Buscando o outro

Se dependemos de um outro para que seja possível o conhecimento sobre nós mesmos, nada deveria ser mais importante do que buscá-lo. É comum ouvir ecoar palavras e frases que revelam uma concordância com esse entendimento e aparente aceitação de uma postura conseqüente. Mas tal eco vai se enfraquecendo e revela, por sua vez, que a concordância se acomoda a uma estética das idéias e a aceitação se aprofunda na superfície da atmosfera que emana de um humanismo romântico e individualista.

“Se alguma coisa é mais importante para você do que pessoas, você está em sérios perigos. Dizer que nada é mais importante do que pessoas não significa se colocar no meio delas, se atirar na multidão, tão pouco permitir que o sofrimento das vontades não satisfeitas apelem a nossa disponibilidade. Mesmo um anacoreta que se ocupada e direciona a atenção para fora de sua pessoa, realiza tal busca. O que importa é estarmos presentes em nós mesmos deixando que o Outro seja exatamente igual a si mesmo. Seja qual for a altura de sua caminhada, de seu desenvolvimento intelectual, de sua visão moral e percepção espiritual, é dai, do seu ser como é, que virá a ser. Deixar que o outro seja exatamente igual a si mesmo não é negligenciar sua condição, mas ser o amigo que dá e protege o espaço para tal condição se desenvolver segundo sua, e não nossa, necessidade.

Experimentar uma realidade que acaba por nos revelar o outro com dignidade sempre igual, e até maior – em sua capacidade de nos fazer conhecer indiretamente nossa mais profunda identidade, prescinde de uma coragem e liberdade que nascem de uma atenção simples e espontânea à presença de Deus em todas as coisas, capaz de sustentar com convicção a nós mesmo diante desse movimento para fora de uma consciência auto-importante. De outra forma não estaremos buscando as pessoas pelo valor de sua existência, sustentada pela dignidade explícita na concessão da vida que lhe foi dada, mas para tão somente conhecermos uma identidade pessoal e social que, dessa forma, é uma criação nossa, um simulacro dos efeitos que queremos causar.

Para além das imagens e palavras, a mais profunda identidade do outro é Deus, a nossa mais profunda identidade é Deus, e Deus é um. Como refratados pelo prisma do Verbo, nos vemos, com todas as coisas, em pontos luminosos projetados sobre o plano da realidade. Buscar o outro que não por, para e em Deus, é, sendo “sua imagem e semelhança”, desfigurar-se.


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