A divisão entre o mestre e o pupilo não é espiritual

No texto abaixo, Krishnamurti critica a autoridade, qualquer tipo de autoridade, e nos diz que não devemos seguir qualquer mestre. Naturalmente que mesmo esse ensinamento precisa se reconhecido em sua autoridade para que possamos aceitá-lo, já que como cita no texto, somos confusos e divididos quando começamos a buscar alguma coisa. Krishnamurti diz que não deve haver mestre e discípulo, mas também acrescenta algo fundamental que remete ao Evangelho de hoje (16/05/2012). Ele diz: ” A divisão entre o mestre e o pupilo não é espiritual.

Em outras palavras, o mestre é interior e interiormente não existe divisão , é “uno” conosco. No Evangelho de João (16,12-15), lemos “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade … 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”. “. Jesus, que vivia uma relação de mestre e discípulo com seus seguidores, sabia que eles não poderiam aprender as “muitas coisas” que precisavam ser ditas enquanto vivesse numa relação dividida. Ele precisaria “ir” para o Pai e enviar o Espírito, habitar em nós, se tornar interior, para nos comunicar pelo espírito tudo aquilo que precisava ser acrescentado ao ensinamento. E o Espírito, que é interior, nos comunicaria toda a verdade. Diz Jesus que “Basta ao discípulo ser tratado como seu mestre” (Mt10, 25), e “Não vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre, o Cristo” (Mt 23,10).

Isso mostra para nós Cristãos que devemos ter cuidado em não seguir autoridades cristãs como mestres em si, meramente por uma autoridade livresca, intelectual ou ostentada. Entretanto não devemos, de forma alguma, desconsiderar a sabedoria dos sábios, o aprendizado dos santos, a razão dos doutores, pois de qualquer forma sempre iniciamos confusos e precisando da orientação dos que nos precederam na busca, na fé e na verdade, pois se existe uma autoridade que deve ser considerada sempre, e é a mesma que apoia a orientação de Krishnamurti, é a autoridade da experiência. Devemos sim, sempre retornar ao silêncio, a meditação, a reflexão, no recolhimento pessoal, para nos colocarmos à luz do verdadeiro mestre interior, o espírito enviado a nossos corações, com tudo o que recebemos como orientação espiritual a partir de fora. O salmista reza, “Senhor, na tua luz, contemplamos a luz”.

Segue o texto:

A autoridade é nociva

Pergunta: Foi nos dito que o pensamento deve ser controlado para gerar aquele estado de tranqüilidade necessário para compreender a realidade. Poderia nos dizer como controlar o pensamento? Krishnamurti: Primeiro, senhor, não siga qualquer autoridade. A autoridade é nociva. A autoridade destrói, a autoridade perverte, a autoridade corrompe; e um homem que segue a autoridade está se destruindo, e destruindo também aquilo que ele colocou na posição de autoridade. O seguidor destrói o mestre, como o mestre destrói o seguidor. O guru destrói o pupilo, como o pupilo destrói o guru. Pela autoridade você nunca descobrirá nada. Você deve estar livre da autoridade para descobrir alguma coisa. Deve estar livre da autoridade para descobrir a realidade. É uma das coisas mais difíceis estar livre da autoridade, tanto a externa como a interna. A autoridade interna é a consciência da experiência, consciência do conhecimento. E a autoridade externa é o estado, o partido, o grupo, a comunidade. Um homem que quer descobrir a realidade deve afastar toda autoridade, externa e interna. Então, não deixe que lhe digam o que pensar. Essa é a maldição da leitura: a palavra do outro se torna importantíssima. O interrogante começa dizendo: “Foi nos dito”. Quem lhe disse? Senhor, não vê que os líderes e santos e grandes mestres falharam, são a causa de você estar onde está? Então os deixe sozinhos. Você os fez falharem porque não está buscando a verdade, você quer gratificação. Não siga ninguém, inclusive eu mesmo; não faça do outro sua autoridade. Você mesmo tem que ser o mestre e o pupilo. No momento em que você reconhece o outro como mestre e você mesmo como pupilo, está negando a verdade. Não há mestre nem pupilo na busca da verdade. A busca da verdade é importante, não você ou o mestre que vai ajudá-lo a descobrir a verdade. Veja, a educação moderna, e também a anterior, ensinou a você o que pensar, não como pensar. Eles puseram você numa moldura, e essa moldura destruiu você; porque você procura um guru, um mestre, um líder, político ou outro, só quando está confuso. De outra forma você nunca segue ninguém. Se você é muito esclarecido, se internamente é uma luz para si mesmo, nunca seguirá ninguém. Mas como você não é, você segue, segue a partir de sua conclusão; e o que você segue deve também ser confuso. Seus antepassados, assim como você mesmo, são confusos, politicamente e religiosamente. Portanto, primeiro, esclareça sua própria confusão, torne-se uma luz para si mesmo, e então o problema cessará. A divisão entre o mestre e o pupilo não é espiritual. Agora o interrogante quer saber como controlar o pensamento. Em primeiro lugar, para controlá-lo, você deve saber o que o pensamento é e quem é o controlador. Eles são dois processos separados, ou um fenômeno unido? Você deve primeiro compreender o que o pensamento é, não deve? – antes de dizer, “Vou controlar o pensamento”; e também deve saber quem é o controlador. Existe um controlador sem pensamento? Se você não tem pensamentos, existe um pensador? O pensador é o pensamento, o pensamento não está separado do pensador, eles são um processo único.

