1 – Será que Deus tem preferidos?

Será que Deus Tem Preferidos?
Laurence Freeman OSB

Bem-vindos ao primeiro Seminário MEDITATIO, nesta nova extensão da nossa comunidade, à medida que se aproxima o vigésimo aniversário da fundação da Comunidade Mundial na sua forma actual.

Uma vez fiz esta pergunta a um velho e sábio rabino: será que Deus tem preferidos? Ele ponderou a questão durante alguns momentos e disse que, quando era jovem, acreditava, em absoluto, que Deus tinha preferidos. Os preferidos de Deus eram a raça escolhida, o povo escolhido, os Judeus. Na meia-idade, tinha reconsiderado esta ideia e acabou por se aperceber de que Deus não tinha preferidos, que o amor de Deus estava distribuído, de igual modo, por todos. Jesus diz-nos: “O vosso Pai do Céu faz igualmente nascer o sol sobre os bons e os maus e envia a chuva que cai sobre os inocentes e os malvados”. Não há, portanto, aí qualquer favoritismo. Mas, então, disse-me o velho rabino: “Agora que estou velho, voltei à minha percepção original de que Deus tem mesmo preferidos, mas agora sinto que os preferidos de Deus são os “anawin”, os pobres da terra, os que não têm voz, os que são negligenciados, os que são oprimidos.”

Jesus realmente deu uma atenção especial a dois grupos ou indicou uma importância especial de dois grupos: os “anawin”, os pobres, os negligenciados, os oprimidos, os marginalizados; e as crianças. Numa ocasião, apontou para uma criança, para ilustrar o verdadeiro coração e sentido do seu ensinamento, da sua mensagem, que tinha a ver com a simplicidade e a ausência de poder do Reino de Deus:

Aqui fica uma citação do Evangelho de S. Lucas:

Começou uma discussão entre eles sobre qual deles seria o maior. Jesus, que sabia o que lhes ia na cabeça, pegou numa criança, colocou-a ao seu lado e disse: “Quem receber esta criança em Meu nome, é a Mim que recebe. Quem Me recebe a Mim, recebe Aquele que Me enviou, porque o mais pequeno de entre vós é o maior”
(Lc 9 46:48)

Eu penso que este momento no Evangelho é muito revelador para este nosso seminário de hoje e para o trabalho que a Comunidade iniciou, ensinando a meditação às crianças, em particular nas escolas. Há 21 países onde a nossa Comunidade está presente e onde existe um programa activo de ensino da meditação em escolas.

Há outra citação de Jesus que poderíamos usar para descrever o Seu próprio entendimento sobre a criança e a importância da criança:

“A não ser que vos torneis como criancinhas, nunca entrareis no Reino dos Céus.”
(Mt 18 3)

Podemos usá-la quando falamos de meditação, ao tentarmos explicar, com um mínimo de palavras possível, a simplicidade da meditação. A grande ênfase de John Main é sobre a simplicidade da prática e que o objectivo e os meios que ela requer são todos simples. A meditação é um desafio; não é fácil porque é simples.

Eu creio que esta citação sobre pegar numa criança e dizer: “quem receber esta criança em Meu nome é a Mim que recebe” é particularmente útil porque ela aponta para a diferença essencial entre o estado semelhante a uma criança e o estado de adulto, a diferença entra a criança e o adulto. E fala também da necessidade de “receber” uma criança, ou, tal como poderíamos dizer, hoje em dia, de nos relacionarmos com elas, de lhes respondermos, de ser responsáveis perante elas e por elas. Receber as crianças.

Como é que recebemos as crianças na nossa sociedade, na nossa cultura? Estamos intensamente sensíveis a essa questão, hoje em dia, por todo o tipo de razões. Estamos conscientes de como é fácil destruir a infância, abusar dela através das mais diversas formas de abuso que deixam feridas psicológicas para toda a vida. Então, como é que recebemos uma criança? Como é que nos relacionamos com elas? Estas citações de Jesus dão-nos uma importante perspectiva sobre o significado da educação, hoje, e a razão pela qual devíamos, com urgência, ensinar meditação às crianças.

Pensemos nestas palavras de Jesus enquanto nos preparamos para aprender mais sobre a espiritualidade da educação e a vida espiritual das crianças. É nossa responsabilidade, enquanto adultos, educar e formar as crianças. Penso que a maior parte dos pais com que me encontro sofre de uma sensação de fracasso ou de um constante sentimento de que poderia fazer melhor ou de que haveria alguma coisa que teria de ter feito e se esqueceu ou não foi capaz de fazer. Tenho a certeza que os professores também sentem o mesmo, durante a maior parte do tempo. É uma responsabilidade tão avassaladora, que se torna tão deliciosa quando sentimos que estamos, pelo menos, a começar a cumpri-la.

É nossa responsabilidade educar e formar as crianças, mas, ao fazê-lo, também nós aprendemos. Temos que aprender com elas. Nenhum professor poderá ensinar efectivamente, a não ser que ela ou ele esteja a aprender com as pessoas que está a ensinar. É por isso que o Espírito Santo está activo em qualquer relacionamento de aprendizagem – enquanto relação em sentido mútuo, recíproco. Se não existir essa transferência, nos dois sentidos, de sabedoria, de conhecimento, de experiência, então o ensino será apenas instrução, endoutrinação, ou um treino mecânico, um treino técnico. Ensinar envolve um relacionamento. É um relacionamento em que a distância óptima tem que ser respeitada – há papéis diferentes nessa relação que têm que ser mantidos – mas existe um benefício mútuo.

Ao ensinar as crianças, creio que podemos aprender o que precisamos de saber para recuperar, hoje, o nosso próprio equilíbrio espiritual. Há um sentimento muito generalizado de que algo está mal, desequilibrado, não só na economia, mas em muitas das instituições da nossa sociedade e até nos alicerces da nossa compreensão do que a nossa sociedade é e de como deve funcionar. Alguma coisa ficou dessincronizada; algo está desequilibrado.

Ensinar meditação às crianças pode ser uma forma muito mais poderosa de reequilibrar todo o sistema em que operamos do que poderíamos pensar à partida. A Tradição Mística diz-nos, por exemplo, através de S. Gregório de Nissa, que todas as imagens de Deus, todas as ideias sobre Deus, são ídolos, são barreiras, são falsos deuses. Eu penso que faz parte da nossa espiritualidade contemporânea que procuremos Deus para além deste tipo de dualidade, para lá deste tipo de tendência para o julgamento. Buscamos um Deus que nos fale para além das palavras, na intimidade directa do silêncio, livre das construções mentais da nossa própria imaginação, dos nossos próprios desejos e medos, de modo a que este Deus que demandamos não seja uma projecção do nosso próprio ego e das nossas feridas. Um Deus que possa ser verdadeiramente experienciado, tanto em transcendência, como em imanência. Deus dentro e para além de nós. E, nessa descoberta, encontrar a nossa própria cura, plenitude, santidade. Portanto, um Deus de mistério, um Deus de apreensão intuitiva, um Deus de presença.

É esta capacidade da criança de apreensão intuitiva, de estar natural e plenamente presente no momento que nos faz sentir que, de alguma forma, as crianças estão mais perto de Deus do que nós, ou que há uma barreira menos opaca entre a criança e Deus do que a que tem a maior parte de nós. Esta capacidade da criança para estar presente é a capacidade que ela tem para a oração pura, para a contemplação, para a meditação, para a oração do coração.

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