A Ambivalência da Ira

“É absolutamente sem razão que na linguagem corrente os conceitos de ‘sentidos’, ‘paixão’, ‘concupiscência’ sejam compreendidos como ‘sensualidade’, ‘paixão má’ e ‘concupiscência desordenada’. Limitações como estas, de um significado originalmente muito mais amplo, esquecem o mais importante, isto é, que todos estes conceitos não possuem apenas um sentido negativo, mas que, muito pelo contrário, estão neles representadas forças das quais a natureza humana essencialmente se estrutura e vive.

A consciência comum cristã costuma, sempre que se fala de ira, ter em mente apenas o aspecto da intemperança, o elemento desordenador e negativo. Mas tanto como ‘os sentidos’, e a ‘concupiscência’, a ira pertence às máximas potencialidades da natureza humana. Essa força, isto é, irar-se, é a expressão mais clara da energia da natureza humana. Conseguir uma coisa difícil de alcançar, superar uma contrariedade: eis a função desse apetite sempre pronto a entrar em campo quando um bonum arduum, ‘um bem difícil’ deva ser conquistado. Daí que Tomás afirme: ‘A ira foi dada aos seres dotados de vida animal para que removam os obstáculos que inibem o apetite concupiscível de tender aos seus objetivos, seja por causa da dificuldade de alcançar um bem, seja pela dificuldade de superar um mal’ (I-II, 23, 1 ad 1). A ira é a força que permite atacar um mal adverso (I-II, 23, 3); a força da ira é a autêntica força de defesa e de resistência da alma (I, 81, 2).

“Portanto, condenar o apetite irascível, como se fosse intrinsecamente mau, e devesse ser ‘reprimido’, equivale a condenar os ‘sentidos’, a ‘paixão’ e a ‘concupiscência’; nos dois casos se ultrajam as maiores energias da nossa natureza, ofende-se o Criador que, como diz a liturgia da Igreja: ‘estruturou maravilhosamente a dignidade da natureza humana’.”

Josef Pieper Virtudes Fundamentais (Lisboa, Aster, 1960) pp. 272-3

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