Uma ocupação fundamental

Frei Inácio Larragna não se cansa de repetir que “a mente humana é a fonte de todo bem e de todo mal”. Fazendo uma analogia com os animais irracionais, nenhum deles criam problemas para viver. Eles existem e isso os satisfaz. Sua condição não permite se imaginarem mais felizes do que já, e como, são. Entretanto o homem é,  ou em algum momento assim se percebeu, auto-consciente. Saber que sabia foi um momento de sua história no qual sua existência se tornou um problema, uma insatisfação, algo a ser resolvido no meio de infinitas possibilidades que vão se revelando à inteligência e, através dela, ganhando complexidade e profundidade intelectual. Com tantas opções, viver, que era um fato consumado, se tornou um problema a ser pensado. Viver, que para todos os animais é uma satisfação involuntária, para o homem se tornou um julgamento

O homem, “criatura mais despreparada da Criação”, de tão desamparado precisa aprender tudo, até mesmo a pensar e a usar a inteligência; e com a inteligência tenta decidir entre as tantas opções através de analises, exclusões e, talvez aquela que mais o distancia de sua involuntária satisfação, natural alegria e condição, mas não menos necessária: comparação. Quando cruzamos nossos sentimentos com nossa realidade e então o comparamos com os sentimentos que se no apresentam pelos outros e suas realidades, tendemos a concluir que existe relação de causa efeito entre o que se tem, o que se faz, onde se está, e aquilo que sente. A relação que existe entre sentimentos e realidades não se dá em termos de causalidade mas na capacidade de expressão, de como uma realidade permite ou não um expressão autentica e espontânea de si mesmo. Não se consegue exprimir facilmente alegria vivendo em meio a uma guerra por exemplo, entretanto uma longa estiagem de ocasião para se exprimir um sentimento pode levar a perda da habilidade de expressá-los. Facilmente concluímos, segundo o uso nem sempre sábio da inteligência, que, tendo perdido a habilidade, perdemos também a capacidade de sentir. Principalmente quando nos vemos cobrados por julgamentos a respeito. A capacidade de sentir é natural e indestrutível. É um elo do homem com Deus. Quando nos vemos aparentemente sem ocasião para a expressão de si mesmo, nos entristecemos. Mas muitas vezes isso se dá por responsabilidade nossa já que nos colocamos indolentes e preguiçosos, ou orgulhosos e mesquinhos, na tarefa de buscar a forma adequada, que sempre existe, de expressar o que pede vez. É um aprendizado lento e que ocorre mais no silêncio de uma firme satisfação do que em um empirismo desastrado, desrespeitoso e faminto. E ainda que jamais nos encontremos nas situações em que desejaríamos estar, se abrirmos mão da satisfação natural com a qual fomos formados para nos obstinar em criarmos essas situações, estaremos desgastados demais para vivenciá-las – ainda que apareçam, como quase sempre, naturalmente.

Famosas frases como “se a oportunidade não aparece, então criemos a oportunidade” não é errada nem certa, depende de que forma será entendida e aplicada, e isso também depende de como aprendemos a pensar e a usar a inteligência. Um aprendizado cheio de condicionamentos que precisam ser suavizados se queremos ser autênticos e involuntariamente satisfeitos.

Como bem ilustra a alegoria do Éden, desde que o homem se tornou consciente de si mesmo, sobreveio sobre ele, de forma livre, todos os males; e escravizado no pensamento, a ser libertado, todos os bens.

Frei Inácio Larragna escreve “A história está lançando sem parar desafios e mais desafios para o homem: como acabar com as guerras, como superar a fome, a doença, a injustiça, a pobreza… Todas são tarefas nobres que a história encomenda ao homem no decorrer dos milênios. Porém, acima de tão elevados desafios, a ocupação fundamental, a tarefa das tarefas, definitiva e eterna, é e será sempre esta: o que fazer para que o homem seja dono de sua mente, para que ele se mantenha ocupada apenas com pensamentos que ele quer ter” (…) “Enquanto não avançarmos nessa direção, não haverá solução para os problemas humanos”

A ocupação fundamental não é a ocupação primeira. Não podemos ter completo controle de nossos pensamentos para começarmos a viver. Na verdade começamos a viver, na sua forma mais espontânea e autêntica, na forma mais bela e sensível, livres do pensamento. Uma criança vive muito mais de atenção do que de reflexão. De experiência do que de teoria. Uma vez que somos conscientes de nós mesmos, se isso é um fardo ou não, essa ocupação fundamental de domar o pensamento é assim designada fundamental porque deve estar presente, diante de nós, em cada momento, como ponto de partida de cada ação. Precisaremos fazer, agir, de acordo com as circunstâncias e com os valores, e na maior parte das vezes isso sempre nos parecerá diferente do que queremos, entretanto ocupando-nos interiormente tão somente dos pensamentos e intenções que queremos, que sabemos corretos, estaremos alinhando nossa consciência com a realidade e, assim, removendo os obstáculos, entrepostos pelo pensamento, entre a habilidade para realizar e a capacidade de realizar. De forma que recuperemos aqueles bens escravizados com o advento do pensamento auto-consciente e auto-importante; recuperemos, sem prejuízo das maravilhas e necessidades do mesmo pensamento, uma involuntária satisfação, uma autentica capacidade e uma feliz e atenta espera pelas oportunidades.

Quanto mais satisfeitos, mais atentos, quanto mais atento, mais aptos, quanto mais apto, mais confiantes, quanto mais confiante, mais satisfeitos.

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