O orgulho imita a altura

O orgulho imita a altura, mas só Vós, meu Deus, sois excelso sobre todas as coisas. Que busca a ambição senão honras e glória, embora só Vós tenhais direito a ser honrado sobre tudo e glorificado eternamente? A sevícia dos poderosos aspira a fazer-se temer; mas quem deve ser temido senão Deus? Quando, onde, até onde e quem pode tirar ou subtrair alguma coisa ao vosso poder? As carícias dos voluptuosos desejam a reciprocidade do amor; mas nada há mais acariciante que a vossa caridade, nem se pode amar nada mais salutar que a vossa verdade, a mais formosa e resplandecente de todas. A curiosidade parece ambicionar o estudo da ciência, quando só Vós é que conheceis plenamente tudo!

Até a própria ignorância e estultícia se encobrem sob o nome de simplicidade e de inocência. Mas nada se encontra mais simples do que Vós. Quem há mais inocente do que Vós, pois são as próprias obras que prejudicam os pecadores? À preguiça parece apetecer apenas o descanso; mas que repouso seguro há fora do Senhor? A luxúria deseja apelidar-se saciedade e abundância; Vós, porém, sois a plenitude e a abundância interminável da suavidade incorruptível. A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade; mas o mais magnânimo dispensador de todos os bens sois Vós. A avareza quer possuir muito; e Vós possuis tudo. A inveja litiga acerca da “excelência”; mas que ser há mais excelente que Vós? A ira procura a vingança; e quem se vinga mais justamente que Vós? O temor, enquanto vigia pela segurança das coisas que ama, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados que lhes sejam adversos; porém, que há de insólito para Vós? Que há de inesperado? Quem separa de Vós o que amais? E onde encontrar a firme segurança senão em Vós? A tristeza definha-se com a perda dos bens em que a cobiça se deleita — porque desejaria que nada, como a Vós, se lhe pudesse tirar.

É assim que a alma peca, quando se aparta e busca fora de Vós o que não pode encontrar puro e transparente, a não ser regressando a Vós de novo. Imitam-Vos perversamente todos os que se afastam de Vós e contra Vós se levantam. Ainda assim, imitando-Vos deste modo, mostram que sois o Criador de toda a natureza, e que, por conseguinte, não há lugar para onde nos possamos afastar totalmente de Vós .

Que amei, portanto, naquele roubo e em que imitei o meu Senhor, ainda mesmo criminosa e perversamente? Tive ao menos o gosto de lutar pela fraude contra a vossa lei, já que o não podia pela força, a fim de imitar, sendo cativo, uma falsa liberdade, praticando impunemente, por uma tenebrosa semelhança de onipotência, o que me não era lícito? Eis-me “aquele escravo que. fugindo a seu senhor, seguiu uma sombra!

Ó podridão, ó monstro da vida e abismo da morte! Como pode agradar-me o ilícito sem outro motivo que o de me ser proibido?
Santo Agostinho / Confissões (Adolescência, 13.14)”

Santo Agostinho desenvolveu uma tese filosófica na qual “a atividade consciente ou inconsciente dos seres imita a ação do Ser. Os seres, para se valorizarem, procuram manifestar sua pequena natureza imitando, no pecado, a atividade de Deus. Nessa bela passagem de seu livro ele procura entender o que lhe agradara num furto cometido aos 16 anos. Verificado que do furto buscou apenas concretizar uma vontade de poder, violando o que era proibido, constata de que sua insignificante atividade de criatura procura reproduzir, através dessa arbitrariedade, a atividade espontânea do Criador – tornando-a, no pecado, perversa.

“É assim que a alma peca, quando se aparta e busca fora de Vós o que não pode encontrar puro e transparente, a não ser regressando a Vós de novo. ”

Na teologia cristã, Deus nos ama independente de nossas qualidades e virtudes e isso é fundamental para aceitarmos o perdão. Já que falseamos no corpo a identidade do espírito, precisamos constantemente confessar à simplicidade toda a complexidade com a qual tentamos absorver e justificar essa errada busca exterior que tende a replicar e criar um eu-deus que nos afasta cada vez mais de Deus. Desprendidos da complexidade criada pela distância que essa busca exterior causa em relação a Deus, podemos experimentar esse sentimento de Agostinho.

Se por exemplo tentarmos exercer controle, estamos vigiando pela segurança das coisas que amamos. Então vigiamos para possuir essa coisa e/ou também vigiamos algo que tenta imitar a natureza de Deus, pois Deus não precisaria ser vigiado. Se Nele está o que procuramos ao imitá-lo, ter Deus seria uma loucura, ser tido por Deus é o que de mais elevado e completo poderíamos desejar, deixariamos a absurdidade de suportar o peso de ser deus para sermos suportados sem qualquer peso por Ele. Pois nada pode separar Dele, o que Ele ama:

“O temor, enquanto vigia pela segurança das coisas que ama, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados que lhes sejam adversos; porém, que há de insólito para Vós? Que há de inesperado? Quem separa de Vós o que amais”

Buscar essa confissão pessoal acerca de nossas arbitrariedades que fazem do orgulho um sedutor que nos leva a imitar, ainda que inconscientemente, a Altura, nos torna  mais simples. Nos torna aptos a perceber a atividade de Deus como presente, constante e imutável. Para além dos fenômenos que nos chocam ou alegram. E ver, através desses fenômenos, a liberdade que nos é concedida. Livres da imagem divinizada de nós mesmo, a humildade surge e permite que vejamos fracassos e sucessos, tragédias e glórias humanas, centrais em nossa vida, como a periferia da atividade divina. Elas se inverteria junto com a inversão que fazemos de imitar Sua atividade.

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