Pensamentos que atrapalham

Tenho observado como que um projetar das coisas nos outros, a fim de se ver mais claramente aquilo com o que se esta lidando interiormente, denuncia um modo de vida cada vez mais centralizado no pensamento. Não haveria muito o que dizer se essa centralização tivesse produzido algum resultado benéfico. Mas não é o que ocorre social ou individualmente. Se toda realidade social começa, de alguma forma, no indivíduo, a forma como esse indivíduo organiza sua vida e a conhece, determina a forma como ele irá lidar e agir no, e com o, Outro.

O pensamento é parte fundamental e necessária da vida ativa do qual o homem depende para agir de forma moral e segundo a causalidade. Entretanto o pensamento é parte do corpo e argumenta segundo condicionamentos psicológicos seja na construção da própria personalidade ou no agir direto com o mundo. É responsável por um auto-conhecimento que pode ser útil porém, como é falseado no grau de desenvolvimento que se possui acerca da linguagem, e das experiências que ela proporciona, essa utilidade é relativizada na medida em que se torna obstáculo para a capacidade de experiência da vida contemplativa.

Dependendo da natureza de cada pessoa, ou do modo de viver assumido, a pessoa tende a ser mais contemplativa ou mais ativa. De qualquer forma ambos os modos precisam coexistir em cada um para que a pessoa encontre equilíbrio integral e não desenvolva vícios obsessivos. A vida contemplativa depende de silêncio interior, ausência de pensamentos, é centralizada no Deus “totalmente outro”, para além das imagens e palavras. Talvez por todos termos o pressentimento acerca do que se oculta para além da inteligência, do pensamento, das palavras e imagens, imaginemos que aquilo que está revelado por elas é mais seguro, já que o oculto nos parece perigosamente suspeito e o que é conhecido nos oferece algum controle e segurança, de forma que a vida ativa acaba centralizada no pensamento. Com isso ela se torna menos ativa, sem se tornar contemplativa, e nem fica no meio do caminho, pois foge para um mundo de idéias e divagações infrutíferas. Essa realidade é tão comum que essa fuga para devaneios e fantasias é o que muitas vezes se entende como espiritualidade. Não é de todo absurdo pois concorre para a piedade e pertence ao processo de maturidade espiritual, mas é um sinal claro de que mesmo quando se pretende exercer uma experiência contemplativa, puramente espiritual, o pensamento não abre mão se ser o diretor e, com isso, se torna o grande obstáculo para o equilíbrio.

Penso que o pensamento não pode ser o centro da vida ativa nem da contemplativa, mas sim uma postura de humildade pois na vida ativa o pensamento está sujeito ao tempo e ao desenvolvimento intelectual que por ele é usado, sempre parcial e mais propenso ao erro do que ao acerto – ainda que isso fique submerso pelo tempo e o que nele se revela. E na vida contemplativa não podemos mais do que está aberto, disposto e livremente a deriva, confiantes no resgate, esperando paciente e silenciosamente – ainda que perfeitamente quietos interiormente.

Se estamos sempre dependendo da Graça para entender de forma justa o que nos é revelado ao pensamento, ou para experimentar a comunhão que nos é concedida em contemplação, o centro de nossas vidas deveria ser uma postura de mansidão e humildade. De paciência e piedade para com tudo e todos.

Buscando sempre o retorno do silêncio quebrado em cada palavra ou gesto. Dividindo a existência em ir e vir. Em trabalho e silêncio. Em atividade e contemplação.

Centralizados em nossas próprias faltas, talvez não nos projetaríamos tão facilmente no outro, ou pelo menos perceberíamos essa nossa intenção. Tendo isso nos revelado o nosso erro, depois do impulso inicial que leva a nos envergonhar dessa insuficiência, nos humilharíamos ao ver que fugimos da responsabilidade, da superação, imputando a outros uma realidade que é nossa – naquilo em que ela pode ser particular. Isso talvez nos levasse a humildade e a mansidão de forma mais aguda, porém mais permanente, de forma que mesmo envergonhado teríamos grande ocasião de agradecimento.

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