Amar a Deus sobre todas as coisas

Amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração e com toda sua força, significa, antes de mais nada, que O amemos pelo que ele É e não pelo que ele nos concede e nos doa. Sempre teremos nossos defeitos e angústias, medos e insegurança, mas até nisso se encontra motivo para agradecer pois basta uma rápida olhada para nossa humanidade que encontramos motivos suficientes para ficarmos deslocados e envergonhados diante do orgulho e da vaidade que freqüentemente nos deformam e nos fazem confundir a gratuidade necessária do amor com uma moeda de troca do bem estar e mútua adulação.

Se tão logo olhemos para nós mesmo e já não podemos nos orgulhar nem nos envaidecer; se o conhecimento de si mesmo revela a nossa pequenez e miséria diante da natureza caótica dos fenômenos, ou direcionamos nossos olhos para o mais profundo de nós, até encontrarmos a fonte que nos alimenta, ou nos desesperamos num vazio de sentido. O desespero é como o “aborto de uma mente doentia”¹ que por alguma atividade perturbadora e involuntária se nega, então de forma voluntária, a mais urgente e natural de todas as buscas, a mais inerente tarefa de quem está vivo: conhecer e experimentar Deus. A vida segundo o amor. Mais precisamente o amor… segundo o Amor.

É dessa experiência, consciente ou não, que liberamos em nós a capacidade de amar o outro pelo que ele é e não pelos seus méritos. Qualquer sentimento que se justifique nos méritos de algo ou alguém pode ser qualquer coisa, menos amor. Ao depender do outro para que se o ame, então o que se oferece como amor é aquilo que se recebeu e, nessa lógica, o amor simplesmente nunca existiu pois não haveria quem primeiramente houvesse dado sem ter recebido. Pois este forçosamente haveria de ter doado de si próprio. Dando apenas o que se recebe, caso não resolvamos reter, poderemos verificar, com o mínimo esforço da honestidade, como somos indigno da grandeza de nossos sentimentos. Mas também, exatamente por essa dificuldade, quase uma incapacidade de darmos de nós mesmos, é que podemos, de uma só vez, entender o que é amor e nos saber que, se viemos a vida, somos amados. Pois nos foi dado da substância dAquele que nos formou.

“Numa só palavra de Deus compreendi duas coisas: A Deus pertence o poder, ao Senhor pertence a bondade” ²

Naquela lógica econômica do amor, se distorce o verdadeiro sentido do amor, muitas vezes revestindo-o num excesso de piedade social e moral. Por conseguinte se distorce também o sentido da vida. Quase imediatamente Deus se torna, para nós, a possibilidade absurda de um fenômeno impossível para que o absurdo se torne possível e o impossível se torne uma ausência de vontade. Qualquer pessoa experimentada pela vida, com o mínimo de humildade ao olhar para si mesmo e para realidade que a cerca, poderia perceber que a unica possibilidade absurda é que toda a criação seja uma obra sem Amor, talvez assim entendida por estar incluída em sua esfera o sofrimento: Um produto da mente consciente e reflexiva diante de sua realidade, entretanto a mente consciente não é mais que uma visita insólita dentro de uma existência. Mas mesmo nessa visita à consciência, onde ocorre o que entendemos como vida e morte, podemos contemplar a realidade do amor e da plenitude da existência tão logo amemos a Deus sobre todas as coisas.

Amar a Deus sobre todas as coisas também implica que entreguemos, com gratidão, nossos pensamentos e nossa mente reflexiva. Que estejamos realmente quietos diante da natureza das coisas para que possamos, sem a visão de nossas misérias, doenças, defeitos, e tudo aquilo que pode muito bem nos acompanhar a vida inteira sem que consigamos superá-los, encontrar a nossa própria natureza. Natureza que está direta e eternamente ligada a Deus e que assim se mantém imutável, seja na consciência da vida ou na inconsciência da morte.

Quanto maior esse amor, mais fracas são as correntes de nossa vida, e numa vida livre Deus não é apenas uma possibilidade, é a realidade. A unica onde tudo ocorre e o amor socorre.

¹ Inácio Larranaga
² Salmo 62 12-13a

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