3 – Os Benefícios e os Frutos Espirituais da Meditação

Os Benefícios e os Frutos Espirituais da Meditação
Laurence Freeman OSB

As crianças têm capacidade para a oração pura – os primeiros cristãos chamavam à meditação oração pura, o real significado da meditação. Portanto, não deveríamos limitá-las, na nossa educação espiritual ou religiosa, àquelas técnicas de relaxamento ou à oração imaginativa ou às meditações orientadas. Não as devemos limitar a isso do mesmo modo que não as devemos limitar à instrução moral ou à catequese ou à informação doutrinal. Todas elas são coisas boas, úteis e necessárias, mas não esgotam o assunto. Não são a coisa mais directa e intuitiva de que a criança é capaz, no seu relacionamento com Deus. A criança consegue ir bem mais fundo do que isso. E se as ensinarmos a fazê-lo, mesmo tendo nós uma experiência limitada a esse nível, elas irão, certamente, ensinar-nos muito, em compensação, sobre a capacidade que nós temos e que, perigosamente, esquecemos.

É por isto que as raízes espirituais da meditação nas tradições religiosas são importantes e é por isso que existe diferença entre práticas meditativas diversas, no âmbito dessas mesmas tradições. Não devemos confundir esses diferentes níveis de oração. Só porque nos afastámos ou fomos privados desta capacidade de contemplação, isso não nos deveria conduzir a acreditar que a criança também não o poderá fazer. E seria subavaliá-las de forma exagerada e não valorizar a graça deste encontro com as crianças, que faz parte do processo geracional humano.

Pode haver situações em que uma abordagem puramente secular à meditação seja a melhor e em que podemos deixar Deus inteiramente fora do assunto. Não temos que a ligar a qualquer tradição religiosa ou linguagem espiritual. Pode haver situações em que o possamos fazer e em que isso seja o melhor. Podemos abordar a meditação como uma técnica para obter benefícios físicos e psicológicos. A investigação médica sobre este campo é bastante conclusiva. A meditação é boa para nós; é o que nos dizem os cientistas. Mas a meditação não foi inventada por estes investigadores.

Herbert Benson, fundador do “Mind/Body Medicine Institute” no “Massachusetts General Hospital”, escreveu “The Relaxation Response “ (A Resposta do Relaxamento) em 1975. Foi nesse mesmo ano que fundámos o centro de meditação em Londres. Ele escreveu o livro para provar, com base na sua investigação, os benefícios da meditação, como uma técnica puramente secular, psicológica e física, para a redução do stress. Em 1984, escreveu a continuação em “Beyond the Relaxation Response” (Para Além da Resposta do Relaxamento). Nesta pesquisa mais recente, ele demonstrou que os benefícios que ele havia elencado na sua obra anterior eram potenciados praticando a meditação num contexto religioso ou espiritual. Fê-lo sem qualquer preferência pessoal. Tratava-se de uma investigação puramente objectiva. Obtínhamos mais benefícios se acreditássemos em alguma coisa ou se meditássemos em algum tipo de âmbito religioso.

A meditação, naturalmente, pertence a esta sabedoria espiritual comum da Humanidade e o seu mais pleno significado deve ser procurado aí. Os benefícios são incontestáveis, mas, assim como temos benefícios, temos também frutos espirituais da meditação. Estes são descritos e comprovados pela pesquisa mística ao longo de milhares de anos. Enquanto o colesterol, o controlo da raiva, a pressão sanguínea, a insónia, a ansiedade, o sistema imunitário, o stress, a depressão, os ataques de pânico, a memória, a auto-estima, o tratamento do cancro, todos eles são beneficamente afectados pela meditação, os frutos espirituais de amor, alegria, paz, paciência, delicadeza, bondade, gentileza, fidelidade e autocontrolo e uma consciência da nossa bondade essencial são resultados que deslocam o horizonte da nossa existência, da nossa percepção, porque nos conduzem a um autoconhecimento que transcende o ego e nos leva ao limiar do conhecimento de Deus.

A competitividade e o consumismo são egoístas, são actividades centradas no ego. Eu, o meu desejo, o meu medo, a minha imagem. Estas são co-actividades egoisticamente centradas, intensamente desenvolvidas na nossa cultura; somos realmente treinados para estas coisas, que só os vencedores conseguem. E nós ensinamos isto às crianças, desde muito, muito novinhas – a serem consumidores, a serem competitivas, a ser vencedoras. É vital que, neste clima cultural, que intervenhamos activamente para dar às crianças uma consciência baseada na experiência. Com as crianças pequenos, não conceptualizamos isto, mas damos-lhes uma oportunidade experiencial de estarem conscientes de que há uma outra maneira de se relacionarem com elas próprias e com os outros.

