Simbolismo: que deus está morto?

“Ao tratar do simbolismo entramos numa área onde a reflexão, a síntese e a contemplação são mais importantes do que a investigação, a análise e a ciência. Não podemos apreender um símbolo a mesmo que sejamos capazes de despertar, no próprio ser, as ressonâncias espirituais que respondem ao símbolo não apenas como sinal, mas como sacramento e presença. Não é preciso dizer que, quando aqui falamos de símbolo, estamos interessados apenas no sentido pleno e verdadeiro da palavra. (…) O verdadeiro símbolo não aponta meramente algum objeto oculto. Ele contém em si mesmo uma estrutura que, de alguma forma, nos torna conscientes da significação íntima da vida e da própria realidade. Um verdadeiro símbolo nos leva para o centro do círculo e não para outro ponto da circunferência. Aponta para o próprio âmago de todo ser, não para um incidente no fluxo do vir a ser. (…)

A tensão no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos, entre um otimismo superficial ingênuo (crença no progresso científico como um fim em si mesmo) e as profundas tendências destrutivas e selvagens de uma tecnologia e de uma economia nas quais o homem se torna o instrumento de forças desumanas cegas, faz-nos perceber que a degradação do sentido do simbolismo no mundo moderno é um dos seus muitos sintomas alarmantes de deterioração espiritual (…)

O aspecto mais notável e perturbador dessa degeneração espiritual é que ela se encontra armada de uma colossal vontade de poder e de facilidades quase ilimitadas para implementar suas aspirações brutais. Assim, o homem do século XX, que ilusoriamente imagina estar no auge do desenvolvimento da civilização (pois a confunde com tecnologia), não percebe que na realidade, atingiu o ponto crítico de desorganização moral e espiritual. É um selvagem armado, não com uma clava ou uma lança, mas com o  mais sofisticado arsenal de engenhos diabólicos ao qual são acrescentadas novas invenções todas as semanas (…)

A declaração de Nietzsche de que “Deus está morto” é agora assumida, não sem seriedade, pelos profetas das tendências mais progressistas da religião ocidental, que agora parece, em alguns lugares, ansiosa por provar sua sinceridade aos olhos de uma sociedade ímpia por uma ato de autodestruição espiritual (…)

Enquanto isso, artistas, poetas e outros que se poderia supor terem alguma preocupação com a vida interior do homem declaram que a razão pela qual Deus deixou de estar presente para o homem (portanto está morto) é que o homem deixou de estar presente para si mesmo e que conseqüentemente, o verdadeiro significado da declaração “Deus está morto” é realmente “O Homem está morto”.

O fato óbvio da agitação material do homem e de seu frenesi exterior só serve para enfatizar essa falta de vida espiritual. Visto que é pelo simbolismo que o homem está espiritual e conscientemente em contato com seu próprio eu mais profundo, com os outros homens e com Deus, tanto a morte de deus como a morte do homem se devem ao fato de estar morto o simbolismo. A morte do simbolismo é o símbolo mais eloqüente e significativo de nossa vida cultural moderna.

Como o homem não pode viver sem sem sinais do invisível, e como sua capacidade de apreender o visível e o invisível como uma unidade significativa depende da vitalidade criativa de seus símbolos, embora ele possa declarar não ter maior interesse por esse “unir” (sentido etimológico de símbolo), o homem não obstante, persistirá em criar símbolos, a despeito de si mesmo. Se eles não forem sinais vivos de integração criativa e de vida interior, tornar-se-ão sinais patogênicos, mórbidos e deteriorados de sua própria ruptura interior. A solene vulgaridade, a natureza de fato, inconscientemente obscena e espiritualmente repulsiva de alguns “símbolos” que ainda são considerados dignos de respeito pelas instituições e pelas massas (tanto no Ocidente capitalista como nos países socialistas) suscitou naturalmente o protesto total do artista moderno que agora cria apenas anti-arte e não-símbolos, ou então contempla, sem tremor e sem comentário, a suprema afronta espiritual dessas formas e presenças que o marketing e a afluência tornaram “normais” e “comuns” por toda parte”

THOMAS MERTONAmor e Vida

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