Silêncio Criativo III

“Se temos medo de ficar sozinhos, medo do silêncio, talvez seja em virtude de nossa secreta desesperança de reconciliação íntima. Se não temos a esperança de ficar em paz conosco em nossa própria solidão e em nosso silêncio pessoal, jamais seremos capazes de nos encarar: continuaremos correndo sem parar. E essa fuga do eu é, como indicou o filósofo suiço Max Picard, uma “fuga de Deus”. Afinal de contas, é nas profundezas da consciência que Deus fala, e, se recusamos a nos abrir por dentro e a olhar essas profundezas, também recusamos nos confrontar com o Deus invisível presente dentro de nós. Essa recusa é uma admissão parcial de que não queremos que Deus seja Deus, assim como não queremos que nós mesmos sejamos nossos eus verdadeiros.

Assim como temos uma máscara externa, superficial, que juntamos às palavras e às ações que não representam tudo o que está em nós, também os crentes tratam com um Deus que é feito de palavras, sentimentos, slogans reconfortantes, um Deus que é menos o Deus da fé do que o produto da rotina social e religiosa. Tal “Deus” pode se tornar o substituto da verdade do Deus invisível da fé, e , embora essa imagem reconfortante possa nos parecer real, é realmente uma espécie de ídolo. Sua função principal é proteger-nos de um encontro profundo com o nosso verdadeiro eu interior e com o verdadeiro Deus.

O silêncio é portanto importante, mesmo na vida da fé e em nosso encontro mais profundo com Deus. Não podemos estar sempre falando, rezando com palavras, engabelando, argumentando ou mantendo uma espécie de música de fundo devota. Muito do nosso diálogo interior bem intencionado é, de fato, uma cortina de fumaça e uma evasão. Boa parte dele é simplesmente auto-afirmação e , no fim, pouco melhor do que uma forma de justificação de si. Em vez de realmente encontrar Deus no despojamento da fé, no qual nosso ser mais íntimo se apresenta nu diante dele, encenamos um ritual interior cuja unica função é acalmar a ansiedade.

A fé pura tem de ser testada pelo silêncio no qual ficamos à escuta do inesperado, no qual ficamos abetos para o que ainda não conhecemos e no qual devagar e gradualmente nos preparamos para o dia em que alcançaremos um novo nível de estar com Deus. A verdadeira esperança é testada pelo silêncio no qual temos de servir ao Senhor na obediência de uma fé inquestionável. Isaías lembra as palavras de Javé ao seu povo rebelde, que o estava sempre abandonando a fim de fazer alianças políticas e militares inúteis. ‘Vossa segurança está em cessa de fazer ligas, vossa força está na fé tranquila” (Is 30,15), ou em outra tradução ‘Vossa salvação está na conversão e no repouso, vossa força está na calma e na confiança’, textos mais antigos dizem: “No silêncio e na esperança estará a vossa força”. A idéia é de que a fé exige o silenciar de transações e estratégias questionáveis. A fé exige a integridade da confiança interior que produz inteireza, unidade, paz, segurança genuína. Vemos aqui o poder criativo e fértil do silêncio”

Thomas Merton, Amor e Vida

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