A instabilidade que aprofunda a estabilidade

A National Geographic de Maio de 2011 trás a matéria “Lá vem a chuva”, sobre o povo de Bangladesh. O povo de Bangladesh é uma fonte de inspiração, leiam a matéria, vale à pena:
http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-134/povo-bangladesh-625716.shtml?page=2

Talvez possamos facilmente refletir um pouco sobre um aspecto importante da espiritualidade beneditina, a estabilidade. Para São Bento, nas palavras de John Main, a vida espiritual começa quando nossa ascese consegue interiorizar aquilo que busca praticar e muitas vezes a estabilidade ganha profundidade interior, enraizamento, quando somos constantemente provados pela instabilidade exterior.

Em Bangladesh não há solidão geográfica para qualquer pessoa. Mais de 80% da população brasileira amontoada em uma área do tamanho do Ceará, onde se muda de moradia muitas vezes no ano, forçados por questões climática, a ponto de estarem à vontade e bem entendidos com a necessidade de se “construir uma casa em apenas um dia e plantarem uma horta antes do anoitecer. São as pessoas mais resilitentes do planeta”. Seus guarda roupas são malas e vivem segundo uma organização que os permitam simplesmente levantar e ir embora para outro lugar de forma imprevista.

“Bangladesh é considerada um problema internacional insolúvel, mas se é caso de desespero, muitos em Bangladesh não estão sabendo. Na verdade há quem pense o contrário, para esses, as dificuldades dão lugar a intensa esperança”. Diz um morador local que o segredo é “Não pensar, estamos em dificuldades mas a preocupação não resolve nada. Não temos alternativas, só nos resta ficar mudando. Plantamos nessa terra o tempo que pudermos, depois o rio leva embora. Com ou sem preocupação o final é sempre igual”

Não temos alternativas é uma afirmação que pode parecer fatalista, entretanto, abdicando de uma busca por soluções perfeitas, teóricas, soluções ilusórias, aceitando a insegurança exterior como o que existe de mais previsível e a imprevisibilidade como uma constante, encontram as soluções reais e criativas que não atendem mais do que a necessidade imediata ou iminente. As ONG’s de apoio buscam ajudá-los a descobrir formas de viver em meio a esse ambiente, pois não há referências e teorias que se apliquem a uma realidade “insolúvel” e talvez a solução seja sempre transformar um paradoxo em paradigma e aceitar que esse paradigma, amanhã, já será novamente um paradoxo e, então, viver. Mais vale olhar e fazer, do que pensar e tecer. Não poder terminar algo pode fazer com que cada começo seja eterno, e a única coisa que de fato importe seja começar, novamente. Quem está sempre começando não tem nada à perder. E porque não dizer que a vida é um eterno começo? A vida começa de manhã e termina todo dia à noite, e no dia seguinte, tudo começa novamente, sempre de novo, sem as idéias que se desenvolvem nas mentalidades mais preocupadas em dar uma resposta ao sucesso, ao acúmulo, à própria imagem do que ser uno à sua realidade. Apoiar-se em um pressuposto de segurança e previsibilidade é, em geral, ilusório. Talvez seja possível afirma que estejam sempre sendo remetidos à um aprofundamento, enraizamento, num terreno mais fértil, seguro e uno, do qual as intempéries climáticas e sociais não podem removê-los. Talvez possamos aprender muito com seu exemplo de aceitação e adaptação.


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