Oração, serena dinâmica do espírito

Oração é uma disposição interior. Há um excesso de piedade no qual  um momento de oração se torna uma ruidosa vistoria onde passamos diante dos olhos uma série de objetos santos, orações, palavras e mais palavras que nos ocupam de forma indireta e desatenta com a tarefa de realizarmos alguma coisa. De fazermos, nós, que algo aconteça pela oração. Como que por uma mágica. Oração prescinde de silêncio, não só exterior, mas interior. Prescinde de quietude, sobretudo de movimentos e palavras, uma disposição interior para escutar, sentir, estar aberto.

No video “Jesus”, Laurence Freeman chama a atenção para algo que falta, que pode passar desapercebido. Quando se lê o Evangelho podemos ver que Jesus, ao falar de oração, ao se afastar toda noite e toda manhã para locais desertos afim de orar, está nos ensinando a contemplar. Não está nos ensinando a orar de forma externa, segundo uma “religiosidade externa que apenas alimenta o ego”, em nossa auto-piedade. Jesus é muito claro ao dizer “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo, e teu Pai que vê num lugar oculto, recompensar-te-á. ” (Mt 6,6)

Precisamos estar abertos ao mistério, a esse “lugar oculto”,  secreto, ao mistério de nós mesmo. É aí que Deus nos fala e com Ele falamos. O elemento mais importante desse ensinamento de Jesus sobre a oração, segundo palavras de Freeman, é a “interioridade. Oração é sobre interioridade”. Se em nossas orações nos colocamos a falar, sobrecarregando o momento com palavras, podemos até nos envolver com belas orações, pensamentos santos e maravilhosas imagens, que guardam seu valor e tem o seu momento. Mas quanto, particularmente, a oração, em meio a tantas palavras, objetos de piedade e um conseqüente esforço mental no qual acabamos tentando responder nossas próprias questões, tentando fazer algo acontecer, no fim, não há silêncio algum para a oração realizar a si mesma, em nós. “Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras” (Mt 6,7). Continua Freeman,  “E Jesus é claro e preciso quanto a qualidade do silêncio na oração, e a razão para isso é ‘porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais’ (Mt6,8)”

Porque Deus sabe o que nós precisamos antes mesmo que peçamos, podemos ter, em vista dessa atemporalidade à partir da qual nosso ser passa a ter uma existência, a confiança necessária para estarmos quietos. Silenciosos. Abertos. Estar inteiro, no momento presente. “Sem tentar conseguir a atenção de Deus, mas realizar que somos nós que precisamos aprender a prestar atenção nEle, porque Ele já está prestando atenção em nós”

Oração é, antes de mais nada, estar atento à Deus. Através dessa atenção, não é necessário qualquer palavra.  A palavra nos leva a reflexão e, num momento de oração pura, a reflexão nos leva sempre a uma atenção auto-consciente, sobre nós mesmos, diminuindo a dinâmica do espírito, a vida do espírito.

Experimente sentar toda manhã, toda noite, e dar-se tempo, dar tempo a Deus. Silenciosamente aceitar toda a realidade antes de atuar sobre ela.

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