De um dos países onde a meditação está a ser ensinada, mandaram-me uma pequena notícia, que dizia: “A 28 de Outubro, realizou-se o Festival Anual de Bem Soletrar na Escola de Santa Helena (América do Sul). Mais uma vez, as crianças abriram o evento com uma curta sessão de meditação. Participaram, não só as autoridades da escola, mas também o supervisor de zona, um importante representante do Ministério da Educação, bem como a estação de televisão Canal 9. A competição tornou-se bastante difícil. A certa altura, uma das crianças disse ao coordenador: “Agora é que era a altura em que devíamos meditar”.

A meditação numa tradição espiritual oferece-nos um sistema de apoio, uma comunidade e um contexto de amizade espiritual que são vitais para a experiência de ser humano e do crescimento humano porque estes frutos da meditação ajudam-nos a perseverar na disciplina da prática. É isso o que aprender a meditar num ambiente escolar nos ensina, bem como às crianças.

Regressemos às nossas próprias memórias dos nossos colegas de turma na escola. Passei muitos anos na escola, desde os sete anos, com mais ou menos o mesmo grupo de amigos e tornámo-nos, de certo modo, muito chegados. Não tão chegados em relação a todos como a alguns em particular, obviamente, mas havia o sentido de uma identidade muito forte do “nosso grupo”. Esta é uma das primeiras experiências que as crianças têm do estabelecimento de vínculos num ambiente social fora da família.

Se conseguem aprender e, realmente, aprendem a meditar com esse grupo e nesse grupo, como parte desse grupo, na sala de aula, estão a aprender algo com imensos benefícios para os seus relacionamentos sociais em fases posteriores das suas vidas. Conseguem reconhecer que as etiquetas e as caricaturas e formas de marginalizar ou caracterizar os indivíduos no nosso grupo não são etiquetas absolutas ou formas de relacionamento absolutas e que podemos ir além delas. Estar sentado em meditação, durante 5, 10 ou 15 minutos, com esse grupo do costume, tem um impacto imenso na formação do nosso sentido de pertença na sociedade.

A meditação em ambiente escolar, é claro, pode ser adaptada a uma fé única. Também pode ser praticada numa forma puramente secular ou numa turma com fés diferentes. Uma das vantagens da forma de meditação que ensinamos, o mantra, é que se trata de algo que encontramos em todas as tradições religiosas. Hoje em dia, também encontramos o fenómeno pós moderno das pessoas que não sabem quem são, em termos de identidade de fé, ou pessoas que não tiveram absolutamente nenhuma formação religiosa, para além do que viram na televisão pelo Natal. A meditação ressalta a distinção entre fé e crença e esta distinção tem imensa importância se quisermos responder àquela questão sobre se Deus tem ou não preferidos.

A fé é a nossa capacidade para o relacionamento, para o compromisso, para o perdão, para a transcendência. Precisamos de crenças, precisamos de sistemas de crença, precisamos de regras e regulamentos, precisamos de limites, precisamos de símbolos sagrados. E estes dois aspectos da nossa viagem espiritual, de fé e de crença, estão ligados e deveriam estar relacionados de forma feliz e estimulante. Mas são distintos. A meditação pode ser praticada em qualquer grupo porque ela é, puramente, um caminho de fé que nos permite viver com a diversidade de crenças.

S. Tomás de Aquino dizia que o objectivo e o prémio da vida é a união com Deus e deu-nos variadas definições sobre o que isso quer dizer – a união com Deus. A que eu mais gosto é a sua 4ª característica da união com Deus, que ele diz que é “a comunidade do supremo deleite, na qual todos partilham do mesmo bem e todos se amam uns aos outros como a si próprios e todos rejubilam pelo bem-estar de cada um”. Seguramente, esse também deve ser o objectivo da educação. Ele explica a importância de ensinar a meditação às crianças porque a meditação nos conduz à experiência da união com Deus. Também explica porque é que Deus não tem preferidos: porque, quando nos tornamos plenamente vivos, plenamente humanos, ajudamo-nos uns aos outros a florescer. Vemos que o nosso florescimento, a nossa felicidade não têm que ser alcançados à custa dos outros, há que chegue para todos, porque há, de facto, uma fonte infinita disto a que chamamos Deus. Por isso, ajudamo-nos uns aos outros a florescer e deliciamo-nos na existência uns dos outros, por muito semelhantes ou diferentes que sejamos. É o fim da competição e o princípio da comunhão.

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