Intenção reta

Nossas ações, e mesmo pensamentos, podem se perder em meio as diversas intenções que concorrem em nosso coração. Sobretudo a ação, por seu caráter irreversível, pode oprimir aquele coração que, cheio de anseios, deseja abarcar todo o possível, tão logo experimente, por uma visita fugaz da sabedoria, que em seu coração tudo é reversível.

Quando falta um caminho claro e simples, através do qual possamos ser guiados com todas as nossas incertezas, a consciência se torna como que um teatro onde as intenções se apresentam como personagens que podemos assumir. Que confusão que isso cria! Costuma nos fazer acreditar que tudo não só é possível, mas também conveniente. Isso faz lembrar de São Paulo, em uma passagem que não deveria ser preceito apenas para nós cristãos, mas para todo homem de bom senso: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma. ” (1 Cor, 6,12)

Não existe relacionamento mais importante do que aquele que temos com Deus. Esse relacionamento é o que determina nossas perguntas e, conseqüentemente, as respostas e nossa adesão à elas. Se não há uma religião que sustente a autonomia que nos cabe ante a qualidade desses esforçados personagens, ao menos deveria haver uma convicção que nos apoiasse, evitando que nosso sentimento de atração por essa ou aquela intenção, seja mais determinante que o sentido de coesão entre as experiências vividas. Nossa capacidade de experimentar e realizar sobre o presente, tem relação com aquilo que nos foi cobrado, e por tanto exercitado, nas experiências passadas. Mas isso não caracteriza uma prisão pois num coração que deixa ser, tudo é reversível, convertido, sobretudo para que se faça novo, sempre, e antes de mais nada, o que era velho. Reforçando ainda mais nosso relacionamento com Deus, ou deixando o rastro que, com atenção, nos leva até Ele.

Agir sem esse relacionamento, com uma atenção difusa e plural, é causa daquelas inseguranças que muitas vezes nos angustiam quanto ao rumo e o sentido de nossas vidas. A culpa disso não é da falta de tempo, da velocidade e pressão das exigências externas, mas tão somente uma patologia nossa que nos leva ao movimento apenas para não parecer estático; uma inquietação que nos leva daqui para lá sem na verdade nos levar a algum lugar. Sem uma atenção reta, em meio as evidentes e eloqüentes possibilidades, novas ações vão sendo tomada, novas experiências vividas, sem um elo ao qual se ligar, dispersando a atenção, nos expondo o a uma nuvem de intenções complexas, confusas e desgastante que enfraquecem a consciência e nos coloca em uma insalubridade espiritual.

A praticidade indiscriminada, o prazer imediato, a gula de ter, a ânsia de parecer, a pressão social por uma opinião, estilo, formação, as necessidades secundárias do homem, tudo isso pode ser determinante para agirmos segundo essa ou aquela intenção. Certamente estamos buscando equilibrar algo em nós, de alguma forma alcançar, ou manter, um estado de consciência no qual experimentemos paz. Os romanos tinha uma palavra para paz, “pax”, caracterizada pela ausência de guerra, conquistada pelo Estado e mantida pelas armas. A importância dessa paz, que dá espaço e segurança para ir e vir, pode fluir naturalmente para dentro daqueles que vivem sobre tal sucesso. Passariam, então, a ter uma experiência interior de paz baseada na resistência as ameaças exteriores. No hebraico existe a palavra “Irene”, também traduzida como paz, mas que, diferentemente da palavra romana, não é produzida, nem protegida, pela ação preventiva ou reativa a uma ameaça. Não é um estado de paz conseqüente, mas perene, natural e presente em todos, e que se apresenta quando não estamos lutando contra o mundo, quando aceitamos interiormente tudo com simplicidade e pobreza. Quanto mais dispersarmos a atenção entre as intenções, mais agiremos segundo essa variedade, sem clareza, curiosamente voluntária, e tanto mais optaremos pela alienação fútil que nos alivie o peso das ameaças ocultas por uma paz armada, longe da suavidade e serenidade que tal palavra naturalmente sugere.

Mas em meio a tantas verificações que fazemos, é preciso ter alguma misericórdia para conosco, pois uma purificação, retidão, convicção de nossas intenções, ocorrerá naturalmente pela qualidade da atenção que damos ao que nos é mais importante, para nós cristão, Cristo, e não podemos nos furtar desse confronto que consegue nos levar a uma ação santa porém sempre parcial, por assim dizer, insuficiente. A suficiência que podemos alcançar é a de uma ação justa ao grau de consciência que temos de nossa imersão na consciência que Cristo conseguiu para nós. Tal confronto nos leva a uma atenção sempre maior sobre a retidão entre nossa ação e intenção.

Ai está, talvez, o ponto de maior dificuldade para perseverar. Tal retidão de intenção, para manter a coesão e sentido, pede que estejamos atentos e concentrados em um caminho. Portanto requer uma disciplina, uma ascese, e com isso se apresenta facilmente como uma prisão a limitar as vastidão de nossos pensamentos por não querermos abrir mão da multidão de oportunidades, promessas e eloqüência dessas possibilidades. Não queremos, na verdade, nos concentrar num caminho, queremos percorrer todos.

Uma disciplina que busque a liberdade dentro dessa saudavel limitação, nos faz caminhar em direção a, ao invés de descuidadamente nos espalhar. Nos livra indiretamente de toda sorte de incompatibilidades e incoerências que, por mais santas que possam nos parecer isoladamente, não podemos unir senão em Deus. Poderia ser dito que sofremos tão intensamente quando a resistência que temos de aceitar a realidade unificadora de Deus? Que sofremos a medida que tentamos realizar essa união por nossas próprias forças? Então deixemos de agir, ignoremos as necessidades pessoais e sociais?

É mais simples que isso. Existe muito para ser feito onde se está de pé, e é ai que podemos experimentar não só a nós mesmos, mas a Deus. Como estar aberto a tal experiência sem uma atenção reta atravessando uma consciência em expansão? Caminhar assim é uma decisão radical mas, ante essa abertura da consciência, permite o desenvolvimento da coragem necessária para, reconhecendo não poder agir disperso e seduzido pela imensidão, limitar-se voluntáriamente àquela parte que acredita lhe caber – com atenção, uma intenção e Deus no coração.

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