1 – A Virtude Cristã da Humildade

“Raramente se considera o cristianismo uma religião humilde.Ao contrário, associa-se a religião cristã com arrogância religiosa, com triunfalismo e com a confiança absoluta na verdade superior de seus ensinos e práticas. Porém, a humildade constitui virtude chavena espiritualidade e ética cristãs. Para Santo Antão, a humildade representa “a primeira de todas as virtudes” e para Agostinho,é ela “o sumo completo da medicina necessária para nos curar.”Dentro da tradição monástica ocidental, o caminho de ascensão a Deus se desenvolveu em termos dos “doze passos da humildade” .A humildade se mostra como tema central nas obras da maioria dos místicos cristãos, de Gregório, o Grande ao autor anônimo da Nuvem de Não-saber, e dos místicos carmelitas como Teresa de Ávila e João da Cruz aos intercâmbios espirituais entre Francisco de Sales e Jeanne de Chantal. Mesmo em momentos nos quais pareceque a importância da humildade foi mais ou menos ocultada sobo triunfalismo e poder cristãos, ela continuou a sustentar as obrasde grandes teólogos, como Tomás de Aquino e os fundadores denovas ordens religiosas, como Inácio de Loyola. E mesmo que sepense que a noção da humildade seja profundamente antitéticaà ênfase moderna na autonomia humana e excelência individual, ainda figura conspicuamente nos escritos de autores modernos da espiritualidade como Simone Weil e Jean-Louis Chrétien.”

Na espiritualidade cristã, a humildade constitui um caminho rumo àexperiência de Deus, como também à experiência de si. Bento, fundadordo monasticismo ocidental, desenhou o caminho espiritual em termos de ascensão por doze passos de humildade, enquanto Bernardo, o reformador, retraça estes passos numa ordem reversa, analisando o processo através do qual a alma se torna emaranhada numa situação cada vez mais profunda de orgulho. Todos os místicos salientam a importância da humildade e auto-aniquilação como condição necessária para o crescimento espiritual. Teresa de Ávila diz “por causa de todo o edifício serfundado na humildade, quanto mais nos aproximamos a Deus, tanto mais se deve desenvolver esta virtude: se não, perder-se-á tudo” . Considera-se que a união com Deus coincide com a aniquilação completa de si. Isto se exprime, por exemplo, nas afirmações de João da Cruz, queafirma: “quando ele ficar reduzido a nada, o maior grau da humildade, aunião espiritual entre sua alma e Deus, acontecerá” . Enquanto expressão e fruto da união com Deus, a humildade funcionou na tradição cristã também como critério para distinguir entre a verdadeira experiênciade Deus e a experiência do diabo. Deste foi dito que “deixa atrás dele a ansiedade, e pouca humildade, e não faz muito para preparar a alma para os efeitos que se produz quando algo vem de Deus” . Ainda que se tenha adimitido que o caminho da humildade somente pode ser atingindo em seu grau mais pleno na vida monástica , todos os cristãos são, nofinal das contas, chamados a cultivá-la. Ao conceber a humildade como virtude cristã fundamental, ou como o próprio “fundamento do edifício cristão” , Tomás de Aquino a aborda em primeiro lugar a partir da perspectiva de auto-controle ou o controle dos desejos:

“A humildade consiste fundamentalmente no apetite, na medida que se constrange a impetuosidade da alma, para que ela não tenda excessivamente para as coisas maiores. Mas tem sua regra no conhecimento, a saber, queum homem não deve se estimar maior do que ele é. E o princípio de cadaum destes elementos é a reverência que alguém tem para com Deus “.

Para Aquino a perfeição da humildade é, no final das contas,graça, dom de Deus (a fim de que não se torne uma oportunidade para o orgulho)

A virtude cristã da humildade se fundamenta no exemplo e no ensino de Jesus Cristo. Jesus veio ao mundo numa forma humilde,viveu uma vida humilde de submissão total à vontade de Deus, e se submeteu à humilhação suprema da morte na cruz. Disse aos seus discípulos: “aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11 .29) e a primeira das bem-aventuranças é direcionada aos humildes ou “aos pobresde espírito” (Mateus 5.3). Pode-se ver que o ensino de Jesus inclui certa reviravolta nas concepções humanas de orgulho e de honra.

Na espiritualidade cristã, a humildade foi vista como imitação de Cristo, ou participação na vida de Cristo. Em A Imitação de Cristo,Tomás Kempis coloca na boca de Jesus estas palavras:

“Eu me tornei o mais humilde e menor de todos os seres humanos, desorte que vós pudésseis vencer o vosso orgulho através da minha humildade. Vós que sois nada mais que cinzas, aprendei obedecer: vós quesois nada mais do que a poeira da terra, aprendei humilhar-se a colocar-se a baixo dos pés dos outros por causa de mim. Aprendei quebrarvossa vontade a se submeter a toda subjeção”

E, ainda, a espiritualidade jesuíta considerou a humildade comoo meio para experimentar a união plena com Jesus Cristo. Um dos grandes paradoxos da humildade cristã é que ninguém pode plenamente imitar a humildade de Jesus, nem atingir a plenitudeda humildade que Cristo representa. Embora esta crença cristã que “só Deus mesmo é humilde” possa parecer algo que desanima, pode também efetuar um aprofundamento da humildade ao “renunciar a idéia vã de um estado máximo da humildade à qual os nossos esforços podem nos conduzir”, como o diz Jean-Louis Chrétien. A vocação cristã então é ficar humilde de sua própria humildade.”

Humildade e Diálogo, Catherine Cornille
Traduzido por Tim Noble

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