Livro “Introdução ao Cristianismo”

1073268_4INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO – Joseph Ratzinger (PDF)

Criticado por muitos como reacionário, Ratzinger dedicou um esforço teológico notável contra a “ditadura” do relativismo. Esse livro aproxima a realidade de Deus do não-crente tanto quanto questiona o crente dessa realidade sem a necessidade de subterfúgios relativistas. Muitos teólogos modernos, como sugere Ratzinger, estão empenhados em pensar um Cristianismo que não se choque com nada, e para isso lançam mão de malabarismos intelectuais que tornem possível – a qualquer custo – mais um cristianismo qualquer, algo exigido por uma sociedade na qual seus indivíduos estão sujeitos à sedução de um fundamentalismo cientificista e midiático com sensibilização e aderência imediata à tudo que se apresenta bom, justo e verdadeiro – ainda que seja apenas uma aparência, algo naturalmente ignorado onde o culto à personalidade é uma constante. Tais subterfúgios necessários para se fazer coexistir absurdo e verdade são corajosamente sobrepostos com uma honestidade e sinceridade pessoal, por sua vez exigida para a busca da verdade, diante da falibilidade das certezas mais caras e necessárias ao homem, crente ou não.

“Ninguém é capaz de servir aos outros o cardápio de Deus e do seu reino, nem o próprio crente pode servi-lo a si mesmo. Mas, por mais que a descrença se possa sentir justificada com isso, permanece de pé o horror daquele “talvez seja verdade”. O “talvez” representa o inevitável ataque ao qual se é incapaz de fugir, no qual se deve experimentar, na recusa, a irrecusabilidade da fé. Em outras palavras: crente e incrédulo, cada qual a seu modo, participam da dúvida e da fé, caso não se ocultem de si mesmos e da verdade da sua existência. Nenhum é capaz de evadir-se completamente à dúvida; nenhum pode escapar de todo à fé. Para um, a fé torna-se presente contra a dúvida; para outro, pela dúvida e em forma de dúvida. Temos aí a figura fundamental do destino humano: ser capaz de encontrar o definitivo de sua existência somente nesse inevitável embate de dúvida e fé, de agressão e certeza. Talvez esteja aqui o caminho para transformar em ponto de encontro, de contato, a dúvida que preserva a um e a outro do perigo de encapsular-se em si mesmo” (…)

“Um dos sequazes do iluminismo, homem estudado, ouvira falar de Berditschewer. Foi-lhe à procura com o fito de comprar uma discussão, como era do seu feitio, e arrasar suas provas ultrapassadas da verdade da fé. Ao entrar no quarto do Zaddik viu-o, de livro à mão, indo e vindo, mergulhado em entusiásticas reflexões. Nem pareceu dar pela chegada do visitante. Finalmente deteve-se, olhou para ele superficialmente e disse: “E contudo, talvez seja verdade.” O sábio debalde tentou fincar pé, defendendo sua dignidade [14] própria. Não o conseguiu. Sentiu os joelhos chocalharem, tão terrível era o aspeto do Zaddik, tão horrível de se ouvir a sua singela frase. Mas o rabi Levi Jizchak voltou-se completamente para ele e lhe disse, sereno: “Meu filho, os grandes da Torá com os quais disputaste, desperdiçaram palavras; tu te riste deles, ao te afastares. Não foram capazes de colocar Deus e o seu reino sobre a mesa, diante de ti; eu também sou incapaz. Mas, meu filho, reflete: talvez seja verdade.” O iluminista concentrou todas as forças para revidar; mas aquele terrível “talvez” a ecoar sem quebrou-lhe qualquer resistência” (…)

“Quem tenta explicar a fé no meio de homens mergulhados na vida moderna e imbuídos da moderna mentalidade, de fato pode ter a impressão de ser um palhaço ou alguém surgido de um antigo sarcófago, que penetrou no mundo hodierno, revestido de trajes e pensamentos da antiguidade, incapaz de compreender este mundo e de ser por ele compreendido. Todavia, se quem tentar anunciar a fé exercer bastante autocrítica, em breve notará não se tratar apenas de uma forma, de uma crise do revestimento em que a teologia se apresenta. Na estranha aventura teológica frente aos homens de hoje, quem tomar a sério a sua tarefa há de reconhecer e experimentar não só a dificuldade da interpretação, mas também a insegurança da própria fé, o poder arrasador da descrença dentro de sua própria vontade de crer. Por isso quem tentar honestamente prestar contas da fé cristã a si e a outros, aprenderá, a duras penas, não ser ele em absoluto o mascarado ao qual bastaria depor o disfarce para poder ensinar eficazmente aos outros. Compreenderá que a sua situação não se diversifica muito da situação dos outros, como talvez inicialmente tivesse pensado. Terá consciência de que de ambos os lados estão presentes as mesmas forças, muito embora de maneiras diversas. [10] Para começar, no crente existe a ameaça da incerteza capaz de revelar dura e subitamente, em momentos de tentação, a fragilidade de tudo o que, em geral, lhe parece tão evidente.”

– Joseph Ratzinger

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