Amar é comungar nossa humanidade

É óbvio que amar é muito mais do que se relacionar socialmente. Do que fazer programas, compras e planejar sonhos e viagens. Do que presentear com algum objeto ou jantar juntos. Claro que é bom que hajam essas coisas, mas amar é muito mais do que achamos e talvez por isso sempre subestimamos, reduzimos nossa capacidade de amar. Começamos de forma invertida, a partir dos finalmentes. Não é de espantar que as pessoas estejam sempre insatisfeitas em relação ao amor. Toda a idéia que temos de amor são construídas em sentimentos românticos e com uma atribuição de “objetivo” que nos fazem esperar por uma emoção de qualidade que possa ser comparada com essas idéias. Esses sentimentos dependem do drama, pois o drama gera o contraste necessariamente forte para que sejam reais os prazeres e alegrias desse amor romântico. É um lamentável pêndulo de expectativas. Como parece que as frustrações e insatisfações vivem mais tempo em nós do que as alegrias e satisfações, talvez porque acreditamos, lúgubre e não menos romanticamente, que estando insatisfeitos atrairemos a satisfação pela lógica inexorável do pêndulo já interiorizada, estamos nos tornando mais e mais infelizes na mesma medida em que nos tornamos compulsivos pela felicidade, pois a única forma que conhecemos de atrair a felicidade parece ser “criar o problema certo”.

Um mestre budista disse : “toda infelicidade do mundo é causada por aqueles que procuram ser felizes em si, e por si mesmos, e toda felicidade do mundo é causada por aqueles que estão tentando fazer os outros felizes”, mas não segundo suas próprias idéias de felicidade, tão pouco as idéias de felicidade do outro, tudo isso seria muito abstrato e complexo para suportar um instante de felicidade, de amor. Se formos agir pelo o outro segundo as coisas que buscamos para nós mesmos estaremos apenas experimentando soluções, tentando criar convicções pessoais de forma científica, de forma irresponsável, isso não é amor. É a afirmação de nós mesmos sobre o outro. Também não precisamos ser infiéis à nossas convicções ajudando os outros a realizarem ou se tornarem algo que temos uma certeza pessoal de ser um erro. Existem necessidades elementares comuns a todos e por mais óbvio que possa parecer, são essas que realmente perturbam o mais profundo de nossa realidade. Como passar fome, estar nú e outras poucas necessidade reais. O resto é gerado pela complexidade. Talvez por isso, aquele que nada tem tende a ser muito mais simples e generoso do que nós, pois está em contato direto com o que é fundamental e sente-se grato quando recebe algo ou a oportunidade para algo, porque geralmente sua expectativa coincide com sua necessidade. Enquanto nós tratamos o fundamental de uma forma muito mítica, inteligente, e inevitavelmente concorrida com as abstrações criativas de quem está bem alimentado. Na verdade muito mal alimentado! Pois parece que quanto mais inteligentes e complexos, mais vamos ao McDonalds.

Amar é, antes de mais nada, ter a capacidade de instanciar o outro em nós. Instanciar, e não mesclá-lo à nós. E isso significa, muitas vezes, simplismente dar toda sua atenção, confiante de que não é você que tem que ter a solução, muito menos a salvação de que ela necessita. Se antes de darmos essa atenção integral começamos a dar soluções simples ou complexas, ou nos envolvemos ativamente, de imediato, com o que parece nos cobrar uma ação, tentando atender expectativas condicionadas, inevitavelmente não amaremos nada, viveremos frustrados, sempre responsabilizando os outros, pois estaremos agindo talvez para sermos aquele quem irá salvá-lo, ou querendo nos livrar rapidamente do problema passando a cínica imagem de alguém interessado quando, na verdade, queremos continuar o que estamos fazendo pois se somos nós que estamos fazendo é sempre mais importante que o outro. Mas ao mesmo tempo também queremos ficar “bem-na-fita”. Dar-lhe atenção, então, não é um gesto de generosidade mas de condescendente estratégia do ego para otimizar sua maximização e superioridade: se tornar senhor das contradições, ser atencioso sendo desatento.

Curiosamente quando amamos, de fato, é bem comum que o outro nem perceba. Pois estamos percebendo ele, primeiramente, dentro de nós, não como intruso, mas como um convidado, no máximo, inesperado. Em tempos modernos onde cada um vive de forma egoísta, por si e para si, receber alguém dentro de nós sem sermos afetados por ela é um desafio de hospitalidade e caridade. Mas em nada isso significa que teremos uma solução ou idéia maravilhosa que possa lhe revelar, por um resultado salvador ou fantásitco de nossa parte, que ele foi tratado com tanto carinho, getileza e atenção interiormente. Mas essa dedicação interior ao outro, ao seu problema e sua realidade, ainda que não nos leve a nada tão genial quanto gostaríamos, o leva aos poucos, e a nós também, a certeza básica de que somos igualmente frágeis, incertos e inseguros. Cheio de problemas insolúveis e tantos outros que para serem solucionados precisam muito mais da convicção de que, e do quê, somos capazes do que de uma pessoa agindo por nós, não que não seja esse exatamente o gesto a realizar algumas vezes. E essa convicção alcançamos com muito mais rapidez ao sermos simples e frágeis juntos, comungando de nossa humilde humanidade , do que nos erigindo em fortaleza, carregando as pedras de nosso próprio e pesado muro, sozinhos. Isso não é apenas egoísmo. É burrice. Pois ao passo em que a auto-suficiência nega a necessidade de haver um outro, continua-se precisando do outro para atacar esses muros, justificando as pedras que o elevam. Quanto maior o esforço para erguê-lo, maior o apego à ele. Tão logo, por uma graça divina, resolva-se desmontá-lo, será preciso muita paciência e coragem, pois as pedras estarão voando contra o muro e, quando deixar de existir, inevitavelmente as pedras irão nos acertar, até que acabem as pedras e a necessidade de procurar outras.

Mas comungando nossas fraquezas, contradições, incertezas e tudo o mais que se revela base de nossa necessidade de relacionamento, muito mais do que o simples prazer romântico de viver os impactos emocionais da expectativas de realizar o que está no manual, reescrevendo, a cada instante, os instantes anteriores,  é que a partir da aceitação e generosidade para com o próximo, sobretudo em um matrimônio, onde nossa esposa, marido, é quem reveste a reposta dada por Jesus ao fariseu que escolhia por mérito aquele que seria o seu próximo (ao invés de vê-lo naquele imediato que se encontra a sua porta ou no seu sofá), que encontraremos nossos próprios “jargões”, que viveremos a parte divertida e descontraída das relações sociais, as risadas e brincadeiras de forma verdadeira e espontânea, pois ela não se originarão da instabilidade e impulsividade de nossas vontades, de nossos condicionamentos, de nossas expectativas ou de algum manual, mas de uma raiz forte, a mais profunda, a comunhão de nossa humanidade, na qual todos somos miseravelmente frágeis e nada se sustenta a não ser por amor.

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