Contemplação e Diálogo I

“É verdade que o inferno emocional e o céu que trazemos dentro de nós tendem mais e mais a se tornarem propriedades públicas e comuns. E, com o passar do tempo, parece evidente que o que cada um de nós tem a partilhar com seus semelhantes é mais nosso próprio inferno do que nosso céu. Pois o desejo que em segredo nutrimos no íntimo de nossas almas como nosso “céu”, ao ser oferecido somo solução para problemas coletivos, algumas vezes se torna o inferno de todos. Essa é uma das características peculiares da civilização do século XX e uma das causas de seu mal-estar (…) Seria singularmente desagradável e desonesto de minha parte afirmar que a paz, a alegria e a felicidade são facilmente encontradas no trecho mais árido da jornada espiritual do homem: a vida de contemplação.

Na maior parte das vezes, a chamada via de contemplação não é nem sequer uma via, e aqueles que a seguem nada encontram. (…) Uma das estranhas leis da vida contemplativa é que nela você não se senta para resolver problemas, você simplesmente os suporta até que, de algum modo, se resolvam sozinho, ou até que a própria vida os resolva para você. Normalmente, a solução consiste em descobrir que os problemas só existiam por estarem inseparavelmente ligados a nosso próprio eu exterior e ilusório. Assim, a solução da maioria desses problemas vem com a dissolução do falso eu. Consequentemente, uma outra lei da vida contemplativa é que, se você entra nela com o propósito de buscar a contemplação ou, pior ainda, a felicidade, você não vai encontrar nenhuma das duas coisas, pois nenhuma delas pode se encontrada se a ambas não renunciarmos de algum modo. Isso significa, novamente, renunciar ao eu ilusório que busca ser “feliz” e encontrar-se “realizado” na contemplação (seja lá o que isso signifique). Pois o eu espiritual e contemplativo é apagado pela atividade do nosso eu exterior, não busca nenhuma espécie de realização, mas está contente em  ser,  porque seu ser está enraizado em Deus.

Se portanto você tem a intenção de “tornar-se um contemplativo”, provavelmente perderá seu tempo e causará danos consideráveis a si mesmo lendo esse livro.”

A Experiência Interior, THOMAS MERTON 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s