Contemplação segundo o Deserto: o mais importante não é ter paz e felicidade, mas consciência e vida.

“A tradição contemplativa cristã deve muito, no entanto, à Grécia Clássica (1). Os cristãos platonizantes de Alexandria adotaram algo do hedonismo intelectual de Platão e, como resultado, ainda tendemos a pensar na vida contemplativa, mesmo que inconscientemente, como uma vida de facilidade, esteticismo e especulação.

Os Padres do Deserto do Egito e Oriente Próximo, grande praticantes da contemplação, fizeram o máximo para abolir essa ilusão. Foram para o deserto, não em busca da pura beleza espiritual ou de uma luz intelectual, mas para ver a face de Deus. Porém, sabiam que, antes de serem capazes de ver Sua face, teriam de lutar contra Seu adversário. Teriam de expulsar o demônio que está sutilmente alojado no eu exterior. Foram ao deserto para lutar contra o mal prático, não para estudar a verdade especulativa; não para aperfeiçoar sua inteligência analítica, mas para purificar o coração. Não foram para a solidão para ganhar alguma coisa, mas para doar a si mesmos. Pois “quem quiser salvar sua alma deve perdê-la e aquele que perder a sua vida, por amor de Cristo, a ganhará. Pela renúncia às paixões e aos apegos, pela crucificação do eu exterior, eles libertaram o homem interior, o novo homem “em Cristo”.

Não devemos nos deixar enganar pelo fato da palavra “contemplação” (theoría) não ser mencionada no Novo Testamento. Em pouco veremos que o ensinamento de Cristo é essencialmente “contemplativo”, em um sentido mais elevado, mais prático e menos esotérico que o de Platão.

Como já observamos, na tradição cristã a contemplação é simplesmente a “experiência” (ou melhor, o conhecimento quase experiencial) de Deus em um treva luminosa que é a perfeição da fé iluminando nosso eu mais profundo (2). É o encontro do espírito com Deus em uma comunhão de amor e entendimento que é um dom do Espírito Santo e uma penetração no mistério de Cristo. A palavra contemplação sugere fruição em repouso, intemporalidade e uma especie de suave passividade. Todos esses elementos estão lá, mas correspondem muito mais à contemplação pagã. O elemento mais importante da contemplação não é o gozo, nem o prazer, nem a felicidade ou a paz, mas sim a experiência transcendente da realidade e da verdade no ato de um amor espiritual supremo e livre. O mais importante na contemplação não é a gratificação e o repouso, mas a consciência, a vida, a criatividade e a liberdade. “

A Experiência InteriorTHOMAS MERTON

(1) – “Na Grécia clássica, a contemplação era definitivamente aristocrática e intelectual, privilégio de uma minoria filosófica para qual era uma questão mais de estudo e reflexão que oração. O contemplativo é um homem que dispondo de um tempo de lazer, devota-se ao estudo e à reflexão racional em busca da verdade pura. Para ele, a vida contemplativa é uma vida de especulação intelectual e talvez de debate. É uma vida acadêmica, da universidade. O contemplativo é o filósofo profissional.” – No mesmo livro.

(2) – Para o Budismo, religião com a qual Merton dialogou amplamente, a experiência do Eu é a experiência contemplativa mais profunda, entretanto para o Cristão, essa experiência do Eu é o primeiro passo, é o chegar até o espelho que reflete a luz de Deus. Buscar, a partir daí, ir além, é o entrar na “treva luminosa”, na “Núvem do não saber”, na “Contemplação obscura”

3 comentários sobre “Contemplação segundo o Deserto: o mais importante não é ter paz e felicidade, mas consciência e vida.

  1. Gostei muito de ler os diversos tipos de meditação.
    Vou relê-los, principalmente o da Montanha. Tenho muito que aprender com ela.
    Sou inquieta e a montanha não se move, no entanto, em minha inquietação não saio do mesmo lugar, me canso e não aprendo verdadeiramente.

    • Olá Vânia, obrigado pelo seu comentário!

      Ainda falta o tipo de meditação que Jean Yves Leloup descreveu como “Meditar como Jesus”. Em breve publico ela.

      Graça e Paz!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s