Solidão, terra fértil

“Heidegger disse que nossa relação com o que está mais próximo de nós é sempre confusa e sem vigor. O que é mais próximo de nós do que a solidão que é a base de nosso ser? Ela está sempre lá. Precisamente por essa razão ela é sempre ignorada, porque quando começamos a pensar nela sentimo-nos pouco à vontade, dela fazemos um objeto, e nossa relação com ela é adulterada. E, na verdade, estamos tão próximos de nós mesmos que não há, realmente, relação nenhuma com a base de nosso ser. Será que não podemos ser simplesmente nós mesmos sem pensar nisso? Essa é a verdadeira solidão.

Aquele que está sozinho, e está consciente do significa sua solidão (…) está apaixonado por tudo, por todos, por todas as coisas (…)  é capaz de viver com essa realidade desconcertante e tranqüila que não tem explicação. Vive como uma semente no chão. Como disse Cristo, a semente no chão deve morrer. Ser como uma semente no chão de nossa própria vida é nos dissolvermos nesse chão a fim de nos tornarmos férteis.

Para ser férteis nesse sentido, deve-se esquecer qualquer idéia de fecundidade ou produtividade e simplesmente ser. A nossa fertilidade é ao mesmo tempo um ato de fé e um ato de dúvida: dúvida de tudo o que , até então, vimos em nós mesmos, e fé em algo que nem podemos imaginar para nós mesmos. A dúvida dissolve o nosso ego-identidade. (…) Aceitar a nossa própria dissolução seria inumano se, ao mesmo tempo, não aceitássemos a integridade e a completude de tudo no Amor de Deus.

Deixar essa base, para mergulhar no processo social e humano com múltiplas atividades, pode muito bem ser somente ilusão, uma fertilidade puramente imaginária. O homem moderno acredita que é fértil e produtivo quando seu ego se afirma com agressividade, quando está visivelmente ativo, e sua ação produz resultados óbvios. Mas essa atividade se contradiz cada vez mais. Tais homens vivem perpetuamente derrotando a si mesmos.

Rebelar-se contra essa derrota de si por meio de um mórbido encarceramento de si no ego desiludido seria meramente uma falsa solidão. Solidão não é afastamento da vida comum. Não está isolada da vida comum ou acima dela, nem é “melhor do que” ela; pelo contrário, a solidão é a própria base da vida comum. (…) Mas precisamos aprender a conhecer e a aceitar essa base de nosso ser. Para a maioria das pessoas, embora esteja sempre lá, ela é impensável e desconhecida. Conseqüentemente, a vida delas não tem centro nem alicerces. Está dispersa em um pretenso “companheirismo” no qual não á um sentido verdadeiro. Somente quando nossa atividade procede da base na qual consentimos nos dissolver ela tem a fertilidade divina de amor e graça.

Muitas vezes nossa necessidade dos outros não é absolutamente amor, mas apenas a necessidade de sermos sustentados em nossas ilusões, assim como sustentamos  a dos outros. Mas, quando renunciamos a essas ilusões, então podemos ir ao encontro dos outros com verdadeira compaixão. É na solidão que as ilusões finalmente se dissolvem. Mas tempos de trabalhar arduamente para que elas não se remodelem de um forma pior, povoando nossa solidão de demônios disfarçados de anjos de luz.

Amor, simplicidade e compaixão protegem-nos contra isso.

THOMAS MERTON, Amor e Vida (Pág 23-25)

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