Orgulho espiritual e contemplação.

Nos tramites da experiência consciente, do vício de refletir e avaliar tudo que nos acontece, classificamos e qualificamos não só as coisas mas sobretudo à nós mesmo segundo a destrutiva noção de sucesso e fracasso. Espiritualmente não somos diferentes. Tão logo venhamos a vencer sobre alguns vícios, ou desenvolver intelectual e asceticamente uma consciência auto-importante centrada em nossa capacidade, nos aproximamos de um orgulho inevitável e indesejável que vai crescendo diante de Deus. Essa forma de abordar um crescimento espiritual apenas reflete nossa forma linear de pensar, como significando que procurar à Deus é um processo e, encontrá-Lo, uma recompensa por nossas conquistas espirituais. Mas isso sugere que Deus não se manifesta na medida que quer, quando quer, e que somos nós que o manifestamos à nós mesmos, por nossos esforços e méritos. Thomas Merton, na interpretação de Bernardo Bonowitz, OCSO, deixa reflexões muito necessárias sobre o desenvolvimento desse orgulho e de como a experiência de nós mesmos, de forma honesta, sincera e corajosa, contemplativa, alcança a abertura humanamente possível para um relacionamento com Deus sem uma escalada heróica e violenta contra os vícios que apenas estimula a tentação de sermos um sucesso espiritual, criando um orgulho que é cada vez maior quanto mais próximo à Deus. Isso não quer dizer que superar os vícios deixe de ser fundamental. Lutar contra as divisões do “pecado” que ferem a consciência é determinante para o compromisso com nossa espiritualidade e sobretudo um gesto de reverência à Deus. Os vícios são uma distração da alma que impedem nossa honestidade para conosco e portanto nossa natural abertura à Deus. que não responde com sua presença segundo os méritos e esforços pessoais, mas pela espera amorosa de sua manifestação, pela aceitação que não importa o quanto nos exercitemos será sempre uma manifestação segundo Sua livre vontade. A leitura abaixo se completa e inicia no link que segue ao final.


“No livro de Thomas Merton “A Oração Contemplativa”, um de seus últimos trabalhos, ele trata dos “use” e “abuse” de uma das mais preciosas de todas as realidades: a vida espiritual, e mais particularmente, a oração. Por ela ser tão preciosa como um modo de nos unir a Deus e porquê seu abuso é potencialmente tão desastroso, como um modo de nos separar de Deus.

O que seria precisamente o abuso da vida espiritual? Reflexões sobre este tema nos círculos monásticos cristãos tiveram início já com Cassiano, no séc. V. No último livro de suas Instituições, Cassiano aborda a “paixão” do orgulho espiritual. Ela é – afirma ele – a principal e a raiz de todas as paixões/ vícios, mas ela só é percebida claramente uma vez que o homem espiritual tenha travado batalha com bom êxito contra todos os outros vícios.

Orgulho espiritual, diz Cassiano, é a perversão da realidade espiritual por fins egoístas. Há em todos nós, seres humanos, um profundo desejo de instrumentalizar tudo – até mesmo Deus – a fim de glorificarmos a nós mesmos, a fim de afirmar nossa importância última. Desejamos instrumentalizar a Deus em nossas buscas espirituais, possuí-Lo, a fim de que possamos ser – ser eternos, ser independentes, não mais ser criaturas contingentes, mas como seres auto-evidentes, necessários.

Talvez pareça estranho e até mesmo incrível que o monge – obediente, silencioso, humilde – possa estar nutrindo estes desejos luciferianos em seu coração, mas eles estão, de acordo com a tradição monástica (desde Cassiano até Merton) no centro penúltimo de cada pessoa. Penúltimo porquê a única realidade mais profunda no coração humano é o próprio Deus.

A maioria das pessoas não experimentará o orgulho espiritual conscientemente, ao menos não com plena força. Elas o experimentarão em sua forma oculta de “orgulho carnal” – como individualismo, falta de cooperatividade, ambição – e talvez elas não se dêem conta sequer disto. Mas se elas decidirem se lançar na batalha espiritual e se perseverarem nela, elas chegarão a esta última e pior batalha antes da puritas cordis – a batalha contra a tentação de sujeitar a Deus aos seus próprios propósitos.

