2 – Capacidade para contemplação

Capacidade para contemplação
Laurence Freeman OSB

A meditação é simples, natural e boa para nós. A Ciência Médica, nos últimos 60 anos, assegura-nos que assim é. A cada semana, surge um novo documento de investigação falando dos benefícios da meditação. O mesmo diz a sabedoria espiritual de todas as tradições, ao longo de vários milhares de anos. Hoje, iremos aprender que as crianças respondem à meditação de forma muito natural, entusiástica e que gostam dela. Elas conseguem meditar e gostam de meditar. Talvez muitos de nós nos tenhamos interessado pela meditação, numa fase mais tardia da vida, como uma forma de aprofundar a nossa oração, buscando uma dimensão mais contemplativa – uma vez provado o gosto de Deus, queremos mais, queremos ir mais fundo. Ou talvez tenha sido um psiquiatra ou um médico de família que nos disse, quando o fomos consultar sobe os nossos níveis de colesterol ou de stress: porque não experimentar a meditação?

Seja qual for a razão por que meditamos, sentimos que é um desafio, que é difícil. Assim que começamos a entrar nela, como uma disciplina séria, começamos a tocar um certo tipo de limite dentro de nós mesmos. É a isso que todos os tipos de disciplina nos conduzem. Cada disciplina leva-nos a um estágio de transcendência; vamos além de nós mesmos. A disciplina não é fácil porque ela nos desafia. É suposto desafiar-nos. Não poderíamos crescer se não fosse esse desafio, se não empurrássemos as nossas limitações.

Ela desafia a própria raiz do nosso ego. Este é o entendimento essencial da meditação, que ela nos leva além do nosso ego. E a diferença entre a criança e o adulto é, simplesmente, a densidade e a complexidade, a forma histórica do ego. As crianças têm ego. Temos que as aturar; podemos até achá-las divertidas, desde que não tenhamos que viver com elas. Nas suas diferentes idades, o ego das crianças assume diferentes formas de expressão.

Enquanto adultos, discutimos intensamente quem é o maior, tal como estavam a fazer os discípulos de Jesus, na história contada no evangelho, e acotovelamo-nos para sermos superiores. À medida que vamos entrando no mundo, deparamos com uma selva de competição. Ensinamos a competitividade às crianças, desde muito tenra idade – cada vez mais cedo. Também as crianças podem ser ciumentas, competitivas e sentir-se superiores umas às outras, mas os seus egos são, em geral, muito menos densos, mais fáceis de transcender e elas conseguem passar, de forma muito mais suave e rápida, da competição para a colaboração. Esta era uma das coisas que Jesus estava a tentar dizer, naquele momento de ensinamento em que confrontou os egos políticos dos seus discípulos – quem iria ficar com os melhores “ministérios” no governo do Reino.

A outra coisa que Ele diz é que temos que aprender a receber uma criança “em Seu nome”. Esta é uma expressão subtil; não é uma fórmula mágica. “Em Meu nome” refere-se a um relacionamento. Receber uma criança em Seu nome é, poderíamos dizer, receber o Deus que está no seu interior. E recebendo o Deus dentro dela – namaste – estamos a ficar também mais conscientes do Deus dentro de nós mesmos. Assim, receber uma criança em Seu nome é receber a criança e também o Deus que ela traz dentro de si.

Isto faz-nos pensar – como convém, neste difícil estádio de transição do Cristianismo enquanto instituição, do sistema de crenças enquanto força social – sobre o significado da oração. Qualquer professor ou pai conhece a extraordinária santidade e bondade directas que encontramos numa criança; e aceitar e receber essas qualidades é, imediatamente, entrar em contacto com uma energia superior, um nível mais elevado e mais puro de consciência. Mais elevado, mais simples, mais puro, mais transparente, mais desarmante do que o que os nossos egos estão habituados. A fragilidade e a vulnerabilidade de uma criança são, por estranho que pareça, o veículo para um espantoso poder e força – um dos grandes paradoxos da pessoa humana. É, de facto, uma experiência de Deus.

Ensinar, educar crianças é uma experiência espiritual. Seja como for que o entendamos, seja qual for o sistema que usemos, por muito que o profissionalizemos, o ensino e a educação de uma criança são experiências espirituais. São um valor com circulação universal, transcendendo todas as culturas. E é por isso que ser professor e ser pai são vocações da mais elevada ordem. Receber uma criança, desta maneira, recorda-nos do nosso verdadeiro “eu”.

Há alguns anos, eu estava de visita a uma escola da Diocese de Townsville (Austrália). Estávamos a fazer um filme; eu tinha vestido o meu hábito monástico branco. Enquanto as crianças se movimentavam à minha volta, para aprontarem o seu espaço de meditação, como faziam todos os dias, estabelecendo um pequeno círculo, colocando no seu centro o ursinho da oração e acendendo uma vela, e fazendo tudo isto com verdadeiro entusiasmo e alegria, reparei numa rapariguinha, talvez com 6 ou 7 anos, que não estava a participar em toda esta actividade frenética. Ela estava simplesmente a olhar para mim, no meu hábito branco, com um olhar de total e absoluto espanto. Então, olhei para ela e disse-lhe: “Olá! Como é que te chamas?”. Ela não me ouviu de todo, mas continuou a olhar para mim, somente a olhar para mim. E então perguntou: “És um anjo?” Poucos minutos depois, estávamos ambos sentados, um ao lado do outro, no círculo, meditando durante cinco minutos, um minuto por cada ano de idade das crianças.

No final, dei por mim a pensar que tínhamos estado a fazer a mesma coisa. Ela tinha estado a meditar exactamente da mesma maneira que eu. Tenho a certeza que ela estava a meditar muito melhor do que eu e tenho a certeza que ela estava muito mais próxima de Deus do que eu. Cada um de nós, no seu próprio ponto da viagem de desenvolvimento humano – ela ainda nesse mundo mítico e mágico, eu fosse lá onde fosse que estava – no mesmo espaço que podíamos ocupar. Cada um fazendo o mesmo trabalho de estar no momento presente, de deslocar-se da mente para o coração, cada um à sua maneira, segundo a sua própria capacidade. Aquele momento condensou, concentrou, para mim, grande parte do que penso que iremos ouvir falar hoje.

Vemos o presente à nossa frente na criança, a capacidade para a experiência directa da Verdade. O desenvolvimento mais tardio do nosso ego, muitas vezes, bloqueia e confunde esta percepção. É por isso que é tão importante, para nós, recebermos uma criança, relacionarmo-nos com uma criança, como Jesus faz, não como nós o fazemos. Não deveríamos projectar as nossas próprias complexidades sobre as crianças, pois isto constitui o início de um abuso sobre a sua forma de ser crianças. Se o fizermos, estamos a tratá-las como adultos, que é coisa que elas não são. Devíamos ver nelas a simples capacidade para a contemplação. Devíamos ver a sua simples capacidade para a contemplação como um dom. Vemos que este dom é algo que ainda possuímos, por entre todas as nossas complexidades do ego, entre todas os nossos questionamentos complexos, entre todos os nossos sentimentos de fracasso ou de auto-rejeição. Devíamos ver, na sua simples capacidade para a contemplação, o dom com que poderemos ter perdido contacto, mas que é ainda recuperável.

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