Quem intenciona o bem comum não exclui a si mesmo

“Uma sociedade que não consegue aceitar os sofrimentos e não é capaz de de contribuir, mediante a compaixão, para garantir que o sofrimento seja compartilhado e levado também interiormente, é uma sociedade cruel e desumana” (Carta Encíclica. Spe Salvi, 38).

Leia aqui: Mensagem do Papa Bento XVI em ocasião do XIX Dia Mundial Dos Doentes


O sofrimento é um mistério. Não por sua origem fenomenológica. Seu efeito em nós vai além de uma dor, de um trauma. O sofrimento de uma pessoa pode reconfigurar não apenas a sua vida, mas a vida de muitas outras. Hoje se encontra formas práticas, envoltas em mecanismo de auto-indulgência moral, de se resolver rapidamente, e sem culpa, qualquer coisa que venha a atrapalhar ou mudar planos de realização centrados no ego e não no outro. Aborto, eutanásia, asilo, e outras formas imediatas e práticas de lidar com problemas que causam grandes transformações e geralmente muito sofrimento, se tornam cada vez mais opções interessantes, inteligentes, humanas e solidárias. Essa confusão conceitual talvez seja criada porque aquele que convive com seu próprio sofrimento, isso significa buscar suportá-lo, superá-lo ao invés de loucamente amputá-lo, negá-lo, convive também com a esperança e com o amor. Por conseguinte procura até mesmo aliviar no outro o fardo que ele mesmo pode ter se tornado.

É angustiante ver que em muitas das iniciativas que se apresentam com a intenção de ajudar aquela pessoa ou aquele grupo que sofre, física, moral ou psicologicamente, por mais legitimas que possam parecer, no fundo comunicam a triste mensagem de que não queremos ou não sabemos nos importar. Parece mais humano, mas apenas para aquele que assim prefere, construir por lei o direito de não nos importar com o sofrimento do próximo. Como ninguém se atreveria a formular tal lei, e até mesmo porque pode estar realmente esgotado para suportar mais do vir-a-ser, essa construção é revestida de uma falsa caridade em defesa dos que sofrem apresentando como soluções qualquer coisa que possa vir a ser encerrado rapidamente com um: pronto! resolvido! Revelam assim a incapacidade atual de suportar o sofrimento alheio, muitas vezes o próprio, por estarmos cada vez mais desacreditados do amor, unica propriedade humana capaz de realizar tal feito, e do poder integrador do sofrimento quando, mesmo que inevitável, não é encerrado violenta e estupidamente com um ponto final de um “eu não posso” que na verdade significa “eu não quero, eu não aceito”.

Asilos, clínicas de aborto, eutanásia e outros mais, flutuam na pauta do dia de muitos que destroem rapidamente tudo que haveria de ser, pelo sofrimento, construído, restaurado, permitido, curado, manifestado, integrado, reconciliado, criado, revelado, e todo espectro fenomenológico manifestado do e pelo mistério em Deus, nos levando passa a passo em uma caminhada de reconciliação entre o visível e invisível. Entre todos os níveis que unem a existência visível e frágil de nossa humanidade ao ser invisível do qual somos pulsados. O sofrimento é muitas vezes, para muitas pessoas, o último ou único professor capaz de ensinar a amar. O grande perigo está em que tornando possível a eliminação do sofrimento de forma estúpida, através de outras formas de violência que por eliminarem o sofrimento, aparentemente de forma imediata, parecem estar justificadas em si mesma, elimine-se também a necessidade natural de sermos humanos.

A intenção para o bem comum que de fato realiza um gesto humano e de amor é aquela que não exclui a si mesmo dessa realização. Quando depositamos a justificativa social de nossa dignidade, ou simplesmente a construção de nossa auto-imagem-positiva, nos planos que traçamos e nas coisas que buscamos realizar para nós mesmos, e nada pode nos atrapalhar, então o aborto, eutanásia, asilo e outros mais, são revestidos com sorrisos de liberdade e justificados na vontade daqueles que, em profundo sofrimento, outrora foram excluídos de um relacionamento pautado pelo amor ou então amam o suficiente para serem indulgentes com o fardo que veem em sua pessoa.

É a vitória do absurdo egoísta que busca resolver os problemas mais graves do sofrimento única e exclusivamente pela reconfiguração da já reconfigurada vida de quem sofre por uma doença ou por outros fatores. Ainda que por um voto oculto, ou pela lei. E pela lei encontra-se apenas o Direito que não nos concede mais do que uma experiência burocrática, fria e geralmente esgotante das relações humanas. Você tem o direito. Pronto. Vá e faça. Eutanásia, aborto o que quiser. Me livre de ter que amar isso. E escolhendo o que devemos amar, amamos apenas a nós mesmos. Quanto mais avançamos nesse caminho, mais precisamos revestir essa caminhada com sorrisos amarelos que disfarcem aquele que caminha pois ele mesmo sabe que caminha empurrado pelos tantos que vem atrás, e procura se colocar o mais à frente possível para que, não vendo a multidão que o empurra, acredite estar correndo para onde realmente quer ir. Uma multidão consumista de sonhos e ideologias cambiáveis que não tem tempo para o que mais importa nessa vida, SER HUMANO a despeito da praticidade, do bem estar imediato, da auto-proteção, da auto-imagem, a despeito de sonhos que na verdade não criamos. Não há sonho mais adequado ao ser humano do que a liberdade de ser humano sempre que o ser humano ao seu lado precisar realmente de você. E é um sonho, porque não sabemos ser assim, ou não poderemos ser assim, correndo com a multidão.

Sem fidelidade à nossa humanidade, não somos nada. Qualquer orgulho é vão, é ilusão. Pois para sermos qualquer coisa digna de nossa humanidade é preciso ser fiel à ela. E para ser fiel é preciso amor. E quem ama sofre, se compadece e quer estar presente no sofrimento daquele que ama. Não para dizer: pronto, resolvido! Mas para dizer coragem, eu estou contigo e Deus está conosco.

Deus nos livre dessa maligna presença que nos justifica pelo que queremos e não pelo que fazemos.

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