Quando as forças da mudança superam a nossa imaginação

Abaixo, trecho da carta de Dom Laurence.

“Grandes mudanças já ocorreram antes no planeta. No passado, no entanto, ele teve dez milhões de anos para se adaptar às épocas de extinção em massa. Nossa crise hoje é que aprendemos a apressar tudo tanto que as forças da mudança superam até mesmo a nossa imaginação. Ambientalmente – como vemos na forte possibilidade de desmoronamento do gelo do Ártico ocidental nas próximas décadas – e socialmente – como se vê na imprevisível “Primavera árabe”, que estourou no mundo geopolítico –  as  mudanças agora correm à nossa frente. (…) Tudo isso desencadeia outro processo de mudança, em um nível mais sutil, mais profundo que o físico ou o psicológico.

Muitas culturas antigas não acreditavam na mudança – ou diziam que não acreditavam, porque a mudança aterrorizava. As culturas modernas passaram a aceitar a mudança, mas viam-na como um processo suave e previsível. Hoje, o ritmo, a incerteza e a enorme interconexão dos pontos de inflexão global – dos alimentos, solos e água até os sistemas de biodiversidade e financeiros – confrontam-nos com a necessidade do que Simone Weil chamou “uma nova santidade”, tão necessária para o mundo de hoje quanto “uma cidade atingida pela peste necessita de médicos”. Ela acreditava que “é quase equivalente a uma nova revelação do universo e do destino humano. É a exposição de grande parcela da verdade e da beleza, até então escondida sob uma espessa camada de poeira.”

Sua utilização da palavra santidade pode desmotivar muitas pessoas, hoje em dia. No entanto, isso mostra como as velhas palavras familiares de nosso vocabulário religioso – há muito cobertas de poeira – podem ser reabilitadas, recarregadas com seu poder original para quebrar os blocos de gelo das nossas mentes e abrir novas formas de percepção. Sua “nova santidade” é a integração de uma perspectiva explícita em políticas e ações, a universalidade e a inclusividade do mundo e de todos os seus habitantes. É novo, apesar de fazer muito tempo que está próximo, tentando irromper totalmente:

Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gl 3:28)

Esta visão caracteristicamente paulina mistura o social e o místico no mesmo saco. Como o próprio Jesus, que põe em causa toda  estrutura de poder pelo qual as distinções entre as pessoas são elevadas a um nível absoluto – casta, classe, religião, sistemas econômicos ou culturais em que vivemos no nível local. Confronta o ambiente seguro do local com visões intoxicantes e perturbadoras do global, onde os horizontes se esbatem. À medida que desaparecem, surge o universal – sempre mais como uma forma de percepção do que como um objeto de percepção.

Quando as estruturas de poder estão abalados – vemos isso acontecer no Norte de África e no Oriente Médio, atualmente – os que eram oprimidos sentem-se estimulados e fortalecidos. Os opressores refugiam-se em bunkers para proteger suas próprias ilusões. E o mundo espera para ver de que lado vai cair o novo ponto de inflexão. Nesta fase do processo de mudança – pessoal ou global – a maneira como vemos as coisas e os níveis de confiança, esperança e sabedoria de que dispomos, fazem a diferença que importa. Em um ponto de inflexão, a dimensão espiritual torna-se palpável. (…)

Laurence Freeman, OSB
Traduzido por Evangelina Oliveira

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