O silêncio que nos une

“Nós os índios, conhecemos o silêncio. Não temos medo dele. Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras. Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio e eles nos transmitiram esse conhecimento. “Observa, escuta, e logo atua”, nos diziam. Esta é a maneira correta de viver. Observa os animais para ver como cuidam se seus filhotes. Observa os anciões para ver como se comportam. Observa o homem branco para ver o que querem.

Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos, e então aprenderás. Quanto tiveres observado o suficiente, então poderás atuar. Com vocês, brancos e pretos, é o contrário. Vocês aprendem falando. Dão prêmios às crianças que falam mais na escola. Em suas festas, todos tratam de falar. No trabalho estão sempre tendo reuniões nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes. E chamam isso de “resolver um problema”. Quando estão numa habitação e há silêncio, ficam nervosos.

Precisam  preencher o espaço com sons. Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer. Vocês gostam de discutir. Nem sequer permitem que o outro termine uma frase. Sempre interrompem. Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.

Se começas a falar, eu não vou te interromper. Te escutarei. Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estás dizendo. Mas não vou interromper-te. Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante.Do contrário, simplesmente ficarei calado e me afastarei. Terás dito o que preciso saber. Não há mais nada a dizer. Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês. Deveríamos pensar nas suas palavras como se fossem sementes. Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.

Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra está sempre nos falando, e que devemos ficar em silêncio para escutá-la. Existem muitas vozes além das nossas. Muitas vozes. Só vamos escutá-las em silêncio.” – Neither Wolf nor Dog. On Forgotten Roads with an Indian Elder” , Kent Nerburn

 

No início da primeira carta aos Coríntios, São Paulo nos fala que seu ensinamento não é baseado na habilidade da oratória para que não se desvirtue a linguagem da Cruz. Não se trata de um fabricante de tendas tentando fugir de sua pouca erudição. Antes, sobre o nome de Saulo, era fariseu segundo a lei, instruído perseguidor de Cristo que, compreendendo a mensagem que lhe foi revelada, não encontraria equivalentes lingüísticos para a mística de sua experiência, e de seu ministério, do qual se formou o Cristianismo. Mais adiante, em sua primeira carta à Timóteo, ele adverte sobre as doutrinas extravagantes e desvios da linguagem perdidas em meio a racionalizações, discussões de palavras e genealogias sem fim, afim de que elas não sobrepusessem, de forma alguma,  o amor que procede de um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera.

É o que de fato a linguagem tem a facilidade de realizar, mais do que combater – criar divisões, separações. Os resíduos inúteis da linguagem só podem ser expurgados através de um meio de experiência comum através do qual toda divergência pode ser respeitada e, muitas vezes, comungada. Não se trata de uma postura política, social e outras formas de generalização doutrinária. Essas tem o seu lugar e sua aplicação. Se trata sobretudo de uma postura pessoal, individual, um compromisso real com a unidade e o amor entre aquele que experimenta e aquele que se apresenta.

Esse relato indígena pode dar a visão de uma tangente entre culturas, ou mesmo idiossincrasias, que poderia ser atingida de forma menos conflituosa através de uma cultura de silêncio, ou ao menos de uma vivência individual mais atenta ao silêncio que existe entre cada um e o outro.

2 comentários sobre “O silêncio que nos une

  1. Tenho me tornaado mais consciente disto, que ao deixar o silêncio agindo ,na ausência da minha fala, na minha presença que faz a opção de não pronunciar nada ,como uma mágica vejo o outro se descobrindo mais rápido do que se eu lhe falasse nesta intenção,mas creio que outras vezes a palavra se fará muito nescessária ,aliás, isto é bíblico.
    Deus nos pede a esclarecer o outro, o corrigir-lo com amor,,mas não iancorreremos em falta para Deus se o outro não der importância a isso.
    O que determina a hora certa do guardar silêncio e o do falar?

    • O texto pode ajudar nessa resposta, que é sempre pessoal, de inspiração e bom senso:

      “Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos, e então aprenderás. Quanto tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.”

      São Francisco de Assis também, certa vez orou pedindo que Deus que pregasse o Evangelho a todas as pessoas, mostrando a verdade, ainda que fosse preciso palavras.

      O santo nos mostra que as palavras, por mais importantes que possam ser, e são, pois por elas conheceu a Revelação, podem no máximo nos convencer de algo. Apenas o exemplo consegue se valer da autoridade necessária para seguir. E o exemplo está na vivência, não na palavra.

      São Bento dizia que ao discípulo raramente deveria ser concedida a voz para que realmente pudesse aprender. E esse aprendizado estaria além dos erros de seus mestres. Palavras facilmente entram em recursividade e ajudam a perder o valor do exemplo, da experiência pessoal, da fé.

      São Paulo, sobretudo, em suas cartas, sempre voltava a questão: “Vós mesmos sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. (…) redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo(…) Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica.” 1Cor 3.

      Falar não é um dever a ser cumprido, nem um direito a negligenciar, mas uma ocasião a ser respeitada, com atenção, pois a fala abre fendas em uma represa com mais facilidade do que consegue enxugar uma gota de água sobre a pele.

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