Ser, sem pensar nisso

Uma nova página foi adicionada para o livro Amor e Vida, de Thomas MertonSOLIDÃO, TERRA FERTIL

“Será que não podemos ser simplesmente nós mesmos sem pensar nisso?”. A tradição contemplativa de algumas religiões, buscam através da concentração, da atenção a um único objeto, silenciar os pensamentos, a auto-importância e auto-consciência. “É preciso que eu diminua para que Ele cresça em mim”¹. A plena atenção a apenas um objeto, nos cobrará, em algum momento, que abandonemos gradativamente à nós mesmos. Na tradição cristã e budista, esse objeto pode ser uma palavra-oração, ou mantra. Através da concentração, da atenção, inicia-se um combate, “o bom combate da fé”, pois o ego se rebela muito facilmente e, se quisermos ir além, no compromisso com a meditação, precisaremos abandonar, antes de mais nada, a vontade de responder ou de conciliar os argumentos do ego. Argumentos quase sempre infalíveis, que se apresentam muito racionalmente, apelando às tantas e tantas coisas que precisamos fazer ao invés de estarmos ali, inútil e irresponsávelmente, parados. Aprendendo a ser. Porque sendo, espontaneamente, o ego vira coadjuvante.

São tantos lugares comuns do tempo e do ego, “aproveite o tempo ao máximo”, “viva cada segundo como se fosse o último”, “seja protagonista de sua vida” etc, mas geralmente esse protagonista é o ego, e aproveitar o tempo ao máximo nos leva a planejamentos desumanos e irreais, no fundo tudo se mostra desnecessário e inviável. Resta apenas a profunda frustação de buscar a felicidade, a liberdade, numa ideologia de sucessos e fracassos. O ego quer ser rico, e a riqueza financeira é apenas uma das formas que pode servir de revestimento, mas não é em si ruim, diferente daquela importâncias que nos damos e com os quais nos acostumamos, às quais nos apegamos e nos enriquecemos de nós mesmos. Armaduras do ego.

Superando as resistência do ego, em disciplinado compromisso ao qual nos propomos, perdemos voluntariamente a nós mesmo. “Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu” ² . Não há pobreza maior que abandonar a si mesmo, em total entrega, para nos tornamos ricos, preenchidos do Espírito Criador. Ou melhor, nos sabendo nesse Espírito, que não pode estar em qualquer lugar, à alguma distância referenciável entre você e um céu abstrato, mas somente, e por natureza, em todo lugar. Ele é todo lugar, mas vela-se pela auto-consciência-importante.

É preciso estar presente, e ouvindo. Atento ao inaudível em todo som. Não há aqui qualquer sentido moral a ser descoberto, mas descobrir-se no sentido real de um profundo silêncio, de uma fértil solidão, que nos revela invariavelmente plantado no Amor. O grau com o qual nos colocamos atentos e presente a esse Amor, ouvindo, não buscando realizá-lo, fazê-lo existir, mas deixando que ele se realize em nós, crescendo no espaço que damos aos nos esvaziar, até transbordar, curiosamente simples e infantil, sem qualquer autoridade que não venha da experiência desse Amor. Ouçamos.

O amigo do esposo, porém, que está presente e o ouve, regozija-se sobremodo com a voz do esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa.” ³ .

E o que há entre o esposa e a esposa que não Amor.

¹  c.f Jo 3,30, ²  Jo 3, 27, ³  Jo 3, 29


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