Silêncio Criativo I

“O silêncio tem muitas dimensões. Pode ser uma regressão e uma fuga, uma perda de si, ou pode ser presença, atenção, unificação, autodescoberta. O silêncio negativo tolda e confunde nossa identidade e caímos em devaneios ou ansiedades difusas. O silêncio positivo nos refaz e nos permite perceber quem somos, quem poderíamos ser e a distância entre os dois. Portanto, o silêncio criativo implica uma escolha disciplinada e o que Paulo Tillich chamou de “coragem de ser”. A longo prazo, a disciplina do silêncio criativo exige um certo tipo de fé. Pois quando ficamos cara a cara conosco, no fundo solitário de nosso próprio ser, confrontamo-nos com muitas questões sobre o valor da existência, a realidade de nossos compromissos, a autenticidade de nossa vida cotidiana.

Quando estamos o tempo todo em movimento, sempre ocupados com as exigências de nosso papel social, quando somos levados passivamente pela corrente de conversa na qual as pessoas se envolvem o dia inteiro, talvez sejamos capazes de escapar de nosso eu mais profundo e das questões que ele coloca. Podemos estar mais ou menos satisfeitos com a identidade externa, com o eu social, que é produzido por nossa interação com os outros na agitação do cotidiano. Mas não importa quão honesto e abertos possamos ser em nossas relações com os outros, esse eu social implica um elemento necessário de artifício. É sempre, de certo modo, uma máscara. Tem de ser. Mesmo o gosto americano pela franqueza, pela simplicidade despretensiosa, pela afabilidade, pela naturalidade e pelo humor é, muitas vezes, uma fachada. Alguma pessoas são naturalmente assim. Outras se educam para desempenhar esse papel a fim de serem aceitas pela sociedade. Tampouco essas características são inteiramente fingimento, elas nos atraem. Mas será que nos damos, alguma vez, a chance de perceber que essa personagem falante, sorridente, talvez despachada, que parecemos ser não é necessariamente nosso eu real? Damo-nos a chance de reconhecer alguma coisa mais profunda? Podemos enfrentar o fato de que talvez não estejamos interessados em toda essa conversa e esse negócio?

Quando ficamos quietos, não por alguns minutos apenas, mas por uma ou várias horas, podemos nos sentir desconfortavelmente conscientes da presença dentro de nós de um estranho pertubador, o eu que é, ao mesmo tempo, “eu” e mais alguém. O eu que não é inteiramente bem-vindo na sua própria casa porque é tão diferente da personagem cotidiana que construímos a partir de nossas relações com os outros – e de nossa infidelidade à nós mesmos”

Thomas Merton, Amor e Vida,

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