Silêncio Criativo II

“Há um eu calado dentro de nós cuja presença é pertubadora precisamente porque é tão calado: ele não pode ser falado. Tem de permanecer calado. Articulá-lo, verbalizá-lo é corrompê-lo, e sob certos aspectos destruí-lo.

Ora, enfrentemos francamente o fato de que nossa cultura está de muitos modos organizada para nos ajudar a fugir de qualquer necessidade de enfrentar esse eu silencioso, interior. Vivemos em estado de constante semi-atenção ao som do vozes, músicas, tráfego, ou ao ruído generalizado à nossa volta o tempo todo. Isso nos mantém imersos num mar de ruídos e de palavras, num ambiente difuso no qual nossa consciência fica meio diluída: não estamos exatamente “pensando”, nem inteiramente reagindo, mas estamos mais ou menos ali. Não estamos plenamente presentes nem inteiramente ausentes. Não estamos plenamente recolhidos nem tampouco completamente disponíveis. Não se pode dizer que estamos participando de alguma coisa e podemos, de fato, estar meio conscientes de nossa alienação  e indignação. Encontramos, contudo, um certo conforto na vaga sensação de que fazemos “parte de” algo, embora não sejamos muito capazes de definir o que é esse algo – e provavelmente não haveríamos de querer defini-lo, mesmo que pudéssemos. Simplesmente flutuamos no ruído geral. Resignados e indiferentes, participamos subconscientemente do cérebro acéfalo da Muzak* e dos comerciais de rádio que se fazem passar por realidade

Naturalmente isso não basta para nos fazer esquecer completamente do outro eu inconveniente que permanece em grande parte inconsciente. A presença perturbadora de nosso eu profundo fica forçando seu caminho até quase a superfície da consciência. Para exorcizar essa presença precisamos de um estímulo mais definido, uma distração, um drinque, uma droga, um truque, um jogo, uma rotina de encenar nossa sensação de alienação e inquietação. Aí ela se vai por algum tempo, e esquecemos que somos.

Tudo isso pode ser descrito como ruído, como tumulto e congestionamento que abafam as exigências profundas, secretas e insistentes do eu interior. Com esse eu interior temos de entrar em acordo no silêncio. Essa é a razão para escolher o silêncio. No silêncio enfrentamos e admitimos a brecha entre as profundezas de nosso ser, que ignoramos constantemente, e a superfície que é infiel à nossa própria realidade. Reconhecemos a necessidade de estar à vontade conosco a fim de ir ao encontro dos outros, não com apenas uma máscara de afabilidade, mas com um compromisso real e um amor autêntico”

Thomas Merton, Amor e Vida,

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