Breve Mensagem de Domingo de Ramos

Uma breve pausa no recolhimento quaresmal para compartilhar a pequena nota da comunidade para o Domingo de Ramos e os dias da Semana Santa.

“Veja a alegria de uma vitória eleitoral, o candidato bem-sucedido recebendo glórias e adulação da multidão e a energia inebriante de esperança e novos propósitos. Compare com o político cansado, envelhecido prematuramente e surrado, que se encaminha com poucos sinais de dignidade para o fim da carreira. A
 cena icônica de hoje na história do Evangelho, que começamos a vivenciar após os ecos de preparação para a Quaresma, vem em um sentido inverso. Jesus entra em Jerusalém carregado por uma onda de entusiasmo popular. As multidões batem palmas diante dele e cantam seus louvores. Esperam grandes coisas da última figura messiânica. Talvez, no fundo, não esperem que seja diferente dos anteriores, mas precisam de vencedores para compensar seu senso de desilusão tanto quanto amamos os vencedores do “The X Factor” ou ansiamos tocar a bainha da roupa de celebridades.

A diferença nesta versão da história – como na Paixão e queda pessoal que logo se segue – é que o protagonista não acredita no mito em que foi transformado. Compreende a si mesmo e o que está acontecendo. No centro da turbulência, um silêncio frio e presença de espírito preside. Nos próximos dias, temos de distinguir claramente entre a individualidade dramática do personagem central e os elementos míticos dessa história. Não há solução fácil para este paradoxo. Pender para um extremo ou outro é perder o significado. Jesus se torna apenas uma figura secundária histórica, se transforma em um ícone mítico que tem capturado a imaginação mais profunda da humanidade há dois milênios. 

Para ler a história que nós embarcamos hoje, devemos nos ler. Nossas próprias esperanças e desesperos, erros e acertos, nos guiarão em uma história cujo significado penetra toda a experiência humana. Em seguida, ele nos leva a uma visão da realidade que transcende e transforma aquele que a vê.”

Laurence Freeman, OSB
Traduzido por Leonardo Corrêa


Muitas vezes a forma que encontramos de suportar as exigências de nossa realidade e o inconveniente de nossas 
circunstâncias, se origina mais na vontade de atendermos ilusões ainda não superadas, ainda que já reconhecidas, projetadas nos desejos, do que na responsabilidade para com nossas próprias convicções cristãs que, se de fato acreditamos, então, temos um compromisso natural para com elas. Acabamos entregando as nossas convicções por culpa de uma flexibilidade que garanta a manutenção daquela imagem construída, dos elogios, da garantia de que seremos sempre aceitos e acolhidos, ao invés de uma flexibilidade que garanta que em tudo estaremos fugindo dessa auto-imagem-importante, que garanta uma criatividade que nos permita ver apenas as necessidades que nos são dadas pelas nossas circunstâncias e saibamos transformá-las em fonte de satisfação, ou apenas uma flexibilidade que nos permita amar mais. Isso pode envolver um esforço, e dado os esforço com o qual já estamos comprometidos em relação a essa imagem e nossas vontades, muito naturalmente irá parecer um esforço a mais no meio dos tantos que já temos e, além disso, um esforço contrário àquele pelo qual já nos esforçamos. Abandonamos então o novo esforço ao qual nossa maturidade ia, e vai sempre novamente, nos levando, o esforço pela realidade das coisas. O esforço pela liberdade em relação as ilusões, ao ego. Não pela eliminação impossível dessas ou daquelas imagens, mas pela liberdade em relação à elas. Na verdade dependemos dessa tensão assim como andar para frente depende da contração e distensão das pernas, a respiração depende da contração e distensão dos pulmões… E tentar superar as nossas contradições nos leva para frente, nos leva a respirar. Elas precisam existir, mas não podem ser protegidas e estabelecidas, mas desafiadas e superadas.

Mas, presos a auto-imagem-importante, corremos o risco de não buscar o que convém à nossa realidade mais profunda, menos condicionada, necessidades reais, mas sempre buscar necessidades relativas, o que não é um mal se o fazemos com a humildade de reconhecer que se são relativas deveriam ser aceitas também como fraqueza aquilo em nós que nos impede de superá-las. Talvez isso destrua nossa auto-imagem e então acreditamos muito facilmente no mito de nós mesmo. Muitas vezes não é um mito orgulhoso, mas também um mito negativo a nosso respeito. Em si, tudo ilusão. Como diz o Eclesiastes, “vaidade e corrida atrás do vento”.

Jesus supera a ilusão, as exigências de coisas fantásticas que as pessoas o impõe, num recolhimento interior, silencioso e sério. Não em uma indiferença aos outros. Isso ele provou o contrário sem precisar se revestir das ilusões e alardes dos que dele se aproximavam. Sem alterar sua realidade interior, onde encontra o Pai e diz ao seus mais próximos discípulos, sem rancor, “vós me abandonareis, mas não estarei só, o Pai está comigo”, de forma a suportar todo o absurdo humano que lhe foi imposto nas horas da Paixão sem se distanciar de seu centro, o centro que nos pode preservar da flexibilidade nociva que nos distancia de nós mesmo para nos aproximar da imagem que os outros tem de nós. O Pai está com ele e por isso suportou momentos de sofrimento incomparável. Se olharmos para sua imagem nessas horas, podemos perigosamente ficar preso na imagem da violência exterior, na injustiça cometida pelo seu povo, e ignoramos a ocasião que formaram para a revelação contida no seu silêncio: dentro, o Pai estava com ele. Deu-lhe a força necessária para não perder-se da “pureza incorruptível de um coração pacífico”, mostrou-nos o tempo todo as condições para essa união constante capaz de sustentar-nos no “impossível” sem entregarmos nossa dignidade nas mãos da flexibilidade puramente protetora de nossa imagem e de nossa ilusão.

Que a Quaresma seja ocasião de encontro pessoal e vivo conosco mesmos, com Deus e portanto, com o outro.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s