Vício e Graça

Laurence_Freeman

Espiritualidade em um era secular – Laurence Freeman

TALKS SERIES 2009 B · APR–JUN
LAURENCE FREEMAN OSB

“É muito importante para nós hoje entendermos o que é vício. Num certo sentido vivemos em uma sociedade muito viciada. Toda nossa configuração hoje é socialmente projetada para nos tornar viciados em várias coisas, seja televisão, banda larga, bebida, o uso abusivo de substâncias, seja trabalhar em excesso, ou não trabalhar. Seja numa margem ou noutra nós somos sempre encorajados a depender, a nos tornar viciados. (…) A ligação do pecado não é para com a punição mas para com a graça. Isso é o que São Paulo realmente diz, onde o pecado está presente, tanto mais está a abundância da graça. Onde o há pecado você encontra graça, não punição. “

 O áudio original com a transcrição traduzida para português pode ser acessada no link:  VÍCIO E GRAÇA

Escuta

“Toda a nossa geração se tornou surda. A Sagrada Escritura, a sabedoria, as relações e a experiência pessoal estão sendo ignoradas. Somos em consequência uma geração de quatro guerras e das mais poderosas armas jamais fabricadas na história do mundo – num período denominado pacífico. Somos uma geração de grande pobreza em meio a grandes riquezas, de grande solidão em meio a grandes comunidades, de graves colapsos pessoais e deterioração comunitária ante um crescimento social sem precedentes, de grande tédio espiritual em meios às nossas grandes proclamações de que somos um país temente a Deus. Continuar lendo

União

“Se queremos ter uma vida espiritual temos que unificar nossa vida. Para unificar nossa vida unifiquemos nossos desejos. Para espiritualizar nossa vida, espiritualizemos nossos desejos. Para espiritualizar nossos desejos, desejemos não ter desejos.

Viver no espírito é viver para Deus, em quem cremos sem poder vê-lo. Desejar isso é, portanto, renunciar ao desejo de tudo que pode ser visto. Possuir aquele que não pode ser compreendido é renunciar a tudo que pode ser compreendido. Para repousar naquele que está para além de todo repouso criado, renunciamos ao desejo de repousar nas coisas criadas.”

Thomas Merton, NA LIBERDADE DA SOLIDÃO 

“Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á.”
Mt 16,25 

Quando as forças da mudança superam a nossa imaginação

Abaixo, trecho da carta de Dom Laurence.

“Grandes mudanças já ocorreram antes no planeta. No passado, no entanto, ele teve dez milhões de anos para se adaptar às épocas de extinção em massa. Nossa crise hoje é que aprendemos a apressar tudo tanto que as forças da mudança superam até mesmo a nossa imaginação. Ambientalmente – como vemos na forte possibilidade de desmoronamento do gelo do Ártico ocidental nas próximas décadas – e socialmente – como se vê na imprevisível “Primavera árabe”, que estourou no mundo geopolítico –  as  mudanças agora correm à nossa frente. (…) Tudo isso desencadeia outro processo de mudança, em um nível mais sutil, mais profundo que o físico ou o psicológico.

Muitas culturas antigas não acreditavam na mudança – ou diziam que não acreditavam, porque a mudança aterrorizava. As culturas modernas passaram a aceitar a mudança, mas viam-na como um processo suave e previsível. Hoje, o ritmo, a incerteza e a enorme interconexão dos pontos de inflexão global – dos alimentos, solos e água até os sistemas de biodiversidade e financeiros – confrontam-nos com a necessidade do que Simone Weil chamou “uma nova santidade”, tão necessária para o mundo de hoje quanto “uma cidade atingida pela peste necessita de médicos”. Ela acreditava que “é quase equivalente a uma nova revelação do universo e do destino humano. É a exposição de grande parcela da verdade e da beleza, até então escondida sob uma espessa camada de poeira.”

