O Secular e o Sagrado I – Privação de Deus

“Aqui devemos fazer uma pequena pausa para considerar a diferença entre uma visão secular e uma visão sagrada da vida. A expressão “o mundo” é talvez muito vaga. Não se refere simplesmente a  ‘tudo que está em torno de nós’ ou ao universo criado. O universo não é mau, é bom.  O ‘mundo’, no mau sentido, certamente não é o cosmos, embora escritos de alguns autores cristãos neoplatônicos sugiram este significado para a expressão. Para eles, o saeculum é o que é temporal, o que muda, dá a volta e retorna ao ponto de partida. (…)

Originalmente o secular era o que percorre, interminavelmente, ciclos sempre recorrentes,. Isso é o que faz a ‘sociedade mundana’, cujos os horizontes são de uma sempre repetida mesmidade:

Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O Sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas (…) o que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol! (…) Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. (Ecl 1)

Ora, toda a nossa existência nesta vida está submetida à mudança cíclica. Só isso por si não a faz secular. A vida se torna secularizada quando se compromete inteiramente com os ‘ciclos’ do que parece ser novo , mas de fato é a mesma coisa de sempre. A vida secular é uma vida de vãs esperanças, aprisionada à ilusão de novidade e mudança, uma ilusão que nos faz voltar sempre ao mesmo ponto, a contemplação de nossa própria nulidade. A vida secular é uma vida desesperadamente dedicada à fuga, pela novidade e variedade, de nosso tempos da morte. Quando mais nos decepcionam as novidades, mais desesperadamente voltamos ao ataque, forjando novas esperanças, ainda mais extravagantes que as anteriores; e também estas nos decepcionam. Voltamos então à mesma condição de que tentávamos  em vão escapar. Nas palavras de Pascal:

Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimentos, sem aplicação. Ele sente então todo o seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. (Pensamentos, 131) “.

A sociedade ‘secular’ está, por sua própria natureza, comprometida com o que Pascal chama ‘divertimento’, isto é, com o movimento que tem antes de tudo a função anestésica de aquietar nossa angústia. Toda sociedade, sem exceções, tende a ser, em alguma medida, ‘secular’. Uma sociedade genuinamente secular, no entanto, é a que não pode se contentar com inocentes fuga de si mesma. Tende, cada vez mais, a necessitar e exigir, com insaciável dependência, satisfação em ações injustas, malignas e mesmo criminosas. Daí o crescimento de negócios economicamente inúteis, que existem para o lucro e não para a produção real, que criam necessidades artificiais às quais satisfazem prontamente com produtos sem valor e de rápido consumo. Daí também as guerras que surgem quando produtores competem por mercados ou por fontes de matéria-prima. Daí o niilismo, o desespero e a anarquia destrutiva que se seguem à guerra; e, por fim, a cega corrida para o totalitarismo como fuga do desespero. Nosso mundo já alcançou o ponto em que, para conseguir algum divertimento, está pronto a se explodir. A era atômica é o ponto mais alto já alcançado pelo secularismo. Isso nos indica, é claro, que a raiz do secularismo é a privação de Deus. “


O Secular e o Sagrado II – Duas espécies de dependência

A Experiência Interior, THOMAS MERTON 

2 comentários sobre “O Secular e o Sagrado I – Privação de Deus

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