Uma experiência de realidade

Os monges e aqueles que comungam de sua espiritualidade, seja alguém vinculado à comunidade ou que procura aplicar sua regra da melhor forma em sua vida, em qualquer tradição religiosa, intuíram e experimentam o grande valor do silêncio como uma das exigências fundamentais para chegarmos a uma experiência verdadeira da própria realidade e da realidade como um todo, em Deus. Para exercitar-se no silêncio, e leva-lo consigo, a tradição monástica orienta a permanencia na cela. O conceito de cela pode ter amplo significado. O importante é que haja um espaço para recolhimento na solidão e no silêncio. O monge Anselm Grum (O.S.B) explica:

“Hoje em dia, passou a ser algo por demais normal a incapacidade de suportar-se e assim saltar de um lugar para outro. As pessoas se dispersam com uma facilidade tremenda. No entanto, o que acontece com nossa alma? Nada mais pode amadurecer. Não acontece mais nenhuma verdade, uma vez que o amadurecimento requer serenidade.

Os monges não falam sobre Deus. Eles procuram afastar todas as possibilidades de dispersão, a fim de poderem direcionar o espírito completamente para Deus. Pois quando permaneço na cela sem nada fazer, sem conjeturar pensamentos piedosos, sem nenhuma leitura, então eu percebo o que a realidade é. Nesta situação não posso mais me iludir a meu respeito, nem a respeito do meu relacionamento com Deus.

Eu posso até falar e escrever muito sobre o meu relacionamento com Deus, mas, quando tudo me é tirado das mãos e permaneço realmente a sós diante dele, então surge o sentimento de que tudo é maçante ou a suspeita de que tudo o que eu digo sobre Deus não tem sentido. No entanto, quando sou capaz de suportar esse sentimento, quando não procuro imediatamente refletir sore isso para poder escrever algo mas simplesmente suporto tal situação, é aí que alguma coisa se põe em movimento e é neste momento que a verdade me atinge. A verdade pode até ser cruel num primeiro momento, mas é ela que liberta.

Assim, a permanência  interior da cela é um teste da realidade, um teste para ver se meu amor a Deus é autêntico. No interior da cela não me resta mais nenhuma possibilidade de me distrair e fugir para minhas atividades, de sonhar acordado. É justamente nesse lugar que preciso me colocar. É então que Deus me pede explicações, colocando em questão tudo o que eu havia imaginado a respeito dele e sobre minha vida.

Todavia só posso fazer uma experiência positiva proporcionada pela cela se eu for capaz de permanecer em minha própria cela quando tudo se rebela contra isso” – Anselm Grun

“A causa da miséria humana está no fato de que ninguém mais consegue suportar a si mesmo em seu próprio quarto”- Blaise Pascal.

O post “Acídia, a Dissipação do Espírito”, pode complementar a importância de não “derramar-se no variado”, na curiosidade.

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