Submeter-se

Não somos imperfeitos por uma imperfeição do Criador mas por submetermos o espírito às vontades do corpo, buscando sentidos contingente a existência. Nada pode dar sentido a uma existência a não ser quem a fez existir. A mais complexa e a mais simples obra de arte só encontra seu significado na identidade do Criador, do seu artista.

Somos criaturas imperfeitas de uma criação perfeita. Erramos quando nos justificamos em nossa imperfeição, quando nos submetemos à essa condição limitada. Também não acertamos quando criamos elevados ideais de perfeição que ignorem e violentem os limites existentes. Constatar nossa condição imperfeita não é argumento para optar por ela. É uma condição natural, inexorável. A criatura não pode submeter o Criador assim como a escuridão, diante da luz acesa, já está submetida. Porém, em Sua sabedoria, o Criador não nos impõe essa condição natural para que, assim, aceitando-a livremente, encontremos toda dignidade da qual o espírito não pode prescindir para conduzir o corpo, pela sabedoria, ao governo do mundo “na santidade e na justiça, e proferir seu julgamento com retidão de alma” (Sab. 9, 3)

Quando o homem opta por essa condição imperfeita ele passa a viver “dela” ao invés de viver “nela”. É uma postura interior que faz toda a diferença pois não podemos esperar que uma condição da qual dependemos simplesmente mude, pois ela nos serve de alimento. Por isso é comum passarmos a defendê-la. Fica muito difícil vermos as coisas com clareza, e quase impossível realizarmos mudanças dessa forma. Quando não dependemos de nossa condição ai então podemos mudá-la pois, neste caso, nós é que somos o alimento dessa condição. De qualquer forma mudar significa submeter-se a uma nova condição. Se passamos a nos alimentar do Deus que nos precisa assim, como somos, nos tornamos independentes de qualquer condição. Dependemos de Deus e não da nossa condição. Não se trata de almejarmos a perfeição absoluta do Criador, mas aquela que nos cabe, como criatura, para o Criador. A certeza do fruto renascer ao lado de sua árvore, está na semente que essa árvore confiou ao seu fruto.

Submeter-se é algo inevitável. O que podemos decidir é a quem submeter-se. Eu me submeto a Deus. Só assim posso honrar a vida que me foi confiada. Só assim permito que o corpo seja como o fruto que protege o espírito, onde reside toda esperança, até que o entregue novamente ao solo, maduro, para renascer ao lado de Deus.

A passagem Bíblica sobre Jesus no Getsemani nos inspira o entendimento de como o ser humano deve submeter o corpo ao espírito: Jesus, que havia tomado alguma distância dos apóstolos para poder orar em paz, retorna e os encontra dormindo. Acordando-os, adverte: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto mas a carne é fraca” e afastou-se pela segunda vez. Jesus, que é Deus, pede ao Pai que lhe afaste, se possível, o cálice do sofrimento que estava por vir. Diz , “não se faça como eu quero, mas como tu queres”.

Qual seria a diferença entre o querer do Filho e do Pai? Para nós, de reflexão insuficiente, isso sugere uma contradição já que Jesus, que é Deus, juntamente com o Pai, parece contrariar a si mesmo. Não podemos comprender a Santíssima Trindade por meio de nossa razão lógica, mas ela pode nos ajudar a entender o que é esperado de nós.

O “eu” e o “tú” na oração de Jesus não caracterizam uma contradição de querer entre duas pessoas distintas, mas uma contradição de condições distintas de uma mesma pessoa. Tão pouco diria contradição, mas antes paradoxo. Paradoxo apenas superado no nível espiritual.

Jesus não quer outra coisa senão a vontade do Pai entretanto, na condição de homem, revestido de um corpo sensível ao mundo, Jesus conhece o sofrimento, a dor, as tentações que quererem limitar a ação do espírito. “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Diante da disputa entre as necessidades transcendentes do espírito e as exigências contingentes do mundo, Jesus sente medo e angústia. As certezas do espírito não se apresentam de forma tão concreta quanto as visões do sentido. Estes nos atacam na pele e, pelo tom imperativo de sua manifestação, quer submeter o espírito ao corpo, tornando limitado, finito, aquilo que não pertence ao tempo e ao espaço. Jesus nos mostra que não devemos submeter nosso espírito, mas antes o corpo, para que o inteiro não perca sua continuidade no fragmento. Na vontade do Pai o espírito encontra a força necessaria para render o corpo, intrumento último de Deus no mundo para os fins de Sua obra.

Jesus nos ensina que em momentos de crise entre o concreto e o sensível, entre as exigências do verdadeiro que se prescente, somente a oração pode permitir que o espírito habite o corpo sem com isso tornar-se do mundo, e que o corpo dê abrigo ao espírito sem com isso dissolver-se no etéreo. A oração permite que o corpo e o espirito mantenham suas identidades e dignidades intactas.

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