Orientação da fé

A revista Época de Dezembro trás uma matéria sobre os mitos acerca de Deus e apresenta um livro no qual “expõe a fragilidade dos ataques recentes à religião”. Vale uma leitura.

A autora, uma freira que abandonou a Igreja e perdeu a fé, veio resgatá-la anos depois, se definindo, agora, uma monoteísta free-lancer. A matéria até que é interessante mas não defende a religião e parece mostrar que Deus está virando uma espécie de fitoterápico para a ausência de sentido na qual o homem vem percebendo ter se precipitado. A saída para se falar em Deus de forma aceitável, principalmente na midia, tem sido globalizá-lo ou sucateá-lo até que se torne um acessório universal, um gadget, um chaveirinho. Num mundo que faz da realização de desejos individuais a justa medida para todas as coisas, um deus criado por idiossincrasías, não significa nada. É apenas uma desculpa para legitimar e reforçar defeitos, apegos e complexos. Esse deus não pode nada além do que podemos circustâncialmente. Buscar a Deus de forma autodeterminada não é ilegítimo mas parece ser imensamente contrário à própria razão que prescinde de métodos, ritos e sacralizações que a estimulem ceder espaço para a fé. Sem ascesse, sem disciplina, sem orientação, a fé, como água que purifica e oxigênio que renova as forças, acaba sendo aplicada erradamente sobre as fechaduras da razão, enferrujando-as. Dificultando ainda mais o acesso ao divino.

As religiões são trilhos construídos ao longo da história dos povos como legado de seus esforços na busca do Deus misterioso e criador. Relegá-las a definições convenientes àquelas idiossincrasías pós-modernas acaba por criar esse deus modernoso resultante de um self-service teológico que coloca dentro da feijoada uma manga rosa e um pedaço de bolo.

Certamente que são trilhos cercado de erros grosseiros e acertos gloriosos. Mas não há nada hoje em dia que corra sobre trilhos perfeitos. Retirá-los significa o ápice do individualismo autodeterminado que tenta, como se vê, primeiro matar Deus e, debois de redigido o óbito, vendo que não se consegue extinguir a chama que o mantém vivo, trazê-Lo de volta para ilhá-Lo fora do alcance das religiões. Chega a ser dramática essa tendência humana, em querer se vingar de um Deus que não acreditam. Certa vez li uma matéria onde um movimento na Argentina, promovia o desbatismo para àqueles que não acreditavam em Deus. Algo incrivelmente absurdo. É o famoso cúmulo da revolta:”Morar sozinho e fugir de casa”.

Mas o Deus em questão, Aquele que se busca históricamente não é esse deus criado por uma projeção complexada, alimentado pelo egocentrismo social, mas sim um Deus que se prescente por um laboroso exercício de fé. E a fé precisa ser orientada externamente, experimentada, e transformada interiormente. A ciência precisou tomar probabilidades por certezas para pode ir adiante, e sempre há um adiante. Dessa forma chegamos até aqui. Com a fé não é diferente. Diante de uma probabilidade não cabe julgar sua certeza, mas assumí-la de acordo com o destino que se busca.

As religiões foram se consolidando na história por determinações coletivas acerca de uma experiência guardando em sí, acima de todos os erros e acertos, uma sabedoria universal que não podemos julgar de forma tão pragmática e tão pouco descartar de forma tão irresponsável.

Se alguém considera Deus como origem, meio e fim de toda existência e pretende caminhar de forma autodeterminada, então, antes de mais nada, pretende chegar até Deus intencionalmente só, experimentá-lo, e guardá-lo para sí, numa atitude tão egoísta que contradiz o Deus que compartilhou a vida em manifestações tão multiforme. Ou então, querendo compartilhar tamanha verdade, irá colocar a outros os seus trilhos, julgando ter chegado sozinho onde as religiões levaram milênios para chegar.

Acredito mais no diálogo interreligioso a partir do qual práticas e experiências possam ser compartilhadas ou integradas a fim de aproveitar e respeitar uma sabedoria já vivida, do que nas megalomanias disfarçadas pelo self-service religioso autodeterminado orientado ao consumo, seja de bens, de ideologias ou de identidades.