Visão Geral

Durante o século passado, assumiu-se a possibilidade do diálogoentre as religiões com um conforto e uma constância que se podemexplicar melhor através de um sentido profundo e partilhado de sua importância. Com efeito, vê-se o diálogo inter-religioso comoa única alternativa construtiva em face da atitude tradicional darivalidade religiosa, do antagonismo e da agressão. Porém, deve-seadmitir que as religiões por sua própria natureza não se dêem aodiálogo. A possibilidade do verdadeiro diálogo pressupõe certascondições, condições estas que requerem reinterpretação profundadas categorias e princípios religiosos tradicionais.Uma das condições primárias para o diálogo é a humildade.Qualquer diálogo envolve reciprocidade ou mutualidade que seopõem radicalmente a uma posição de superioridade absoluta. Ahumildade necessária para o diálogo inter-religioso pertence nãosomente ao conhecimento que se tem da outra tradição, mas tambémda própria tradição. Inclui, portanto, o reconhecimento danatureza limitada ou finita do próprio entendimento religioso daverdade, ou pelo menos certa suspensão das reivindicações absolutasem torno da verdade. O diálogo pressupõe, então, certo grauda humildade doutrinal, ou uma humildade em respeito às reivindicaçõessobre a verdade da própria tradição.

De fato, a virtude da humildade desempenha papel central namaioria das tradições religiosas. Dentro das religiões monoteístas, aatitude da humildade define a relação com Deus. É exatamente a féno Deus Criador, a fonte de toda bondade e verdade, que faz vãs todasas tentativas humanas de autoglorificação e de orgulho. A tensãoentre a obediência humilde a Deus e o orgulho fica nas entrelinhasde toda a narrativa bíblica, desde história da queda de Adão e Eva ao apelo de Paulo de “fazer nada por causa do egoísmo ou vaidade,mas por humildade considerar os demais superiores a vós mesmos”(Filipenses 2.3). Do mesmo modo, a própria palavra Islã se refere aosignificado central da submissão humilde ao Deus daquela tradição.Mesmo que em geral as religiões não-monoteístas não usem o termo“humildade”, o fim último destas tradições inclui um estado de autoaniquilaçãototal em face do absoluto. Pode-se dizer, então, (pelomenos de modo provisório) que alguma atitude correspondente àhumildade pessoal ou espiritual define a relação com o absoluto.

Por outro lado, esta atitude da humildade espiritual, tida em comumpela maioria das tradições religiosas, não parece ter espontaneamenteconduzido, ao longo da história, à maior abertura para comas demais religiões. A razão para isso pode ser encontrada no fato deque a humildade em geral se entende dentro de uma religião comoatitude que se adota para com, mas não sobre a verdade da própriatradição. A humildade espiritual pode, com efeito, muitas vezes coincidir com muito orgulho doutrinal, onde as reivindicações de verdadesabsolutas e a humildade pessoal muitas vezes se fortaleçam entre si.Quanto mais absoluta determinada doutrina, tanto mais incondicionalo assento humilde ou a submissão incondicional da vontade e do juízoque se requerem do fiel. Por outro lado, quanto mais humilde for asubmissão aos ensinamentos específicos, tanto mais pode-se investirno sustento de sua verdade absoluta. Assim se pode explicar como foique o próprio Bernardo de Claraval, que pode ser considerado comoo mestre da humildade cristã, foi ao mesmo tempo um dos advogadosmais férvidos das cruzadas contra os muçulmanos e os judeus.Embora a humildade espiritual nem sempre conduza à humildadedoutrinal, há, porém, fontes dentro da tradição da humildadeque podem servir para desenvolver uma atitude mais humilde àsdoutrinas e reivindicações de verdade, assim como uma atitudemais aberta às outras tradições religiosas. De dentro da tradiçãocristã, James Fodor, por exemplo, sustenta:

‘De modo paradoxical, é a virtude cristã de humildade e não o ideal moderno liberal democrático de tolerância que está verdadeiramente aberta à alteridade do estrangeiro. Pois a humildade cristã cultiva umamor para o particular numa maneira que não nega o estrangeiro ao esconder de si mesmo suas próprias tentações à coerção, seu próprio desejo para o poder, sua propensão a pecar.’

Ao enxergar o sentido e o uso do conceito de humildade nocristianismo, tentaremos indicar os recursos disponíveis na própriatradição para ir de uma compreensão puramente espiritual da humildadea uma compreensão mais doutrinal da mesma, que podegerar maior receptividade à verdade das outras tradições religiosas.Ao mesmo tempo em que ela é condição para o diálogo, a atitudeda humildade doutrinal pode também surgir como resultado dodiálogo. E, de forma breve, iremos também nos referir ao modono qual o diálogo com o budismo pode lançar nova luz sobre oentendimento cristão da humildade.”

Humildade e Diálogo, Catherine Cornille
Traduzido por Tim Noble

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