Banaras 5th Public Talk 20th February 1949 The Collected Works Vol. VI

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Meditação e Pecado

Compreender e reconhecer o que é pecado para nós ou, para os não religiosos, o que for correlato a essa ideia, parece muito importante para viver realmente o presente em sua plenitude. O pecado não traz o castigo, isso é um erro de leitura para rejeitar mais facilmente esse aspecto, mas o pecado trás a graça, como diz São Paulo, “onde o pecado abundou, superabundou a Graça”. Na liturgia de Vésperas desse terceiro domingo da quaresma, o hino de entrada, nos diz que a consciência do pecado nos torna mais humildes e trás a experiência da misericórdia divina. Mas existe ai uma luta para nos desapegar de nós mesmos, pois se fosse algo fácil, viveríamos nos deleitando em erros para viver na Graça.

Acho que a meditação ou a oração revela bem essa relação entre pecado e distração quando através delas experimentamos como que uma luta para nos manter concentrados em Deus. Essa dificuldade de concentração, essa experiência de ser levado pelas distrações durante a meditação ou a oração, ou como diria Max Picard, essa “Fuga do Eu” através do medo do silêncio, não é um castigo divino contra nosso pecado, mas é uma oportunidade de encararmos e superarmos os ecos de nossos erros, que obstruem a experiência de que vivemos da Graça de Deus constante e eternamente. E aderimos a essa oportunidade através de um esforço que, talvez possa ser dito, se assemelha a experiência de Elias no monte à esperar por Deus.

Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.” – 1 Reis 19:11-12

Quando fechamos nossos olhos para orar, meditar, ou entrar em contato com Deus da nossa forma, não devemos esperar que seja algo simples e imediato. Sim, Jesus disse que o que fosse pedido nos seria dado, mas também disse que Deus é Pai, e qual o Pai que dará uma barra de chocolate para o filho comer no almoço, ainda que assim peça o filho entre lágrimas? Precisamos estar aprofundados para reconhecer certas coisas em nossas vidas e esse aprofundamento não é muito diferente da experiência de Elias no fundo da caverna no alto da montanha à espera.

Afirmar que o pecado é a origem de nossa distração em relação a unidade é algo que pertence a muitas tradições e isso não é para ser remediado com atalhos, dramas, e tão pouco será perenemente remediado. Viver presente é uma peregrinação que sempre nos leva, em algum momento, novamente para onde estamos. Mas não conseguimos continuar onde estamos, no aqui e agora, por causa da distração causada pelo nosso constante estado de pecado.

