2 – Humildade e Doutrina

“Ao mesmo tempo em que a humildade representa, em primeiro lugar, virtude espiritual, uma função da relação entre o fiel e Deus, define também a relação do fiel para com a doutrina no cristianismo. Na medida em que as definições foram tidas como expressões permanentes e imutáveis da verdade suprema (14), entendeu-se a fé como submissão humilde da própria vontade e juízo aos ensinamentos da tradição. Da perspectiva da compreensão tradicional proposicional da verdade, a humildade passa a ser, então, atitude que se toma com respeito às verdades doutrinais. Embora a tradição católica chegasse a reconhecer certa hierarquia de verdades (dependendo da sua relação com a base da fé cristã) (15) e suportar certo grau de dissensão, o objetivo final é ainda a “submissão da vontade e do intelecto” (16). Esta atitude, chamada de “obsequium religiosum” significa, segundo Francis Sullivan, “um esforço honesto e sustentável de vencer qualquer opinião contrária que posso ter, e conseguir um consentimento sincero da mente com esta doutrina” (17). A não-conformação a algumas doutrinas da Igreja pode tornar-se oportunidade para a humildade, ou pelo reconhecimento humilde da própria falta da humildade. Ao longo da história as doutrinas,às vezes, funcionavam como os critérios contra os quais se mediu a própria humildade. Agostinho, por exemplo, considerou o orgulho como “a mãe de todos os hereges” e acreditava que “se não houvesse orgulho, não haveria hereges, nem cismáticos, nem circuncidados,nem adoradores das criaturas ou de imagens” (18). Considerou-se,assim, todo desvio consciente da Igreja como falha da humildade. É através do acesso humilde ao entendimento e às direções de uma tradição que os fiéis podem conseguir a libertação do orgulho e da autonomia intelectual. Dentro do cristianismo, a humildade foi, então, tradicionalmente vista como atitude a ser tomada com respeito às doutrinas. Entretanto, elas mesmas nunca foram objeto da humildade. Acreditou-se que elas participam da verdade definitiva da própria revelação e, enquanto tais, encontram-se além da reflexão crítica e humilde. Em si, não se pode dizer que o entendimento tradicional religioso (ou pelo menos cristão) da humildade conduz ao verdadeiro diálogo.

O diálogo necessita do cultivo da humildade não só com respeito a,mas também sobre as doutrinas e reivindicações de verdade da própria tradição. Tal humildade doutrinal ou epistêmica vem se desenvolvendo paulatinamente no cristianismo como resultado da integração da modernidade e da consciência histórica na auto-compreensão cristã. Desenvolveram-se novas teorias da doutrina, que reconheceram a particularidade histórica e cultural – e, portanto, os limites – de formulações doutrinais específicas. Ao reconhecer que os “dogmas são proposições” e que “as proposições só têm sentido dentro dos contextos nos quais foram definidas”, Bernard Lonergan constatou que “o que é permanentemente verdadeiro é o sentido do dogma no contexto no qual foi definido” (19) . A fim de manterem sua verdade, as doutrinas precisam então ser continuamente reformuladas e adaptadas. Esta atitude coma doutrina permite humildade, se não em relação às próprias verdades doutrinais, pelo menos com respeito à maneira na qual foram formulada sao longo da história. Muitas vezes, esta atitude em relação às doutrinas conduziu ao diálogo imediato e espontâneo com outras religiões. A necessidade de reformular as doutrinas nos contextos culturais diferentes precisa também de compromisso criativo com as formas simbólicas e rituais que tradicionalmente formaram aquela cultura.

Certa base doutrinal para esta atitude de humildade com relação às doutrinas pode se encontrada na escatologia cristã. A ênfasena natureza provisória de todas as realidades temporais influenciou também a auto compreensão cristã da doutrina. Por exemplo, o documento do Vaticano II, Dei Verbum (8), afirma:

A Tradição progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo.Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas… Isto é, a Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus(20).

