Permanecer Livre

“Sermos nós mesmos, isso soa tão simples, porém exige mais do que pode parecer. Requer o verdadeiro trabalho de abandonarmos nossas projeções e desfazermos as amarras do medo que nos aprisionam. Esse trabalho de liberdade, de nos tornarmos livres, é comumente chamado de desapego no linguajar espiritual. O desapego é o significado positivo da experiência da morte. Ele sempre chega até nós de uma ou outra maneira, quer o aceitemos voluntariamente, ou lhe sejamos resistentes. O desapego sempre distila o sabor de liberdade, o regozijo com a liberdade, mesmo quando ela chega na forma da perda de algo que nos é precioso, algo bom. [Mas] frequentemente deixamos de ver a liberdade que isso nos confere, porque não queremos a liberdade. Só vemos aquilo que queremos… Portanto, reagimos ao desapego encontrando algo mais para nos agarrarmos, o mais rapidamente possível, logo após a ocorrência da perda…

Necessitamos um meio de entrega continuada; não apenas abandonar uma única vez, mas continuar a abandonar, certificando-nos de que não recomeçaremos a nos agarrar a algo, tão logo comecemos a recear as vertigens dos cumes da liberdade. É por isso que necessitamos de um caminho, de uma prática. É por isso que necessitamos meditar. Acima de tudo, para que sejamos livres, para que sejamos nós mesmos, precisamos nos afastar da multidão… Afastarmo-nos da multidão é sempre o primeiro passo do caminho espiritual. Trata-se do primeiro e solitário passo, que damos para sermos nós mesmos e, é um processo muito mais interior do que possamos imaginar… Afastarmo-nos da multidão é um desapego do ego e, uma descoberta, não do isolamento, mas, de envolvimento e do relacionamento com os outros. A verdadeira multidão da qual precisamos escapar, a verdadeira prisão, está dentro de nós mesmos…

Ao sentar imóvel por meia hora toda manhã e, toda noite, você encontrará a multidão. E, ao encontrá-la você se libertará dela. A multidão interior é constituída por todos os eus estilhaçados que o ego produz constantemente; todas as vozes que competitivamente clamam por reconhecimento, por auto-afirmação, por domínio; todas aquelas partes feridas e quebradas de nós mesmos; as pequenas peças de nossa experiência; as pontas soltas das histórias inacabadas; os desejos e temores com suas vozes desenfreadas, que gritam pelo inatingível.

O mantra leva à liberdade, pois ele leva ao eu. A medida que ele segue seu curso maravilhosamente direto e preciso, o mantra integrará, unirá e harmonizará, todos os eus estilhaçados e, formará um eu, nosso verdadeiro eu. Jesus disse que a verdade nos liberta. A verdade não é apenas uma idéia e, por mais que pensemos, pensar não nos libertará. A verdade é uma experiência da realidade, da pessoa integral. A prece é a experiência pura da verdade e, à medida que meditamos, é na prece que adentramos. Dentro da visão cristã, adentramos a prece de Cristo, sua experiência, a mais elevada e completa experiência da verdade de que Deus é a verdade… O fato de que isso é possível para nós é a esperança de uma realidade que modifica nossa vida, desde que a tenhamos visto. Nós a vemos se podemos simplesmente meditar, se podemos ser simplesmente nós mesmos.”

LAURENCE FREEMAN, “Perder para Encontrar”

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