A distração, a fuga do eu, é uma forma muito efetiva de nos manter elevados e fortes para continuarmos errando com o aval da consciência. Entretanto ao tomarmos consciência do pecado, do erro, falta ou como quer se chame, e através dessa consciência nos humilharmos da altura que talvez tenhamos nos colocado, então estamos no caminho diário que nos leva da distração para a vida no momento presente. Não nos é pedido que nos humilhemos diante da vontade dos outros, mas diante da nossa própria incapacidade de sermos mais abertos e disponíveis. Isso não é algo a se lamentar pois todos temos e continuaremos tendo limitações, se fosse diferente talvez estivéssemos envolvidos em algum complexo de superioridade, mas é algo a nos manter conscientes de nossa distração, de nossos pecados, e continuarmos peregrinando rumo a um coração mais puro.

Talvez esse seja um erro no entendimento imediato na oração e da meditação, achar que através dela estaremos usando de um atalho para a Paz Interior, para a Fortaleza, para a Salvação, para a Sabedoria ou Iluminação. Mas acho que todo aquele que está num caminho de oração percebe logo o fogo, o terremoto, o vento forte, tão logo supere os devaneios iniciais onde foram projetadas toda sorte de ilusões. A brisa na qual Deus nos fala não é a empolgação inicial da caminhada. Essa brisa não vem de Deus, vem de um ventilador de imagens. Mas tanto quanto perseveramos, tanto mais avançaremos em direção ao momento presente, a realidade do agora de Deus, sem atalhos, pois muito pelo contrário, o caminho da oração é estreito e muitas vezes pedregoso. Mas nele sentimos que somos sustentados e não que nos sustentamos, sempre que nos percebemos, ainda que numa faísca do tempo, sob a graça inexprimível de Deus.

Entre tantos “talvez”, a única certeza é a de que Deus sendo amor não castiga o pecado, mas envia sua Graça aos que à ela estão abertos. E nos abrimos à ela purificando os olhos do coração.

Presença

Quando por um instante o corpo e a mente repousam atentos em nada querer, tudo observar com distância, observa também que tão logo queira algo, o momento se perde. Não pelo querer em si, mas pelas forças que o ego projeta sobre esse querer buscando não apenas realizá-lo com liberdade desinteressada, mas com as ilusões de sucesso e fracasso pessoais, com a ambição de conseguir e assim afirmar tal poder, como se qualquer êxito fosse mérito humano. Quanto mais articulado for esse ego, menos se percebe a verdade de que nem a própria vida nos pertence. Talvez se perceba nocionalmente, mas não existencialmente, não se experimenta como verdade mas como condescendência do ego. Continuar lendo

Retornar sempre de novo a humildade

As vezes , quando desenvolvemos certo orgulho, podemos desenvolver também certa confusão e deslocamento quando no meio daqueles que acabamos vergonhosamente achando indignos de paz, amor e Graça. Isso nos ensina que nós mesmo perdemos o contato com o que é essa experiência de paz e amor que emana do Reino. Talvez devessemos lembrar das palavras de Jesus: “Certo homem tinha dois filhos. Dirigiu-se ao mais velho e disse-lhe: “Filho, vai hoje trabalhar para a vinha”. O filho respondeu: “Não quero”. Mas depois arrependeu-se, e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: “Sim, senhor, eu vou”. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?» Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: «O filho mais velho». Então Jesus disse-lhes: «Pois Eu garanto-vos: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vós no Reino do Céu.” (Mt 21, 28-31)

São Paulo nos afirma algo muito importante quando diz: “Deus é o Salvador de todos, principalmente dos que têm fé.”(c.f. 1 Tm 4,10) Continuar lendo

A instabilidade que aprofunda a estabilidade

A National Geographic de Maio de 2011 trás a matéria “Lá vem a chuva”, sobre o povo de Bangladesh. O povo de Bangladesh é uma fonte de inspiração, leiam a matéria, vale à pena:
http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-134/povo-bangladesh-625716.shtml?page=2

Talvez possamos facilmente refletir um pouco sobre um aspecto importante da espiritualidade beneditina, a estabilidade. Para São Bento, nas palavras de John Main, a vida espiritual começa quando nossa ascese consegue interiorizar aquilo que busca praticar e muitas vezes a estabilidade ganha profundidade interior, enraizamento, quando somos constantemente provados pela instabilidade exterior.

