Meditação e Pecado

Compreender e reconhecer o que é pecado para nós ou, para os não religiosos, o que for correlato a essa ideia, parece muito importante para viver realmente o presente em sua plenitude. O pecado não traz o castigo, isso é um erro de leitura para rejeitar mais facilmente esse aspecto, mas o pecado trás a graça, como diz São Paulo, “onde o pecado abundou, superabundou a Graça”. Na liturgia de Vésperas desse terceiro domingo da quaresma, o hino de entrada, nos diz que a consciência do pecado nos torna mais humildes e trás a experiência da misericórdia divina. Mas existe ai uma luta para nos desapegar de nós mesmos, pois se fosse algo fácil, viveríamos nos deleitando em erros para viver na Graça.

Acho que a meditação ou a oração revela bem essa relação entre pecado e distração quando através delas experimentamos como que uma luta para nos manter concentrados em Deus. Essa dificuldade de concentração, essa experiência de ser levado pelas distrações durante a meditação ou a oração, ou como diria Max Picard, essa “Fuga do Eu” através do medo do silêncio, não é um castigo divino contra nosso pecado, mas é uma oportunidade de encararmos e superarmos os ecos de nossos erros, que obstruem a experiência de que vivemos da Graça de Deus constante e eternamente. E aderimos a essa oportunidade através de um esforço que, talvez possa ser dito, se assemelha a experiência de Elias no monte à esperar por Deus.

Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.” – 1 Reis 19:11-12

Quando fechamos nossos olhos para orar, meditar, ou entrar em contato com Deus da nossa forma, não devemos esperar que seja algo simples e imediato. Sim, Jesus disse que o que fosse pedido nos seria dado, mas também disse que Deus é Pai, e qual o Pai que dará uma barra de chocolate para o filho comer no almoço, ainda que assim peça o filho entre lágrimas? Precisamos estar aprofundados para reconhecer certas coisas em nossas vidas e esse aprofundamento não é muito diferente da experiência de Elias no fundo da caverna no alto da montanha à espera.

Afirmar que o pecado é a origem de nossa distração em relação a unidade é algo que pertence a muitas tradições e isso não é para ser remediado com atalhos, dramas, e tão pouco será perenemente remediado. Viver presente é uma peregrinação que sempre nos leva, em algum momento, novamente para onde estamos. Mas não conseguimos continuar onde estamos, no aqui e agora, por causa da distração causada pelo nosso constante estado de pecado.

A distração, a fuga do eu, é uma forma muito efetiva de nos manter elevados e fortes para continuarmos errando com o aval da consciência. Entretanto ao tomarmos consciência do pecado, do erro, falta ou como quer se chame, e através dessa consciência nos humilharmos da altura que talvez tenhamos nos colocado, então estamos no caminho diário que nos leva da distração para a vida no momento presente. Não nos é pedido que nos humilhemos diante da vontade dos outros, mas diante da nossa própria incapacidade de sermos mais abertos e disponíveis. Isso não é algo a se lamentar pois todos temos e continuaremos tendo limitações, se fosse diferente talvez estivéssemos envolvidos em algum complexo de superioridade, mas é algo a nos manter conscientes de nossa distração, de nossos pecados, e continuarmos peregrinando rumo a um coração mais puro.

Talvez esse seja um erro no entendimento imediato na oração e da meditação, achar que através dela estaremos usando de um atalho para a Paz Interior, para a Fortaleza, para a Salvação, para a Sabedoria ou Iluminação. Mas acho que todo aquele que está num caminho de oração percebe logo o fogo, o terremoto, o vento forte, tão logo supere os devaneios iniciais onde foram projetadas toda sorte de ilusões. A brisa na qual Deus nos fala não é a empolgação inicial da caminhada. Essa brisa não vem de Deus, vem de um ventilador de imagens. Mas tanto quanto perseveramos, tanto mais avançaremos em direção ao momento presente, a realidade do agora de Deus, sem atalhos, pois muito pelo contrário, o caminho da oração é estreito e muitas vezes pedregoso. Mas nele sentimos que somos sustentados e não que nos sustentamos, sempre que nos percebemos, ainda que numa faísca do tempo, sob a graça inexprimível de Deus.

Entre tantos “talvez”, a única certeza é a de que Deus sendo amor não castiga o pecado, mas envia sua Graça aos que à ela estão abertos. E nos abrimos à ela purificando os olhos do coração.

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Orgulho espiritual e contemplação.

Nos tramites da experiência consciente, do vício de refletir e avaliar tudo que nos acontece, classificamos e qualificamos não só as coisas mas sobretudo à nós mesmo segundo a destrutiva noção de sucesso e fracasso. Espiritualmente não somos diferentes. Tão logo venhamos a vencer sobre alguns vícios, ou desenvolver intelectual e asceticamente uma consciência auto-importante centrada em nossa capacidade, nos aproximamos de um orgulho inevitável e indesejável que vai crescendo diante de Deus. Essa forma de abordar um crescimento espiritual apenas reflete nossa forma linear de pensar, como significando que procurar à Deus é um processo e, encontrá-Lo, uma recompensa por nossas conquistas espirituais. Mas isso sugere que Deus não se manifesta na medida que quer, quando quer, e que somos nós que o manifestamos à nós mesmos, por nossos esforços e méritos. Thomas Merton, na interpretação de Bernardo Bonowitz, OCSO, deixa reflexões muito necessárias sobre o desenvolvimento desse orgulho e de como a experiência de nós mesmos, de forma honesta, sincera e corajosa, contemplativa, alcança a abertura humanamente possível para um relacionamento com Deus sem uma escalada heróica e violenta contra os vícios que apenas estimula a tentação de sermos um sucesso espiritual, criando um orgulho que é cada vez maior quanto mais próximo à Deus. Isso não quer dizer que superar os vícios deixe de ser fundamental. Lutar contra as divisões do “pecado” que ferem a consciência é determinante para o compromisso com nossa espiritualidade e sobretudo um gesto de reverência à Deus. Os vícios são uma distração da alma que impedem nossa honestidade para conosco e portanto nossa natural abertura à Deus. que não responde com sua presença segundo os méritos e esforços pessoais, mas pela espera amorosa de sua manifestação, pela aceitação que não importa o quanto nos exercitemos será sempre uma manifestação segundo Sua livre vontade. A leitura abaixo se completa e inicia no link que segue ao final.


“No livro de Thomas Merton “A Oração Contemplativa”, um de seus últimos trabalhos, ele trata dos “use” e “abuse” de uma das mais preciosas de todas as realidades: a vida espiritual, e mais particularmente, a oração. Por ela ser tão preciosa como um modo de nos unir a Deus e porquê seu abuso é potencialmente tão desastroso, como um modo de nos separar de Deus. Continuar lendo

O orgulho imita a altura

O orgulho imita a altura, mas só Vós, meu Deus, sois excelso sobre todas as coisas. Que busca a ambição senão honras e glória, embora só Vós tenhais direito a ser honrado sobre tudo e glorificado eternamente? A sevícia dos poderosos aspira a fazer-se temer; mas quem deve ser temido senão Deus? Quando, onde, até onde e quem pode tirar ou subtrair alguma coisa ao vosso poder? As carícias dos voluptuosos desejam a reciprocidade do amor; mas nada há mais acariciante que a vossa caridade, nem se pode amar nada mais salutar que a vossa verdade, a mais formosa e resplandecente de todas. A curiosidade parece ambicionar o estudo da ciência, quando só Vós é que conheceis plenamente tudo! Continuar lendo