Tempo de espera, tempo de conversão

Uma interessante experiência com meditação com detentos em prisões indianas, relatada no video TEMPO DE ESPERA, TEMPO DE VIPASSANA.

“Luta com todas as forças para que sua ação interior seja semelhante ao modo de ser de Deus e serás capaz de vencer as tuas paixões exteriores” (Miller, Sabedoria dos Padres 44). Seria possível ao homem conhecer o “modo de ser” de Deus? Deus sendo absoluto não teria um “modo” de ser. Simplesmente seria, como a si mesmo define, Aquele que É. No contexto da sabedoria humana acredito se tratar de adequar nossa ação interior à imagem que fazemos de Deus, a maneira como, num primeiro momento, imaginamos que Deus seria. Para Cristãos essa “imagem” de Deus pode ser encontrada em Jesus, mas precisa ser interiormente intuída e desenvolvida para não forçarmos nossa vida como que para dentro dos relatos evangélicos, mas transformar nossa vida numa continuação daqueles salvíficos relatos. A medida que transformamos nossa imagem de Deus, enquanto arquétipo, nos transformamos. Se formos assíduos leitores do Antigo Testamento e o do Novo, talvez possamos perceber que a maneira de se comunicar com Deus, a maneira como Ele era visto e entendido, foi sendo transformada na mesma medida que o homem era, pela Graça, também transformado. A visão dessa transformação talvez seja possível primeira, mas não completamente, através dessa expressão arquetípica. Nela, Deus se encontra somente em nossa mente humana, mas uma visão maior pode revelar que ali Ele se encontra por pura e infinita expansão do  seu Ser.

O fato é que a transformação ocorre. Os mais céticos podem dizer que o homem transforma Deus, os mais crentes vão dizer que Deus transforma o homem, mas na verdade a transformação é Deus acontecendo, Ele está acontecendo eternamente, ainda que O expressemos de forma arquetípica. Talvez possa ser dito que somos “salvos”, “iluminados”, quando transcendemos essa imagem, em silêncio e união, e retornamos à lucidez da realidade que, igualmente, está eternamente acontecendo.

No contexto da transformação, a meditação é de fundamental presença, pois se trata da abertura necessária para deixar que a transformação se manifeste à luz da observação. Na índia, o sistema carcerário faz uma experiência de sucesso com os detentos através da meditação Vipassana (veja no link ao fim da página).

Anselm Grun, monge beneditino, escreve em seu livro “O Céu Começa em Você” que “os monges acreditam que podemos trabalhar a nossa natureza e não estamos entregues irremediavelmente  às nossas aptidões ou àquilo que viemos a ser através de nossa educação errada, nem mesmo atribuem a culpa por sua vida aos outros. Ao contrário, eles mesmos assumem a responsabilidade por sua vida e dão forma à ela. Eles não se sentem entregues a suas concupiscências e necessidades, sem poder fazer nada. Mas pelo contrário, eles têm confiança na força com que Deus nos agraciou.” 

Transformação exige disciplina. No vídeo em questão, um detendo comenta que as regras da meditação são mais exigentes que as da própria cadeia. Talvez porque as regras da cadeia você tenta quebrar para se libertar dela, as da meditação você não pode quebrar sem fugir de si mesmo. Anselm Grun também escreve, no mesmo livro, sobre a disciplina: “ascese é um caminho para a liberdade, para tomar a própria vida nas mãos e uma maneira de dar forma a ela. De mais a mais não devemos confundir ascese com mortificação. Ascese significa propriamente um exercício para aquisição de uma prática. Ascese num sentido ético é um exercício para um comportamento virtuoso” (…) “o ponto preponderante consiste no exercício pelo qual o ser humana se exercita numa atitude de Apatheia, um estado de paz interior em que estamos abertos para Deus”

É essa abertura que permite toda transformação e que a meditação exercita, enquanto disciplina, nos mais diversos contextos, como nas cadeias. No video, um homem comenta “não deveriam mais ser chamados de detentos, mas de monges”.

Entre a reação e a repressão, existe uma opção: observação. Só quando aprendemos a observar as coisas com certa distância é que realmente se pode dizer que temos escolha. Que somos livres.

Veja o vídeo TEMPO DE ESPERA, TEMPO DE VIPASSANA

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