Em Bangladesh não há solidão geográfica para qualquer pessoa. Mais de 80% da população brasileira amontoada em uma área do tamanho do Ceará, onde se muda de moradia muitas vezes no ano, forçados por questões climática, a ponto de estarem à vontade e bem entendidos com a necessidade de se “construir uma casa em apenas um dia e plantarem uma horta antes do anoitecer. São as pessoas mais resilitentes do planeta”. Seus guarda roupas são malas e vivem segundo uma organização que os permitam simplesmente levantar e ir embora para outro lugar de forma imprevista.

“Bangladesh é considerada um problema internacional insolúvel, mas se é caso de desespero, muitos em Bangladesh não estão sabendo. Na verdade há quem pense o contrário, para esses, as dificuldades dão lugar a intensa esperança”. Diz um morador local que o segredo é “Não pensar, estamos em dificuldades mas a preocupação não resolve nada. Não temos alternativas, só nos resta ficar mudando. Plantamos nessa terra o tempo que pudermos, depois o rio leva embora. Com ou sem preocupação o final é sempre igual” Continuar lendo

Breve Mensagem de Domingo de Ramos

Uma breve pausa no recolhimento quaresmal para compartilhar a pequena nota da comunidade para o Domingo de Ramos e os dias da Semana Santa.

“Veja a alegria de uma vitória eleitoral, o candidato bem-sucedido recebendo glórias e adulação da multidão e a energia inebriante de esperança e novos propósitos. Compare com o político cansado, envelhecido prematuramente e surrado, que se encaminha com poucos sinais de dignidade para o fim da carreira. A
 cena icônica de hoje na história do Evangelho, que começamos a vivenciar após os ecos de preparação para a Quaresma, vem em um sentido inverso. Jesus entra em Jerusalém carregado por uma onda de entusiasmo popular. As multidões batem palmas diante dele e cantam seus louvores. Esperam grandes coisas da última figura messiânica. Talvez, no fundo, não esperem que seja diferente dos anteriores, mas precisam de vencedores para compensar seu senso de desilusão tanto quanto amamos os vencedores do “The X Factor” ou ansiamos tocar a bainha da roupa de celebridades.

A diferença nesta versão da história – como na Paixão e queda pessoal que logo se segue – é que o protagonista não acredita no mito em que foi transformado. Compreende a si mesmo e o que está acontecendo. No centro da turbulência, um silêncio frio e presença de espírito preside. Nos próximos dias, temos de distinguir claramente entre a individualidade dramática do personagem central e os elementos míticos dessa história. Não há solução fácil para este paradoxo. Pender para um extremo ou outro é perder o significado. Jesus se torna apenas uma figura secundária histórica, se transforma em um ícone mítico que tem capturado a imaginação mais profunda da humanidade há dois milênios. 

Para ler a história que nós embarcamos hoje, devemos nos ler. Nossas próprias esperanças e desesperos, erros e acertos, nos guiarão em uma história cujo significado penetra toda a experiência humana. Em seguida, ele nos leva a uma visão da realidade que transcende e transforma aquele que a vê.”

Laurence Freeman, OSB
Traduzido por Leonardo Corrêa


Muitas vezes a forma que encontramos de suportar as exigências de nossa realidade e o inconveniente de nossas 
circunstâncias, se origina mais na vontade de atendermos ilusões ainda não superadas, ainda que já reconhecidas, projetadas nos desejos, do que na responsabilidade para com nossas próprias convicções cristãs que, se de fato acreditamos, então, temos um compromisso natural para com elas. Acabamos entregando as nossas convicções por culpa de uma flexibilidade que garanta a manutenção daquela imagem construída, dos elogios, da garantia de que seremos sempre aceitos e acolhidos, ao invés de uma flexibilidade que garanta que em tudo estaremos fugindo dessa auto-imagem-importante, que garanta uma criatividade que nos permita ver apenas as necessidades que nos são dadas pelas nossas circunstâncias e saibamos transformá-las em fonte de satisfação, ou apenas uma flexibilidade que nos permita amar mais. Isso pode envolver um esforço, e dado os esforço com o qual já estamos comprometidos em relação a essa imagem e nossas vontades, muito naturalmente irá parecer um esforço a mais no meio dos tantos que já temos e, além disso, um esforço contrário àquele pelo qual já nos esforçamos. Abandonamos então o novo esforço ao qual nossa maturidade ia, e vai sempre novamente, nos levando, o esforço pela realidade das coisas. O esforço pela liberdade em relação as ilusões, ao ego. Não pela eliminação impossível dessas ou daquelas imagens, mas pela liberdade em relação à elas. Na verdade dependemos dessa tensão assim como andar para frente depende da contração e distensão das pernas, a respiração depende da contração e distensão dos pulmões… E tentar superar as nossas contradições nos leva para frente, nos leva a respirar. Elas precisam existir, mas não podem ser protegidas e estabelecidas, mas desafiadas e superadas.