Na própria tradição cisterciense de Merton, este orgulho espiritual é descrito como um desejo de ingerir a Deus através do conhecimento – fazer de Deus o objeto final, mais fascinante e deleitável de nossa quase infinita capacidade de compreender a verdade. Evidentemente, o problema não é o desejo de conhecer a Deus (que o próprio Deus coloca no coração e na mente humana), mas o desejo de governá-Lo – tê-Lo, controlá-Lo – através do conhecimento. Este modo medieval de descrever o orgulho espiritual iria assumir sua forma mais dramática na história de Fausto – o desejo de vender a própria alma a fim de conhecer tudo, de conhecer o Tudo. Para os cistercienses, o atrativo, o risco e a punição de tal orgulho estavam todos expressos no versículo muitas vezes citados dos Provérbios: “Scrutator maiestatis opprimatur a gloria” (“Aquele que busca penetrar os segredos da divina majestade será esmagado pela glória divina”).

Como um descendente de toda a tradição monástica ocidental, obviamente, mas também como um herdeiro do existencialismo cristão (Kierkegaard, Marcel). Merton descreve a situação espiritual do homem interior como uma de temor (“dread”). Temor, para Merton, é uma realidade multifacetada (…) O homem colocou no cimo de sua criaturidade uma recusa de sua criaturidade, um desejo tenaz de afirmar-se como livre de Deus (tanto ontologicamente quanto em termos de obrigação moral, ambos perfazendo aquilo que Merton se refere como sendo a obedientia fidei). Como esta recusa é uma mentira, a situação é de um contínuo desconforto, para dizer em termos leves (cf. o solilóquio de Lúcifer no primeiro livro de “Paradise Lost”). Na tentativa de solucionar este desconforto, o homem, ao invés de se arrepender e converter-se, cria toda uma cultura e mitologia para proclamar sua autocriada realidade inveraz. Ele vive – diz Merton – em contínua inautenticidade, recusando-se em devolver a Deus e aos outros, em amor e serviço, a superabundância que ele recebeu ao ser criado. Toda esta falta de integridade, toda esta construção de sua existência interior na inverdade, produz o estado de temor; uma mistura de teimosia, náusea, sentido de perda, medo e mágoa.

Aqui vem a parte mais estranha, diz Merton. O homem espiritual moderno – seja ele monge ou leigo, cristão ou não-cristão – ao invés de usar proeza ascética ou conhecimento intelectual como a base para seu orgulho espiritual, tende a usar a oração para este fim. Oração, que por sua natureza é uma total auto-entrega nas mãos de Deus, pode ser a arma mais potente no arsenal que empregamos para rechaçar a Deus e persistir em nossa inautenticidade. A oração pode ser desenvolvida, ano após ano, década após década, como um modo de engrossar a casca de nosso individualismo até que finalmente nos tornamos quase inteiramente inacessíveis a Deus. A oração pode ser a mais potente arma a nos manter a salvo da vivência da realidade.

Para Merton, monge trapista por quase três décadas, tal auto-ilusão era um perigo profissional. Aqueles que estão familiarizados com suas cartas e diários sabem como ele sofreu encontrando este tipo de artificialidade espiritual (ele adorava usar a gíria “bogus” para descrevê-la) em sua própria comunidade monástica e sofreu ainda mais ao ver esta tendência em si mesmo. Por esta razão, Merton, como muitos autores espirituais, fala do risco da vida contemplativa “oficial”. Muito mais segura a vida de tarefas simples e oração no contexto de família, trabalho, vizinhança; muito menor, no contexto das pressões das responsabilidades interpessoais no “mundo real”, a tentação de construir e decorar-se como um santo monge, um santo esperando com segurança a data de sua ascensão à glória.

Não devemos rezar, então? Para Merton, vida sem oração é impensável, mas a fim de rezar genuinamente, nossa noção de oração e o nosso modo de rezar em si deve ser virado do avesso, assim como estes, por sua vez, devem nos virar do avesso, tornar-nos radicalmente diferentes e alterocentrados. Devemos vir a compreender que oração genuína não diz respeito a amar e conhecer a Deus (nós muito facilmente transformamos isto numa tentativa de dominá-Lo), nem a capturá-Lo como um objeto, ainda que como o supremo Objeto, mas diz antes respeito a experimentar a si mesmo e experimentar a si mesmo como se é realmente – como criado, sustentado, conhecido e amado por Deus. O caminho da experiência contemplativa de Deus, diz Merton provocativamente, se dá através da jornada da experiência cada vez mais profunda e autêntica de nós mesmos – àquele centro aonde nós descobrimos a nós mesmos como apoiados por Ele. Nós jamais O alcançaremos, exceto se permitirmos que Seu conhecimento acerca de nós se torne o nosso conhecimento acerca de nós mesmos.”

Bernardo Bonowitz, OCSO
Leia mais: http://www.cienciaefe.org.br/online/nov02/contemplativa.htm

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