitui a grande ilusão que cortejamos. É a condição humana. Os nossos alunos e professores, talvez até vós, eu com certeza, experienciamos esta separação e distância. Ela é real, mas, através do silêncio e da quietude, esta distância percebida não tem a última palavra. A ilusão da separação é gerada pela mente e é sustentada pelo ruído constante, a cacofonia que ocorre na nossa cabeça, que é criada pelas muitas formas diferentes em que nos mantemos, constantemente, ocupados. De certo, a tecnologia é uma dessas formas em que nos mantemos envolvidos com o mundo.

Gostaria de partilhar convosco um artigo que fala sobre esta maravilhosa pesquisa que está a ser feita nos institutos do cérebro, pelo mundo fora, que mostra o que está a acontecer ao cérebro das pessoas, psicologicamente, em termos do impacto de um mundo distraído. Particularmente, o acesso à Internet está a ter não apenas o impacto positivo, que sabemos que pode ter, mas está a ter, também, um impacto significativo no outro lado, no lado sombrio. Este artigo chama-se: “Bombarded with Impulses We’re Turning Scatter-brained” (Bombardeados com Impulsos, Estamos a Tornar-nos Cabeças Ocas). As constantes distracções e interrupções estão a transformar os nossos alunos em cabeças ocas, o que significa que não conseguem concentrar-se, não conseguem aprofundar os conceitos, perdem, muito rapidamente, o sentido daquilo em que deviam estar a concentrar-se. Penso que os professores, hoje em dia, têm, realmente, que ser absolutos génios, em termos das pequenas janelas de tempo em que introduzem informação, de modo a que os alunos possam, realmente, interessar-se por ela, de qualquer forma, de modo a que possa embeber-se nos seus cérebros. Este é o tipo de coisas que eu penso que constitui um sinal de aviso para nós, hoje, em termos da forma como encaramos as tecnologias de informação, a partir dessa noção da criança como um todo. Se quisermos educar para a vida em abundância, temos que fornecer aos alunos esse conhecimento profundo que podem retirar deste tipo de experiência: que eles podem refugiar-se dessa terrível cacofonia, que apenas pode criar dissonância nas suas vidas; e que podem encontrar abrigo, que podem encontrar esse lugar quieto e silencioso dentro deles mesmos. E a Meditação Cristã faz isso mesmo muito bem. Através da Meditação Cristã, permitimos aos nossos alunos experienciar a quietude e o silêncio, desenvolver a compreensão de que é mais importante ser do que ter.

O nosso foco de atenção, em Townsville, é a adopção e a inclusão da Meditação Cristã como uma prática, não como uma abordagem adoque a todas as práticas espirituais. Não se trata apenas de ensiná-la aos nossos alunos. Queremos, realmente, que desenvolvam a disciplina e a prática, porque é aí que reside o potencial transformador. É por isso que consumimos muito tempo com a Meditação Cristã. As pessoas perguntam-me, outros directores questionam-me: porque é que não praticam a espiritualidade inaciana? Porque é que não praticam a espiritualidade franciscana? Temos maravilhosas paróquias franciscanas! Os nossos alunos têm realmente oportunidade de experimentá-las também, mas este é o nosso grande compromisso neste momento – com uma prática que pensamos que irá fazer uma grande diferença nas vidas dos nossos alunos.

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