Mas, presos a auto-imagem-importante, corremos o risco de não buscar o que convém à nossa realidade mais profunda, menos condicionada, necessidades reais, mas sempre buscar necessidades relativas, o que não é um mal se o fazemos com a humildade de reconhecer que se são relativas deveriam ser aceitas também como fraqueza aquilo em nós que nos impede de superá-las. Talvez isso destrua nossa auto-imagem e então acreditamos muito facilmente no mito de nós mesmo. Muitas vezes não é um mito orgulhoso, mas também um mito negativo a nosso respeito. Em si, tudo ilusão. Como diz o Eclesiastes, “vaidade e corrida atrás do vento”.

Jesus supera a ilusão, as exigências de coisas fantásticas que as pessoas o impõe, num recolhimento interior, silencioso e sério. Não em uma indiferença aos outros. Isso ele provou o contrário sem precisar se revestir das ilusões e alardes dos que dele se aproximavam. Sem alterar sua realidade interior, onde encontra o Pai e diz ao seus mais próximos discípulos, sem rancor, “vós me abandonareis, mas não estarei só, o Pai está comigo”, de forma a suportar todo o absurdo humano que lhe foi imposto nas horas da Paixão sem se distanciar de seu centro, o centro que nos pode preservar da flexibilidade nociva que nos distancia de nós mesmo para nos aproximar da imagem que os outros tem de nós. O Pai está com ele e por isso suportou momentos de sofrimento incomparável. Se olharmos para sua imagem nessas horas, podemos perigosamente ficar preso na imagem da violência exterior, na injustiça cometida pelo seu povo, e ignoramos a ocasião que formaram para a revelação contida no seu silêncio: dentro, o Pai estava com ele. Deu-lhe a força necessária para não perder-se da “pureza incorruptível de um coração pacífico”, mostrou-nos o tempo todo as condições para essa união constante capaz de sustentar-nos no “impossível” sem entregarmos nossa dignidade nas mãos da flexibilidade puramente protetora de nossa imagem e de nossa ilusão.

Que a Quaresma seja ocasião de encontro pessoal e vivo conosco mesmos, com Deus e portanto, com o outro.

Quem intenciona o bem comum não exclui a si mesmo

“Uma sociedade que não consegue aceitar os sofrimentos e não é capaz de de contribuir, mediante a compaixão, para garantir que o sofrimento seja compartilhado e levado também interiormente, é uma sociedade cruel e desumana” (Carta Encíclica. Spe Salvi, 38).

Leia aqui: Mensagem do Papa Bento XVI em ocasião do XIX Dia Mundial Dos Doentes


O sofrimento é um mistério. Não por sua origem fenomenológica. Seu efeito em nós vai além de uma dor, de um trauma. O sofrimento de uma pessoa pode reconfigurar não apenas a sua vida, mas a vida de muitas outras. Hoje se encontra formas práticas, envoltas em mecanismo de auto-indulgência moral, de se resolver rapidamente, e sem culpa, qualquer coisa que venha a atrapalhar ou mudar planos de realização centrados no ego e não no outro. Aborto, eutanásia, asilo, e outras formas imediatas e práticas de lidar com problemas que causam grandes transformações e geralmente muito sofrimento, se tornam cada vez mais opções interessantes, inteligentes, humanas e solidárias. Essa confusão conceitual talvez seja criada porque aquele que convive com seu próprio sofrimento, isso significa buscar suportá-lo, superá-lo ao invés de loucamente amputá-lo, negá-lo, convive também com a esperança e com o amor. Por conseguinte procura até mesmo aliviar no outro o fardo que ele mesmo pode ter se tornado. Continuar lendo