Com imagens e além delas.

Lemos no clássico da mística cristã medieval, “A núvem do não saber”, que durante a oração contemplativa, a oração do coração, não devemos seguir qualquer imagem, tão pouco as santas e piedosas. Instrui que ao seguir tais imagens, logo estaríamos “tagarelando” interiormente e não iríamos querer outra coisa, mas por fim a mente também trarria imagens de suas misérias, “de sorte que por fim, sem te dares conta, já te acharás com o espírito disperso nem sabes por onde. E a causa dessa dispersão é que primeiro escutastes de bom grado os pensamentos, e a seguir deste-lhes resposta, acolhimento e rédea solta” (…) “Por isso, todas as vezes que se dispuseres à esse trabalho, e tocado pela graça, sentires que Deus te chama, eleva teu coração para Ele, com humilde impulso de amor. Busca o Deus que te criou e redimiu, e por sua graça te chamou a este trabalho, e não admitas nenhum outro pensamento acerca d’Ele. Aliás, conserva esse mínimo admissível apenas se assim quiseres, pois basta uma intenção nua, voltada diretamente para Deus, sem nenhum outra causa além d’ Ele. E se quiseres envolver e encerrar essa intenção num só vocábulo, para melhor a reteres, escolhe uma palavra que seja curta… e prenda essa palavra ao coração, de modo que nunca dali se afaste, aconteça o que acontecer”. (Pag. 48, Ed Vozes , 2 Edição)

Mas é importante ressaltar que ele se refere ao momento da oração contemplativa, seja qual for a forma. Seja a oração de jesus, ou abordagens mais contemporâneas como a meditação cristã, a oração centrante, e outras formas orientais. Na hora do que o autor chama de hora do trabalho, a imagem pode ser uma grande armadilha ao enraizamento, a profundidade em direção ao solo do nosso ser. Entretanto as imagens são fundamentais e necessárias para a liturgia e para a Lectio Divina. O salmista diz que Deus está presente até mesmo em seus pensamentos e contudo, nas imagens. As imagens também são uma forma de comunicação com o espírito de uma forma mais discursiva, mais adequada a elaboração e conhecimento das nossas necessidades e expectativas ante Deus, que é uma dimensão naturalmente humana e portanto legitima a dignidade da nossa condição de filhos.

Se lutarmos contra as imagens, numa euforia de transcendência, poderemos estar simplesmente exercitando um orgulho espiritual que rejeita a dimensão humana para ficar apenas com a possibilidade de comunhão divina, como se em nossa atual condição a carne e o espírito não coabitassem na realidade com suas formas e estágios próprios de maturidade. Uma criança não aprenderá uma especialização que não está intelectualmente preparada, da mesma forma o espírito não poderá chegar a níveis mais profundos da verdade enquanto não aceitar e viver seu atual estágio de maturidade. Não podemos tomar atalhos espirituais, nos alertam os místicos cristãos.

Quanto a isso, o autor diz, no mesmo capítulo: “Se alguém pretender chegar à contemplação sem antes passar muitas vezes por doces meditações sobre a própria miséria, sobre a Paixão, sobre a bondade, a grande benevolência, e a dignidade de Deus, cometerá certamente um erro, e falhará no seu propósito”

As imagens podem nos trazer grandes insights acerca da realidade do mundo e ser fonte de auto conhecimento e abertura para um proceder que louve a Deus. Mas novamente precisamos voltar a oração contemplativa para aprendermos a sermos independentes. Livres de toda imagem e de toda linguagem, afim de sabermos, como nas palavras de John Main, que não somos nós que sustentamos a Deus, mas Deus é que nos sustenta, com todas as nossas imagens e linguagem.

O autor continua:  “Mesmo assim, no entanto, também a pessoa que tiver exercitado longamente essas meditações, deverá abandoná-las e mantê-las afastadas muito lá no fundo, debaixo da núvem do esquecimento, se alguma vez quiser furar a núvem do não saber que se acha entre ela e o seu Deus.”

Oração Bizantina:

“Ó Luz Serena, que brilha no
Solo do meu ser,
Atrai-me para ti,
Tira-me das armadilhas dos sentidos,
Dos Labirintos da mente,
Liberta-me de símbolos, de palavras,
Que eu descubra
O Significado
A Palavra Não Dita
Na escuridão
Que vela o solo do meu ser. Amém.”

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