Detalhes que nos afastam da realidade

A meditação, dentro da tradição monástica cristã, não é O caminho, mas uma forma de caminhar O caminho até Deus, minimizando o efeito dos excessos de detalhes e distrações que alteram a identidade e fazem o ego reagir de forma obsessiva, nos afastando da simplicidade e desenvolvendo uma complexidade nociva que procura proteger o ego dos julgamentos que fazemos de nós e dos outros, a partir desses detalhes.

Diminuindo os detalhes aumenta-se a percepção e integração do corpo e da mente com a realidade, simples e espontânea. Naturalmente a realidade pode se tornar complexa e profunda quando experimentada através de laborosos processos lingüísticos, filosóficos, acadêmicos, etc. Essa complexidade apenas aprofundam o coração humano dentro do cérebro. É uma leitura neurótica que o cérebro faz acerca das percepções da sensibilidade. Através da meditação, uma experiência diferente ocorre. Nada é mais complexo do que a criação, com todos os seus detalhes, incluindo nossas mais perturbadas sinapses, e toda essa complexidade não será entendida, mas experimentada, e essa experiência nos liberta para a ação suficiente. Desfaz a ilusão de controle criada pelo ego que retém e articula todos os detalhes que encontra para construir uma imagem divinizada de si mesmo.

Só experimentamos realmente aquilo que decidimos não reter, não se apropriar. Sem desapego não há experiência verdadeira, mas tão somente posse e acúmulo, experiências sobrecarregadas a distanciar-nos da realidade simples que se nos apresenta a cada instante, para viver uma realidade alternativa apresentada pelo ego através daquilo que pretende ser e daquilo que quer fazer-se acreditar ter sido. Abaixo deixo transcrito, a quem interessar, trechos de um autor, responsável por produtivos diálogos ecumênicos com o Budismo, o monge trapista Laurence Freeman.

“Ficamos dominados pela infinidade de detalhes que nos cercam por todos os ângulos. Vão se acumulando e nos obcecam. Aos poucos nos tornamos compulsivos por trivialidades que vão se tecendo a ponto de desfocar a clareza e perturbar a paz. Podemos bem saber que isso está acontecendo. Podemos constatar que um detalhe da vida, uma situação ou emoção, estão fora das proporções, e que, de qualquer maneira, não têm como ser colocados de volta nos seus devidos lugares. O resultado de uma seleção involuntária de detalhes, o que geralmente chamamos de obsessão, não é clareza, mas confusão. Quando os detalhes estão fora de controle e nos inundam, a confusão criada é a maior causa de sofrimento. Ficamos com impressões equivocadas, fazemos maus juízos e, embora saibamos que estão errados, não conseguimos discernir a confusão particular da confusão geral.

Se permitirmos que a confusão aperte ainda mais o nó, ela pode destruir a percepção da realidade como um todo, assim como a neurose escorrega para a psicose. Quando a paz se esvai perdermos o sentido essencial de estarmos envolvidos com a realidade e nos tornamos observadores da vida ao invés de pessoas que a vivem. Os sistemas modernos de informação, novas redes de comunicação e o constante estimulo das necessidades imaginativas das pessoas, têm inundado a vida contemporânea com detalhes. As pessoas reclamam incessantemente da pressão e da confusão.

Não podemos controlar a realidade a nosso bel prazer sem criar uma imagem espelho que conhecemos como a sedutora, mas destrutiva, força da fantasia. A ilusão empregada como base da ação inevitavelmente leva ao conflito dentro de nós mesmos, tanto quanto entre nós e os outros. O ponto inicial para quem quer que esteja começando a meditar, seja qual for o grau de fé, é aceitar que somos confusos e isso nos faz ficar estagnados. A ansiedade que é criada por essa inexatidão leva a um labirinto de erro: desapontamento, desarmonia, raiva, insegurança. Somos confusos e então o coração do problema é sempre o coração humano.

Descobrimos alguma clareza tão logo deixarmos de culpar os outros, a Deus, a economia ou o destino. A meditação nos faz artistas praticantes e não observadores. É algo simples mas muito difícil, pois requer não somente uma seleção de detalhes, como a renúncia a todos eles. Esse é o sentido de pobreza. Durante a meditação ocorre uma constante intrusão de detalhes, ocorre uma entrega involuntária na luta da mente em assumir o controle da experiência. O grande benefício da meditação não ocorre durante a prática da meditação. Começa-se ver as coisas mais claramente pelo desaprender dos hábitos confusos do pensamento, do sentimentos e da percepção. A meditação é aprender a desaprender as reações enraizadas que pensamos erradamente serem da nossa natureza real.

A cultura moderna com sua comunicação à velocidade da luz, seu bombardeio de consciência coletiva carregada de detalhes, sua mídia inundada de trivialidades, tem tornado a mente humana mais distraída, mais confusa do que em qualquer outro período da história. O que distingue a distração da imaginação criativa precisamente a natureza obsessiva e cíclica dos seus processos e conteúdos

O ego é a fonte de confusão em todo processo espiritual”

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