Resignação

A resignação cristã é sinceramente considerada e criticada por muita gente honrada como um dos elementos mais perigosamente soníferos do “ópio religioso” ¹ . Depois do desgosto da Terra, não existe atitude que se critique com mais rancor ao Evangelho por havê-la difundido, do que a passividade diante do Mal – uma passividade que pode ir até o cultivo perverso da diminuição e do sofrimento. (… ) Essa acusação, ou simplesmente essa suspeita, são infinitamente mais eficazes, neste momento, para deter a conversão do Mundo do que todas as objeções tiradas da Ciência ou da Filosofia (…)

Não, o cristão não tem, para praticar inteiramente a perfeição do seu cristianismo, que desertar perante o dever da resistência ao Mal. Num primeiro tempo, pelo contrário, nós o vimos, ele deve lutar sinceramente e com todas as suas forças, em união com o poder criador do Mundo, para que todo mal retroceda, para que nada diminua, nem nele nem em torno dele. Nessa fase inicial, o crente é aliado convicto de todos os que pensam que a Humanidade não se realizará plenamente senão com a condição de ir laboriosamente até o extremo de si mesma (…) pois a vitória humana sobre as diminuições, mesmo físicas e naturais do Mundo, condiciona em parte o acabamento e a consumação da realidade absolutamente precisa que ele adora. Enquanto a resistência for possível, ele, o filho do Céu, se endurecerá tanto quanto os mais terrestres filhos do Mundo, contra o que mereça ser afastado ou destruído.

Venha então para ele, a derrota, a derrota pessoal que nenhum homem pode esperar evitar em sua rápida luta individual, corpo a corpo, com forças cuja ordem de grandeza e de evolução é universal. (…) sufocado, comprimido, seu esforço permanecerá tenso. Mas nesse momento, em vez de não ter para compensar e dominar a morte que se aproxima, senão a obscura e problemática consolação do estoicismo (em cujo fundo íntimo, se o analisássemos bem profundamente, encontraríamos sem dúvida como princípio último de beleza e consistência, uma fé desesperada no valor do sacrifício), ele verá abrir-se diante de si um novo campo de possibilidades.

Essa força inimiga, que o abate e o desagrega, se a aceitar com fé, sem parar de lutar contra ela, pode tornar-se para ele um princípio estimável de renovação. Tudo está perdido no plano experimental. Mas no dito sobrenatural, existe uma dimensão a mais, que permite a Deus operar insensivelmente, uma misteriosa virada do Mal em Bem. Deixando a zona dos êxitos e das perdas humanas, o cristão tem acesso, por um esforço de confiança no Maior do que ele, à região das transformações e dos acrescentamentos supra-sensíveis. Sua resignação não é senão um impulso para transpor para mais alto o campo de sua atividade.

Compreendamos bem e façamos compreender o seguinte: não é um encontro imediato, nem uma atitude passiva, o encontra e fazer (mesmo diminuindo e morrendo) a Vontade de Deus. De um mal que me atingisse por minha negligência ou por minha culpa, eu não teria o direito de pensar que é Deus que me toca. A vontade de Deus (sob sua forma sofrida), não a atingirei, a cada instante, senão no extremos de minhas forças, ali onde minha atividade, tendendo para o melhor-estar (um melhor-estar entendido segundo as ideias humanas normais), encontra-se continuamente equilibrada pelas forças contrárias que tendem a deter-me ou a jogar-me por terra. Se eu não faço o que posso, para avançar ou resistir, eu não me encontro no ponto desejado, eu não sinto Deus tanto quanto eu o poderia e ele o deseja. Se, pelo contrário, meu esforço é corajoso, perseverante, eu alcanço Deus, através do Mal, mais profundamente do que o Mal; aperto-me contra ele, e nesse momento o ótimo de minha “comunhão de resignação” vem a coincidir necessariamente (por construção) com o máximo de minha fidelidade com o dever humano. “


O MEIO DIVINO, (Pág. 64-65)
Pierre Teilhard Chardin

¹ – Do Marxismo

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