Sua utilização da palavra santidade pode desmotivar muitas pessoas, hoje em dia. No entanto, isso mostra como as velhas palavras familiares de nosso vocabulário religioso – há muito cobertas de poeira – podem ser reabilitadas, recarregadas com seu poder original para quebrar os blocos de gelo das nossas mentes e abrir novas formas de percepção. Sua “nova santidade” é a integração de uma perspectiva explícita em políticas e ações, a universalidade e a inclusividade do mundo e de todos os seus habitantes. É novo, apesar de fazer muito tempo que está próximo, tentando irromper totalmente:

Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gl 3:28)

Esta visão caracteristicamente paulina mistura o social e o místico no mesmo saco. Como o próprio Jesus, que põe em causa toda  estrutura de poder pelo qual as distinções entre as pessoas são elevadas a um nível absoluto – casta, classe, religião, sistemas econômicos ou culturais em que vivemos no nível local. Confronta o ambiente seguro do local com visões intoxicantes e perturbadoras do global, onde os horizontes se esbatem. À medida que desaparecem, surge o universal – sempre mais como uma forma de percepção do que como um objeto de percepção.

Quando as estruturas de poder estão abalados – vemos isso acontecer no Norte de África e no Oriente Médio, atualmente – os que eram oprimidos sentem-se estimulados e fortalecidos. Os opressores refugiam-se em bunkers para proteger suas próprias ilusões. E o mundo espera para ver de que lado vai cair o novo ponto de inflexão. Nesta fase do processo de mudança – pessoal ou global – a maneira como vemos as coisas e os níveis de confiança, esperança e sabedoria de que dispomos, fazem a diferença que importa. Em um ponto de inflexão, a dimensão espiritual torna-se palpável. (…)

Laurence Freeman, OSB
Traduzido por Evangelina Oliveira

Orgulho espiritual e contemplação.

Nos tramites da experiência consciente, do vício de refletir e avaliar tudo que nos acontece, classificamos e qualificamos não só as coisas mas sobretudo à nós mesmo segundo a destrutiva noção de sucesso e fracasso. Espiritualmente não somos diferentes. Tão logo venhamos a vencer sobre alguns vícios, ou desenvolver intelectual e asceticamente uma consciência auto-importante centrada em nossa capacidade, nos aproximamos de um orgulho inevitável e indesejável que vai crescendo diante de Deus. Essa forma de abordar um crescimento espiritual apenas reflete nossa forma linear de pensar, como significando que procurar à Deus é um processo e, encontrá-Lo, uma recompensa por nossas conquistas espirituais. Mas isso sugere que Deus não se manifesta na medida que quer, quando quer, e que somos nós que o manifestamos à nós mesmos, por nossos esforços e méritos. Thomas Merton, na interpretação de Bernardo Bonowitz, OCSO, deixa reflexões muito necessárias sobre o desenvolvimento desse orgulho e de como a experiência de nós mesmos, de forma honesta, sincera e corajosa, contemplativa, alcança a abertura humanamente possível para um relacionamento com Deus sem uma escalada heróica e violenta contra os vícios que apenas estimula a tentação de sermos um sucesso espiritual, criando um orgulho que é cada vez maior quanto mais próximo à Deus. Isso não quer dizer que superar os vícios deixe de ser fundamental. Lutar contra as divisões do “pecado” que ferem a consciência é determinante para o compromisso com nossa espiritualidade e sobretudo um gesto de reverência à Deus. Os vícios são uma distração da alma que impedem nossa honestidade para conosco e portanto nossa natural abertura à Deus. que não responde com sua presença segundo os méritos e esforços pessoais, mas pela espera amorosa de sua manifestação, pela aceitação que não importa o quanto nos exercitemos será sempre uma manifestação segundo Sua livre vontade. A leitura abaixo se completa e inicia no link que segue ao final.


“No livro de Thomas Merton “A Oração Contemplativa”, um de seus últimos trabalhos, ele trata dos “use” e “abuse” de uma das mais preciosas de todas as realidades: a vida espiritual, e mais particularmente, a oração. Por ela ser tão preciosa como um modo de nos unir a Deus e porquê seu abuso é potencialmente tão desastroso, como um modo de nos separar de Deus. Continuar lendo