3 – Humildade e Diálogo

Mesmo que a humildade espiritual, não necessária nem automaticamente, conduz à humildade doutrinal, pode-se dizer que a própria disciplina da humildade cultiva as atitudes que conduzem ao diálogo com outras tradições religiosas. Com efeito, os doze passos de humildade de Bernardo de Claraval culminam nos três passos da verdade em relação consigo mesmo, com o outro e com a realidade definitiva. Focalizaremos brevemente em cada um destes passos da verdade a partir da sua relevância para o diálogo com outras religiões.

O primeiro passo da verdade considera o verdadeiro autoconhecimento [24]. Dentro do cristianismo, a humildade não é só um meio para atingir a experiência de união com Deus, mas também a expressão da verdade definitiva sobre si mesmo. Bernardo fala do verdadeiro autoconhecimento como “aquele auto-exame completo que faz um homem desprezível ao seu próprio ver” [25]. E o autor de A nuvem de não-saber descreve a humildade como “o conhecimento e a experiência verdadeiros de ti mesmo como és, miserável, uma sujeira, muito pior do que nada” [26]. Estas concepções de humildade sublinham o sem-valor radical e total do ser humano, não em comparação com alguma instituição humana ou temporal, mas num sentido absoluto, em relação com Deus. O maior obstáculo ao verdadeiro autoconhecimento é o orgulho. É o orgulho mesmo que “escurece o olho da mente e joga uma sombra sobre a verdade de sorte que … não se mais vês, não mais podes se sentir tal como és real ou potencialmente: mas ou imaginas que és ou esperas que serás tal como gostarias de ser” [27]. Esta atitude de orgulho também se exprime na relação com outras pessoas. No quarto passo de orgulho, Bernardo critica a maneira na qual uma pessoa orgulhosa entra em diálogo com outras:

As opiniões vão voando por aí, as palavras ponderosas ressoam. Ele interrompe um questionador, responde a um que nada pergunta. Ele mesmo coloca perguntas, ele mesmo as resolve, interrompe as palavras não-completadas de outro locutor… Ele não se interesse em te ensinar, ou de aprender de ti o que ele não sabe, mas em saber que sabes que ele sabe.[28]

O cultivo da atitude oposta, a humildade, gera paciência, abertura e receptividade necessárias para qualquer diálogo. Ao cultivar a humildade, muitos escritores cristãos sublinham a importância de desenvolver alta estima para com os outros em comparação com si mesmo. Tomás de Kempis, por exemplo, constata que “nada é tão benéfico como o conhecimento verdadeiro de si mesmo, o que produz um autodesprezo muito sadio. Sempre pensa bem dos outros, ao mesmo tempo em que tens a si mesmo como nada: isto é a sabedoria verdadeira e conduz à perfeição” [29]. Tal atitude certamente representaria importante corretivo à arrogância e à autojustificação, as quais, tradicionalmente, governaram as atitudes para com fiéis de outras tradições religiosas.

O segundo passo da verdade diz respeito à verdade sobre o outro. Aqui Bernardo diz que a humildade conduz ao amor verdadeiro pelo outro: “A verdade dá amor àqueles para quem é revelada. Mas revela-se aos humildes, e por isso dá amor aos humildes” [30]. A relação direta entre a humildade e o amor já se desenvolveu com personagens como Agostinho, que diz que a humildade conduz ao “mais carinhoso tipo de amor para os seus companheiros, um amor sem motivos, sem vaidade, sem arrogância, sem decepção”31. Este amor implica para Bernardo não somente atitude de auto-doação incondicional, mas também a capacidade de empatia para com o outro:

Os misericordiosos compreendem rapidamente a verdade nos seus vizinhos e estendem seus próprios sentimentos a eles, e os confortam através do amor, a fim de que eles sentem suas alegrias ou problemas como os seus próprios. São fracos com os fracos; queimam com os ofendidos. Alegram-se com aqueles que se alegram, e choram com aqueles que choram (Rom. 12,15 ).32

A humildade aumenta não somente o entendimento afetivo, mas também cognitivo do outro. Entretanto, este amor e empatia não implicam necessariamente no endosso da posição do outro. Com efeito, o próprio Bernardo avisa que, à luz do absoluto, “todos são falsos” e “todos são fracos, todos são miseráveis e impotentes, que não podem se salvar nem salvar outros”[33]. Mas a compreensão do outro que nasce do amor é, sem dúvida, mais conducente ao diálogo do que as atitudes de inimizade e suspeita que tradicionalmente governam a relação entre as religiões.