Pode-se, então, ver que a escatologia cristã reforça a compreensão moderna da natureza histórica e condicionada de todas as reivindicações de verdade. A admissão humilde da possibilidade de crescimento na verdade pode ser vista como abertura das portas ao diálogo com outras religiões. No final do século vinte, o documento do Vaticano “Diálogo e Anúncio” relaciona a abertura à verdade de outras religiões imediatamente à compreensão escatológica daplenitude da verdade, ao constatar que:

A plenitude da verdade recebida em Jesus Cristo não dá aos cristãos individuais a garantia que eles compreenderam aquela verdade plenamente. Em última análise, a verdade não é uma coisa que possuímos, mas uma pessoa por quem nós nos permitimos ser possuídos. Este é um processo sem fim. Ao invés de guardarem sua identidade intacta, os cristãos devem estar prontos a aprender e receber de e através de outras pessoas os valores positivos de sua tradição (21)

Não é, então, surpreendente que muitos teólogos cristãos envolvidos na teologia das religiões ou no diálogo com outras religiões focalizem na noção da orientação dinâmica ao cumprimento futuro do Reino de Deus como a base e o horizonte últimos para o diálogo com outras religiões. O recém-falecido jesuíta belga e conhecido teólogo das religiões Jacques Dupuis diz:

Talvez não haja nada que forneça ao diálogo interreligioso base teológica tão profunda, e motivação tão verdadeira, como a convicção de que, apesar das diferenças que os distinguem, os membros de tradições religiosas diferentes, sócios do Reino de Deus na história, caminham juntos rumo à plenitude do Reino de Deus, rumo a nova humanidade desejada por Deus para o final dos tempos, reino este do qual eles são chamados a ser co-criadores com Deus (22)

É a tensão entre o “já” da plenitude da revelação e o “ainda não” de nossa compreensão dela que pode gerar a humildade doutrinária ou humildade sobre a nossa compreensão da doutrina esobre a capacidade da doutrina de captar a plenitude da verdade .Por sua vez isto possibilita o diálogo verdadeiro. Uma das expressões mais paradoxais desta humildade doutrinal pode ser encontrada na noção de Karl Rahner do “cristão anônimo”. Mesmo que muitas vezes esta expressão seja considerada como manifestação clara de arrogância e triunfalismo cristãos, o próprio Rahner a entendeu como expressão da “maior humildade”:

Os não-cristãos podem pensar que é uma presunção para o cristão julgar que tudo o que é de bom ou restaura (pela santificação) é o fruto em cada homem da graça de seu Cristo, e interpretá-lo como cristianismo anônimo; podem pensar que é uma presunção para o cristão consideraro não-cristão como um cristão que ainda não chegou reflexivamente a si mesmo. Mas o cristão não pode renunciar esta “presunção” que é de fato a fonte da maior humildade, tanto para ele mesmo como para a Igreja. Pois é uma admissão profunda do fato que Deus é maior do que o homem e a Igreja. A Igreja sairá no encontro com o não-cristão de amanhã com a atitude exprimida por São Paulo, quando disse “O que vós não sabeis, mas ainda adorais (mas ainda adorais!), isto eu vos anuncio” (At17,23). Com tal base se pode estar tolerante, humilde, mas firme para com todas as religiões não-cristãs (23)

Para Rahner, a humildade da expressão “cristão anônimo” se encontra então no reconhecimento da possibilidade da presença salvífica de Deus além dos limites da tradição cristã. Pode-se, no entanto, ir além disso para entender a expressão à luz da particularidade necessária de qualquer concepção da verdade e da salvação.O próprio Rahner salientou que o termo foi explicita e conscientemente próprio a uma confissão, a ser utilizado por cristãos para poderem chegar a uma compreensão maior da salvação a partir deuma perspectiva teológica cristã. Isso pode refletir uma consciência humilde da contingência e da particularidade históricas e conceituais de toda compreensão do outro. Embora esta interpretação provavelmente vá além das intenções de Rahner, ela abre o caminho para maior grau da humildade, não somente rumo à transcendência de Deus e à atividade salvífica de Deus no mundo, mas também sobre a própria compreensão teológica e doutrinária de Deus e da verdade definitiva”

Humildade e Diálogo, Catherine Cornille

Traduzido por Tim Noble

17 Francis SULLIVAN. Magisterium: Teaching Authority in the Catholic Church, p.164

18 AGOSTINHO. De vera religione, xxv, 47, p.43.

19 Bernard LONERGAN. Method in Theology, p.325.

20 PAULO VI. Dei Verbum, p.754.

21 Cf. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO, n. 49

22 Jacques DUPUIS. Towards a Christian Theology of Religious Pluralism, p.346. Outro teólogo que sublinhaa noção do Reino de Deus como a base e o foco para o diálogo entre as religiões é Paul Knitter.Knitter, porém, foi muito além da maioria dos teólogos, e do ensinamento oficial da Igreja Católica,ao acentuar a diferença entre a economia da graça do Reino de Deus e “aquela que se faz conhecida pela Palavra encarnada em Jesus (no qual, é claro, o Espírito também atuou)”. Paul KNITTER, Jesus andthe Other Names, p.113.

23 Karl RAHNER. Theological Investigations, vol. 5, p.134.

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