O terceiro e último passo da verdade para Bernardo trata de chegar à verdade do absoluto ou à própria verdade definitiva. Ao ter vencido “os três obstáculos que vêm da ignorância, da fraqueza e da teimosia”, chega-se lá no “êxtase da contemplação” [34]. Como acontece em grande parte da tradição mística do cristianismo, Bernardo descreve esta experiência em termos apofáticos:

Lá ela vê coisas invisíveis, escuta palavras inexpressíveis, que não é lícito para um homem dizer. Vão além de todo aquele conhecimento que a noite mostra à noite; mas dia para dia a fala se articula, e é lícito falar da sabedoria entre os sábios e comparar as coisas espirituais com as pessoas espirituais.[35] No terceiro [passo] são levados aos mistérios da verdade e dizem, Meu segredo para mim, meu segredo para mim.[36]

Estas metáforas apontam para o fato de que a verdade definitiva se encontra além das concepções e expressões humanas. Só se pode abordá-la através da negação de todas as categorias finitas e imagens fixas do absoluto. Isso então também implica certo grau de humildade doutrinal ou reconhecimento da limitação das expressões doutrinais para captarem a verdade última. Para Nicolau de Cusa, tal humildade em respeito da própria capacidade de entender o absoluto se torna ela mesma condição para atingir esta verdade:

Os mistérios maiores e mais profundos de Deus, embora escondidos dos sábios, são revelados pela fé em Jesus aos pequeninhos e humildes que caminham pelo mundo… Já que não se pode conhecer Deus neste mundo, onde a razão, a opinião e o ensino nos conduzem por meio de símbolos do melhor conhecido ao desconhecido, só se conhece Deus lá onde as convicções acabam e a fé entra.[37]

A humildade doutrinal ou a humildade em respeito da verdade definitiva das próprias formulações doutrinais formam, então, parte integral da tradição mística do cristianismo, como aliás da maioria de formas do misticismo. Tudo isso ajuda muito a explicar por que aqueles mais comprometidos com a prática do diálogo foram muitas vezes monges, pessoas empenhadas no fundo da sua prática diária com o cultivo da atitude de humildade e sintonia com a transcendência definitiva de Deus. Os primeiros pioneiros do chamado diálogo Oriental-Ocidental, Henri Le Saux, Bede Griffiths e Thomas Merton foram todos monges beneditinos. E alguns dos esforços mais sistemáticos e duráveis para um encontro contínuo com fiéis de outras tradições religiosas têm vindo do Movimento para Diálogo Intermonástico (MID em inglês ou DIM em francês). Vários elementos podem explicar a abertura monástica ao diálogo com outras religiões: ênfase comum na pobreza e renúncia, práticas ascéticas semelhantes, a importância das virtudes monásticas como a hospitalidade, dentre outras.[38] Mas é a atitude da humildade que atravessa todas estas práticas e ensinos religiosos que se pode considerar como o fundamento mais importante, tanto religioso como ontológico, para a abertura à verdade de outras tradições religiosas.”

Humildade e Diálogo, Catherine Cornille
Traduzido por Tim Noble
24 No assunto de auto-conhecimento, podemos contrastar a humildade sem mais nada com seu antecedente histórico na Grécia antiga: sophrosune, ou moderação, a qual termina muito aquém desta chamada à auto-aniquilação.
25 Bernardo de CLARAVAL. The Steps of humility, cap. 1, 2.
26 The Cloud of Unknowing, p.181.
27 Bernardo de CLARAVAL. Op. Cit., cap. 4, 14
28 Ibid, cap.13, 41.
29 Tomás de KEMPIS. A Imitação de Cristo, livro 1, cap.2,4
30 Bernardo de CLARAVAL. Op. Cit., cap. 2,5.
31 Ibid, cap. 12, p.421
32 Ibid, cap. 3.
33 Ibid, cap.5,16.
34 Ibid, cap. 6,19.
35 Ibid, cap. 7,21.
36 Ibid, cap. 8,23.
37 NICOLAU de Cusa. On Learned Ignorance, 245.
38 Pierre-François de Bethune, uma das personagens chaves no diálogo intermonástico, fala da importânciada hospitalidade monástica para gerar uma abertura e receptividade para membros de outras religiões. Em Pierre-François BETHUNE. Par la Foi et l’hospitalité. Clerlande: Publications de Saint-André, 1997
 


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